segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

SOPHIA


Siomara, com 20 semanas de gestação, esperando Sophia.
 Foto tirada pelo papai Rhenato,
 na 
Casa da Aranha, Ilha de Itaparica - BA.

Cresce em mim
Uma deusa:
Sabedoria divina.

Se forma em minh´água
Uma fêmea,
Como eu:
Sabedoria da alma.


Fenda dentro de fenda.
Falésias,
Abismos...
Caminho do meio:
Sabedoria da natureza.

Sagradas somos,
Geradas de divas
E bruxas,
Feiticeiras
E fadas:
Sabedoria encantada.

Cresce em mim,
Mulher-mãe,
Uma menina:
Sophia.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

HOJE COMPLETO 29 ANOS

E hoje sou aquela novidade surpreendente que eu
(não) esperava no ano passado...

Hoje me sinto um bebê recém-nascido,
num corpo de mulher que está gerando um outro bebê.

Hoje eu quero colo e quero dar colo também.
Hoje eu não choro, porque sou apenas contentamento.
Hoje eu me alimento e alimento a outro ser.
Hoje me sinto de uma maneira nunca sentida antes:

Sou Deusa.

sábado, 31 de outubro de 2015

VIDA AQUÁTICA

''Debaixo d´água tudo era mais bonito,
mais azul, mais colorido,
só faltava respirar,
mas tinha que respirar...'' 
- Maria Bethânia

Flutua em minhas águas
Nada no meu mar
Imerso em minha candura
Entregue ao meu amor.
És também filho da Terra,
Do Fogo e do Ar!

Se desenvolve a cada dia
Com uma nova forma animal
Já foi célula, réptil
E agora a fase do ápice cerebral...
Que seja humano,
Verdadeiro e puro!

Eu, Siomara, com 15 semanas de gravidez.
Evoluindo, como toda forma de vida
Pulsando acelerado, almejando essa experiência
Tem sede de ar, sei que quer logo respirar
Mas ainda há tempo...
Estou tranquila a te esperar,
Se dê seu tempo!

Flutua em meu ventre
Nada no meu líquido sagrado
Imerso em minha ternura
Entregue aos meus cuidados.
És também filho
de toda a humanidade!


(Dedicado ao meu 
mais novo grande amor:
Que já é laço eterno,
elo de alma e DNA.)





domingo, 18 de outubro de 2015

VAI DE BISCOITO OU DE BOLACHA?


Aqui, na minha terra
Nem me venha com bolacha!
Eu chamo tudo de biscoito
Do cream cracker à recheada.

Eu não comeria nada com nome Bolacha
Porque lembra bola,
Inchada.
Porque lembra chata,
Entediada.
Porque lembra borracha,
Não é crocante!

Eu só como biscoito:
Porque lembra Bis,
Que delícia!
Porque lembra coito,
Que gostoso!

Biscoito faz ''crock''
É versátil
É viciante.
Quero mais um bis
Quero bis no coito
Quero mais que um biscoito!


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

PRESSÁGIO

Ele diz que algo novo há de surgir
Me garante que algo hei de criar
Que hão de haver pessoas para apoiar
Que hão de haver ações para seguir

Ele diz que do nada surge o quê da criação
Me garante que algo vem da aparente solidão
Que vibra, pulsa, incendeia em mim
Que lancinante, move tudo aqui

Agora olho pra dentro
Onde nada encontro tanto
E dói porque é vazio
estômago cheio d´água
coração cheio de estrelas
e ferve a alma repleta de infinitude
e ferve a mente transbordante de céu
e ferve o sangue levando vida ao caos

Agora olho pra fora
Onde tudo encontro pouco
E dói porque é cheio
Sala cheia de vento
Estrada cheia de pó
e ferve a rua repleta de quase-perigos
e ferve a lua transbordante de mar
e ferve a palavra presa na ponta da língua

Ele diz
Me garante
Que tudo vive
Apenas um instante



ROMANTISMO EM CRISE

Poesia barata
Rima pobre
Métrica fácil
Metáfora cafona
Tudo clichê!

É pós-moderno 
Achar que não se pode mais amar
É contemporâneo
Acreditar que não há mais amor
É aceitável
Amar apenas o que dá prazer
É compreensível
Ver sentimentos em liquidação
É tolerável
Saber que nada dura mais que o instante
Um fato atual: 
O amor é banal.

Poesia clichê
Rima fácil
Métrica pobre
Metáfora barata
Tudo cafona!




segunda-feira, 5 de outubro de 2015

OS LADOS


O LADO BOM DE FAZER EXERCÍCIOS FÍSICOS DIARIAMENTE:
Você respira melhor; você dorme melhor; você se sente mais feliz, pois aumenta
produção de hormônios do prazer e do relaxamento;
você emagrece, sem passar fome com dietas loucas; você ganha tônus muscular;
você eleva sua autoestima, não só pela mudança estética, mas por se sentir
vitoriosa a cada limite superado (tempo de corrida, por exemplo);
você ganha condicionamento físico e mais disposição para outras atividades
do cotidiano, etc.

O LADO RUIM DE FAZER EXERCÍCIOS FÍSICOS DIARIAMENTE:
Você é exposta a comentários obscenos sobre seu corpo e
sua sexualidade, vindos de homens desconhecidos na rua, durante seu trajeto
até o local onde você pratica seus exercícios físicos (quando não passa por isso
no local propriamente dito também!)...


EI, TEM ALGUMA COISA ERRADA AÍ!

ESSE LADO RUIM NÃO É DO ATO DE FAZER EXERCÍCIOS FÍSICOS.

ESSE É UM DOS LADOS RUINS DO MACHISMO!!!

SIM, É O MACHISMO QUE FAZ MUITAS MULHERES DESISTIREM DE CUIDAR DOS SEUS CORPOS, DA SUA SAÚDE, SABIA??? MUITAS MULHERES SE SENTEM COIBIDAS E DESESTIMULADAS A SAIR DE CASA E SEREM SUBMETIDAS ÀS PALAVRAS RUDES DO MUNDO.

''Ah, tá achando ruim, não vá de roupa colada, não vá com tudo desenhado...
É cultural, se o homem vê, ele fala, porque ele quer expressar sua masculinidade!''

NÃO!!!
PARA DE REPRODUZIR ESSE ARGUMENTO ESTÚPIDO!!!
PRIMEIRO QUE A MULHER PODE SE VESTIR COMO QUISER
E ISSO NÃO DÁ DIREITO A NINGUÉM DE DESRESPEITÁ-LA.
OUTRA COISA, É MUITO DESCONFORTÁVEL FAZER ATIVIDADE FÍSICA COM
OUTRO TIPO DE ROUPA QUE NÃO SEJAM AS ESPECÍFICAS PARA TAL AÇÃO.
E GERALMENTE ESSAS ROUPAS SÃO CURTAS E/OU JUSTAS NO CORPO, PARA FACILITAR OS MOVIMENTOS.
DEPOIS, É MUITA INJUSTIÇA VER OS HOMENS COM A LIBERDADE DE MALHAR, CORRER, JOGAR BOLA SEM CAMISA, DE SHORT CURTO; MAS A MULHER TEM QUE ESTAR DE BURCA PARA SER RESPEITADA! ¬¬

PORQUE SE ELA ESTIVER DE ROUPA CURTA CERTAMENTE SERÁ OBJETIFICADA, E DESEJADA, E OUVIRÁ OBSCENIDADES...
PORQUE ELA É UMA PUTA; PORQUE ELA TA PEDINDO;
PORQUE ELA SABE QUE A SOCIEDADE É ASSIM E SE VESTE ASSIM PARA PROVOCAR; PORQUE O MUNDO GIRA EM TORNO DOS PINTOS DOS HOMENS E TUDO O QUE A MULHER FAZ É PARA ELES E POR ELES...
SÓ QUE NÃO!!!!!

ENTÃO, CORRIGINDO O FOCO DA ABORDAGEM.

O LADO BOM DO MACHISMO: Inexistente.

O LADO RUIM DO MACHISMO: Imensurável.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

VIDA DE PASSARINHO


Passarinho vive assim:
Voando para todos os jardins
Pousando aqui e ali
Bicando amora e caqui
Deixando um canto em cada canto
Encantando os homens-pássaros...

Mas chega o homem-homem,
Que não sabe voar,
Porque não soltou suas asas,
E coloca o passarinho numa gaiola
Porque acha o seu canto bonitinho.
Na verdade, o homem-homem tem inveja
Da liberdade pura e divina, desapegada
De um ser supostamente inferior e frágil
E não contendo sua fúria, prende o bichinho.
E quer que ele cante feliz, como se estivesse livre.

Não dá, homem-homem!
O passarinho não é mais...
Virou seu bibelô:
Respira e pia vez ou outra, de dor.
Mas certamente deixou de Ser.
Pois só se pode Ser estando livre
de toda e qualquer prisão.

Solta o passarinho, homem-homem!
Liberta seu coração!


domingo, 27 de setembro de 2015

FILTRO DOS SONHOS


Vamos filtrar os sonhos,
Porque a noite é uma criança
É necessário limitar as crenças
Para não perder, tão cedo, a esperança

Vamos filtrar os sonhos,
Porque, muitas vezes, vem mascarando pesadelos
É necessário alimentar tudo o que há de bom
Afastar o mal, cuidar do bem com zelo

Vamos filtrar os sonhos,
Porque a vida é festa à fantasia
E nesse vai e vem de máscaras
Nem tudo que brilha é alegria

Vamos filtrar os sonhos,
Porque nem sempre dá para viver de utopia
É necessário separar o que é tangível
Daquilo que dificilmente aconteceria.

Aí,
Filtrado
Decantado
Destilado
Um sonho puro
Pode se tornar real.

Filtro dos Sonhos feito por mim.
Presente para um amigo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

COM LICENÇA POÉTICA DO DESEJO

"Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada."
- Hilda Hilst


Porque há desejo em mim
É tudo incandescência!
Não, não cintila apenas:
Queima, ferve
Derrete a pele
Sangra a carne
Faz a mente delirar!

Antes o cotidiano era
Um pensar qualquer
Do cosmos ao caos
Do canto ao cais
Agora, já nem penso mais
Só há desejo
Esse que consome
Invade
Engana
Não ama.
Corrói.

Sonhei luxúria
Onde não havia: Nada.
Nem um laivo de paixão.

Resignada, fodo comigo mesma!
Ao invés de reprimir minha vastidão intensa.


PRIMAVERANDO

A natureza em mim já se prepara
Sente que se aproxima a hora
De despontar o broto
E desabrochar em flor

O corpo tem sua sabedoria
Espera o tempo de se recolher
E conhece quando deve se expandir
Sabe quando bloquear um sentimento
E, mais ainda, quando deixar fluir

Está primaverando...
Há borboletas na janela
Beija-flores no jardim...
Começa uma nova era
Um novo ciclo
De amor em mim.


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

CANTAREI

Uma canção de amor
Que tenta fugir de todo clichê
Que precisa apenas de verbo
E não se eterniza no passado

Uma canção de amor
Que nasce e morre no instante
Que se sustenta em cada beijo
E se manifesta no agora

Uma canção de amor
Que enxerga a alma gêmea como ela é
Que não projeta nela idealizações
E venera cada partícula do Ser

Cantarei o próprio amor
Transformado em melodia
Alma vibra o encontro

Uma canção de amor
Que não usa hipérboles travestidas de paixão
Que até usa metáforas com parcimônia
E que não compara, não (sub)julga

Uma canção de amor
Que é livre de rimas e métrica
Que liberta da dor e do ciúme
E não cabe em si, transborda.

Cantarei o próprio amor
Transmutado em harmonia
Alma viva no encontro.





domingo, 20 de setembro de 2015

REINO


Hoje tive minha alma desnudada.
Hoje me confrontei, novamente,
com fatos terríveis sobre essa personalidade que julgo ser Eu.
Eu!!!
Hoje constatei, reafirmei,
senti vibrar em cada átomo que compõe esse holograma Siomara,
o quanto estou morta e o quanto ainda cultuo esse defunto.
Deus, Amor, Confiança, Honestidade, Morte, Eu...
Está tudo abalado, fragmentado, chacoalhado...
Em suspensão aqui dentro (mente).
Percebi onde habita todo o meu amor: na vaidade.
Onde habita toda a minha fé: no apego.
Onde habita toda a minha dor: nos meus desejos.
Onde habita toda minha bondade: no meu egoismo.

E dói assumir a responsabilidade por si mesma!
E dói perceber que ainda persisto em alimentar toda essa canalhice...
E dói, porque já não faz sentido manter vivo um zumbi que suga minha energia,
que fala por mim, como se fosse Eu, mas palavras torpes e mentirosas.

Não estou sendo honesta comigo!

Não tenho sido Eu há pelo menos uns 28 anos...
Ah, é, tenho 28 anos!
Aquilo que eu penso ser eu está morto:
é memória, é tradição, é conceito, é teoria,
é estrutura, é molde, é gesso...
Inanimado! Já não serve mais.

Preciso perceber que há algo novo em mim a cada inspirar-expirar
e só isso é verdadeiro.
Só a ação é verdadeira.
O que vem depois da ação é só tradição - traição.

Meus conteúdos precisam ser esvaziados... Estou transbordando.
Preciso chorar. Preciso de abraços, afagos
e uns tapas na cara para ver o que realmente dói:
É a pele ou é o brio? É a carne ou é o símbolo?

Senti ciúme.
E o que é o ciúme se não o espinho discreto
 que se camufla sob a rosa do amor?
A gente ama outra pessoa mesmo?
Se ama, porque sentir ciúme? É normal mesmo?
Até quando?
NÃO! EU NÃO AMO NINGUÉM MESMO!
O ciúme me fala o quanto tenho medo (eu, essa personalidade vil)
de ser preterida, esquecida,
substituída, inutilizada, desvalorizada...
O que o ciúme aponta é o medo desse ego de não ter seus desejos atendidos,
suas necessidades satisfeitas, suas lacunas preenchidas (mesmo que temporariamente).
Tudo falso! Tudo ilusório!
TUDO UMA GRANDE TRAPAÇA!

Enquanto eu não abandonar esse cadáver que chamo de Minha Personalidade,
 Eu, Meu Ego, etc, viverei de farsas, mentiras, corrupção,
engodo, máscaras e contradição...
Enquanto eu não aceitar o que de fato é (não o que acho que sou),
viverei presa nesse ciclo humano de dor e prazer, até enjoar...

E o choro vem para lavar meus olhos
que acabaram de enxergar tanta podridão no espelho.
E eu choro, porque não me resta mais nada agora.

Chorar é ato.
Secar é ato.
Respirar é ato.
Morrer é ato.
Nascer é ato. A cada segundo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

UNIR VERSOS

Unir versos
Formar estrofes
É vida de poeta
Que, em um ponto,
Nasce e morre
Para se eternizar

Universos
Tão diversos
Tantos versos
E eu limitada à frase
Discutindo o uso da crase
Achando que amar é uma fase

Um inverso
Um paradoxo complexo
Essa mente profana
De artista mundana
Que deseja não desejar
Que quer não querer
Idealizar um futuro perfeito
Daqui a dois segundos
Fecundos
Profundos.

Um verso sem verbo
Controverso em seu teor ideológico
Imerso em suor e sexo.
Seguido de (in)sensatez.
Depois caos.
Depois paz.
Depois.


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

ESTADO

Já fui
Já foi
Passou
Não há antes
Não há depois

Eu sou
Estou
Agora respiro
Vibro
Percebo
E crio
Meu universo astral

Não há mal
Não há mau
Só o bem
Só o bom
E o belo
Elo
Unindo
Eu e eu
Você e Eu
Todos nós.

Ar entra e sai
dos alvéolos
dos porões
das janelas
dos pulmões

Vida há
Em toda parte
Arde, arte
Queima e Reina
Invade o corpo
Ocupa a mente

Não fuja
Encare
Confronte
Desvende
Entenda
Perceba
O seu estado atual

Estado limitado de desejo
Estado limitado de animal
Estado limitado de medo
Estado limitado de carnaval

Respiro
Percebo
Paro de pensar
Sinto tudo vivo em mim
E fora
E ao redor
Eu sou.
Estou em tudo
Percebo meu estado atual

Estado emancipado de observação
Estado emancipado de compreensão
Estado emancipado de iluminação
Estado emancipado de evolução
Estado emancipado de humanidade.

sábado, 15 de agosto de 2015

COMEÇOU NO NEOLÍTICO


Éramos veneradas
Deusas-mães
Solos férteis
Vagina sagrada
Ventre cheio
Vida plena
Homens humildes
Mulheres em paz.

Dividiam tarefas
E faziam festas
Trepavam por diversão
Então apareciam
As fêmeas prenhes:
Milagres da natureza.

Eles não sabiam que participavam da reprodução.
Acreditavam que a mulher era divina e sozinha gerava
A cria em seu ventre, unindo fogo, terra, água e ar.

Até que, juntaram carneiros e ovelhas,
E notaram que logo após a cópula,
As ovelhas davam barriga.
Descobriram que seu sêmen era a semente da vida.
E além, perceberam que um único varão poderia emprenhar 300 vadias.
E começou toda a discórdia.

Quebraram as estátuas de barro com mulheres redondas
No lugar delas, falos enormes rijos e eretos.
Em toda parte a força do pênis era o símbolo de poder.
E começou ali, no neolítico, o patriarcado que 
Usando de violência e crueldade, impõe regras e limites torpes
Ao, outrora livre e sagrado, corpo da mulher.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

VONTADE DE CHORAR

Sem motivo aparente,
Me vem à mente esse vazio que dói
Me vem à boca esse silêncio que corrói
Me vem aos olhos a ausência de lágrimas
Seca em corpo, inundada em choro na alma

Posso observar todo esse sentir
Posso deixar fluir todo esse devir
Ou posso me entregar ao sentimento de solidão
Ou posso me devastar em tempestade e imensidão

E por mais que me saiba amada
E sabendo ser amada, creio na proteção do amor
Me sinto solta, perdida, no mundo das possibilidades infinitas
Onde estou aqui abraçada com meu amor-próprio
E em instantes sinto-o arrancado do meu âmago
Me deixando desamada de mim.

Quem levou meu auto-amor?
Quem ousou me desnudar?
Agora não importam respostas
Só sei do sinto: essa vontade de chorar.


sexta-feira, 31 de julho de 2015

NOTAS DELA SOBRE ELA MESMA

Mulher.
Gorda.
Preta.
Cabelo crespo.
Pele marcada.
Boca carnuda.
Sorriso largo.

Maravilhosa.
Graciosa.
Poderosa.
Caráter íntegro.
Plena de si.
Boa de papo.
Suave companhia.

E tudo o mais que for dito sobre ela
Será considerado apenas mais um aspecto desse caleidoscópio.
Tudo o que for sobre ela, ''positivo ou negativo'',
Será tambem sobre todas as outras.

Ela é célula-tronco.
Ela é parte de um todo
que contem o todo em sua parte mais íntima.
Ela é caco de azulejo do mosaico feminino universal.

terça-feira, 28 de julho de 2015

A ESTRANHA

Eles querem que eu me encaixe
E não me ache
Não me ache mesmo,
Por que tenho que procurar
meu lugar...
Mas que lugar é esse
que eles insistem me colocar?

Eles querem que eu me enquadre
E me cale
Me cale mesmo,
Por que ''quem sou eu
para falar''?
Apenas alguém incomodada
e, a essas pessoas, eles mandam se mudar!

Eu só espero que não me desprezem
Nem menosprezem o meu gritar.
Porque estou aqui com vocês
E faço parte dessa farsa
chamada sociedade.

Eu só espero que não me internem
Nem tentem me silenciar.
Porque se escrevo, quero ser lida
E à essa altura,
nem faço questão de ser linda
Só quero te tocar.

Com lágrimas em versos
Com sorrisos em estrofes
Sou ''a estranha'' forma humana
Que passa invisível
Quando há multidão.

Com alfinetadas em palavras
Com afagos em oração
Sou a preterida dos amantes
''A estranha'' forma humana
Que vive na solidão.

SESTA

Deitei à tarde,
Para descansar.
Não era para dormir,
Mas nem percebi.
Quando acordei,
Já havia escuridão.

Deitei à tarde,
Para sonhar.
Não era para dormir,
Mas não evitei.
Tive pesadelos.
No susto, levantei de supetão.

Dei um tempo
Só para mim
Para sedimentar ruídos mentais
Que foram chacoalhados por ervas medicinais.

Dei um tempo
Só para tudo
Para organizar a desordem do eu
Que ficou mais caótica do que há alguns segundos.

Sonhei penhascos,
Quando havia abismo aqui dentro.
Me joguei
Despenquei
Cai.

Quis amar o mundo,
Quando havia carência de afeto aqui perto
Me olhei no espelho
Chorei
Sorri.

Procurei nos outros a mesma chave
que os outros procuram em outros outros, em mim...
Procuramos, todos juntos, fora
A chave que nem existe:
Foi inventada para distrair.

Deitei extasiada em gozo.
Me cobri de leveza e um pouco de culpa.
Por que tanto barulho lá fora?
Por que tanto sussurro aqui dentro?

Quis apagar dessa realidade estranha
E me libertar da prisão
cuja carcereira,
cela, cadeado
e hierarquia
são todas Eu.

Acordei amassada em mais ilusões e fantasias.
Continuo de olhos abertos, no meu reflexo de letargia
Em que se dorme acordada no rufar dos medos
e se acorda dormente no tilintar dos desejos.

Abri os olhos,
Lua cheia.
Sinto frio
e ainda sono.
Boa noite.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

PUTA EMPODERADA


FUMA A GANJA.
SENTE O CORPO SUAVE.
UM VEM MORDENDO SEU BRAÇO
E ELA SE DEIXA LEVAR PELO ARREPIO QUE DÁ...
O OUTRO BEIJA SEUS LÁBIOS,
MOLHA SEU PESCOÇO DE SALIVA E LICOR...
E SÃO TANTAS MÃOS E BRAÇOS
CONSUMINDO SEU CORPO, DANDO-LHE PRAZER,
QUE DÁ VONTADE DE MORRER-VIVER-FUDER-FAZER DE TUDO,
NO MESMO INSTANTE!
E QUE SE DOBRE O TEMPO-ESPAÇO
NA QUINTA DIMENSÃO!
POIS A MENTE DELA JÁ ESTÁ DESINTEGRADA
SÓ RESTA A MATÉRIA DENSA
O CORPO LÍQUIDO, CURVILÍNEO
CHEIO DE VISGO E SUOR,
QUERENDO SER PENETRADO.
UM CORPO FÊMEO
DE MULHER ANTES INGÊNUA
AGORA DOUTORA DAS ARTES SENSORIAIS
ELA É UMA PUTA MESMO!
É UMA PUTA MULHER EMPODERADA!

AGORA ELA SABE O QUE DÁ PRAZER
E PODE ESCOLHER ESSE MUNDO
COMO UMA ALTERNATIVA
PARA SEUS DIAS DE DOR E CAOS
SOZINHA NUNCA: SOU PUTA!
ELA TOCA NOS FALOS DOS DOIS ALGOZES
QUE ESTÃO PRESOS À SUA ENERGIA.
ELA SE SENTE DOMINADA, MAS NA VERDADE
É ELA QUE OS DOMINA E OS GUIA.
ELA ENGOLE AS SALIVAS TODAS...
SE LAMBUZA DE INSTINTO SELVAGEM...
MERAMENTE FÊMEA
PURAMENTE HUMANA.

MARAVILHA DA NATUREZA...
DESFAZ OS NÓS COLOCADOS EM SUA CABEÇA
ELA NASCEU LIVRE E FOI SE EMBOTANDO DE TOLICE PATRIARCAL.
AGORA ELA ENCONTRA A ESPESSA MURALHA DO MACHISMO INTERNO
DISFARÇADO DE RAZÃO...
ELA SENTE PARTES DO SEU MURO A DESABAR,
DESMORONA TUDO,
O MUNDO SE REVOLVE
E ELA SE ENVOLVE MAIS NO PRAZER
DOS OUTROS CORPOS QUENTES E GOSTOSOS.

NÃO PARA O MOVIMENTO
E OS INSIGHTS SOBRE SEU LUGAR NO MUNDO
SEU LUGAR DE FALA
SEU PAPEL DE PUTA
SUA PERSONALIDADE INCÓLUME
SUA FRANQUEZA INFANTIL
DEIXA DE SER CRIANÇA, MOÇA!
ELA ESTÁ PRONTA PARA VIDA,
JÁ COM QUASE 30 ANOS NAS COSTAS!
ANTES TARDE DO QUE NUNCA!
VIVA A FELICIDADE RECÉM NASCIDA!

ELA DÁ OS LIMITES
E ELES DOIS ACEITAM, NÃO INSISTEM
ELES SABEM QUE O MOMENTO CERTO CHEGARÁ
É MUITA NOVIDADE PARA ELA
QUE CRESCEU NUMA REDOMA
E AINDA TEM MUITA MURALHA PARA QUEBRAR
COURAÇA CONCRETA EM MENTE DE MULHER
QUE OUVIU TANTO ''NÃO'' A VIDA INTEIRA
E AGORA APRENDEU A OUVIR E A DIZER ''SIM''
PARA O QUE REALMENTE QUER.
AGORA ELA É PUTA EMPODERADA,
MAS TUDO O QUE DESEJA
É SER CHAMADA APENAS DE MULHER.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

MANA, VOCÊ É LINDA!


























Não ouça os que tentam te colocar para baixo:
Você é linda!

Não ligue para as comparações infames:
Você é linda!

Não se odeie por não ser igual às outras:
Nenhuma é igual, por mais padronizadas que se queiram!

Não, não precisa tomar remédio para emagrecer!
Não, não precisa alisar os cabelos!
Não, não precisa usar saltos absurdos!
Não, não precisa usar lente de contato verde!
Não, não precisa estar dentro da moda imposta por ''eles''!
Não, não precisa usar pó de arroz!
Não, não precisa se modificar tanto no photoshop!
Não, não precisa ter vergonha de suas cicatrizes!
Não, não precisa negar suas raízes, seus traços, seus pêlos!
Não, não precisa odiar o espelho...

É que ''eles'' querem nos colocar em prateleiras
Como se fôssemos objetos de espólio.
E tentam nos padronizar, para ser mais fácil
A dominação capital.
E aquelas subversivas, que não se melindram
Com ataques à sua autoestima
São as loucas, marginais, perseguidas!
Somos nós, na luta pelo direito de ser
Deveras livres, na íntima revolução cotidiana.

Você não é ''estranha, vadia, nojenta, louca''.
Você é linda!

quinta-feira, 11 de junho de 2015

UM SUSTO AUTOMOBILÍSTICO E UMA ESPERANÇA NO SER HUMANO

Hoje meu carro quebrou, por negligência minha.
Estava com vazamento de água e eu sai sem verificar o nível.
Pronto, deu ''esquente''. De repente o carro começou a perder força,
e nem na primeira marcha ele andava.
O motor morreu várias vezes. Parei. Dei um tempo. Coloquei água. (Na minha ignorância!)
Ele andou mais um pouco. O suficiente para eu ir até a Baixa de Quintas e pedir alguma ajuda.
Entrei numa loja qualquer, tremendo, nervosa, e um senhor muito prestativo me ouviu.
Ele veio até a rua, deu uns palpites. Ele era apenas vendedor, mas quis ajudar.
Então ele me indicou uma loja/assistência, ali naquela mesma rua,
mas eu teria que dar a volta no quarteirão,
pois se localizava antes do ponto onde eu estacionei.
Eu não estava conseguindo dar partida, muito nervosa
(e preocupada com os gastos que estavam por vir, me pegando totalmente desprevenida financeiramente) e ele se ofereceu para ir comigo.
Antes de ele entrar no carro, viu do outro lado da rua um mecânico
da loja para a qual eu levaria o carro.
O senhor chamou o rapaz e explicou minha situação.
O mecânico verificou os problemas e se ofereceu para levar meu carro.
Eu realmente não estava conseguindo dar a partida.
Chegando na loja, foram constatados os problemas que eu deixei acontecer no pobre do carro.
Bem, prejuízo alto, para quem não estava esperando...
A culpa em mim é mais alta ainda, pois vou perder uma grana que nem tenho,
devido à uma negligência banal.
MAS...
Sou grata.
Agradecida pela providência divina, por ter colocado homens gentis e prestativos
 em um momento que se me dissessem qualquer coisa em um tom mais agressivo,
eu desabaria em choro (estou muito emotiva esses dias).
Agradecida pela sorte de não ter vivenciado
essa experiência ruim em uma via de alto fluxo e alta velocidade.
Agradecida por ter uma família que me ouve, sem me julgar.
Que me apoia e me salva das minhas ''burradas''.
Que alivia o peso nos meus ombros e divide comigo minhas dores.
Agradecida pel@s amigos que se solidarizam e, com um simples
 ''calma, tudo vai passar'', fazem a minha dor (emocional e psicológica) se dissipar...
Estou preocupada, me sinto culpada.
Mas certa de que toda tormenta passa e o que fica é o ensinamento experienciado.
Estou sem carro, sem grana.
Mas certa de que não estou sozinha nesse mundo divino e maravilhoso.
O ser humano é um milagre, quando quer ser.


(Fato verídico. Desabafo pessoal.)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

EMPODERADA, SIM!
















Poder me expressar como quiser
E escolher meus caminhos
É uma realidade recente:
Eu sou uma mulher.

Poder estudar em Universidades
E exercer uma profissão qualquer
Sem o aval de um macho parente:
Eu sou uma mulher.

Poder decidir com quem quero ter prazer
E se quero me casar ou parir de cócoras
Enfrentando, de cabeça erguida
rótulos como ''meretriz'':
Eu sou uma mulher.

Poder votar, reivindicar direitos
Ter minha voz ouvida, publicada, valorizada...
Não faz muito tempo que conquistei esses espaços:
Eu sou uma mulher.

Poder me juntar a outras como eu
E fortalecer nossa união...
E proteger nossos corpos
contra toda violência e opressão!
Eu sou uma mulher empoderada, sim!

É esse poder que evoco:
O poder de ser a única gerenciadora
Do meu corpo,
Das minhas escolhas,
Da minha vida.

O poder de ser soberana de mim.
E conviver em real equidade
Com todos os seres humanos.



domingo, 7 de junho de 2015

NO QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO?


Não devo ser sincera.
Pois, meu pensamento não se encaixa
Naquilo que você espera como a resposta de uma mulher.
Então, prefiro compartilhar qualquer frase pronta:
Pseudo-intelectual, pseudo-espiritualizada, pseudo-humanista.

Eu até poderia ser sincera.
Então, dedicaria algumas linhas exatas
Sobre tudo o que está em minha mente agora:
Luxúria, orgasmo, lascívia, tesão...
Daria, nesse exato momento, minha buceta molhada
A mais de um milhão de rolas erguidas em minha homenagem!
Comeria dois homens ao mesmo tempo,
Alternando as metidas entre boca e buceta,
E depois que as duplas gozassem,
E seus paus já não mostrassem a presteza e a firmeza necessárias,
Passaria aos próximos
E próximos, e próximos, e próximos...
Até eu me saciar por completo.

É nisso que estou pensando agora.
É nisso que penso na maior parte das vezes que vejo essa pergunta.

Agora, não aceito ser apedrejada na medina.
Nem aceito ser rotulada com palavras que deslegitimem
Meu direito de pensar putaria e expressar esse pensamento!

Quem pergunta quer resposta!
E não sou dessas que mascaram sua natureza em prol ''da moral e dos bons costumes''
Nem que se privam da verdade nua e crua.

E agora você me diz:
No que você está pensando?



sexta-feira, 5 de junho de 2015

FOME DE MUNDO

Devoraria o mundo todinho agorinha.
Começaria apreciando o doce rebuliço de todos os sons.
Depois, salivaria ao cheirar a amálgama de todos os aromas.
Então, sentiria na pele os pelos eriçados por todos os tipos de texturas.

Prepararia o prato de entrada com elementos naturais de fácil digestão.
Abriria minha bocarra astral e morderia de uma só vez todos os vales floridos e montanhas rochosas.
Mastigaria com paciência e engoliria, com a ajuda de um gole do Oceano Atlântico.
Faria, então, o prato principal, com todos os recursos naturais existentes no planeta.
De sobremesa, escolheria alguns icebergs da Antártida polvilhados com areia do Saara.
Arrotaria com liberdade e, certamente, com plenitude.

Entretanto, sentiria que deixara para trás algum item delicioso.
Lembraria daquele pacote de humanidade crocante e com diversos sabores.
Não resistiria a essa tentação:
Comeria um homem, uma mulher, uma mulher, um homem...
De todos os tamanhos, cores e sabores!
Tentaria me conter e provar só alguns.
Mas, certamente, acabaria com toda a humanidade em uma sentada.
Que aperitivo magnífico!

A cada ''croc'', uma novidade digerida.
A cada ''croc'', um universo dissolvido na saliva.

Minha fome de mundo - e o próprio mundo - chegaria ao fim.
E eu lamberia os beiços, satisfeita do meu banquete antropofágico.

sábado, 16 de maio de 2015

POEMA COLETIVO EM REDE III - Experimentos poéticos

COM OS PÉS NO CHÃO

Caminho. Por onde? Nem sei dizer ao certo
Passos firmes, sigo reto
Me entrego à emoção, mantendo os pensamentos abertos
Mas o que importa?
Loucuras da incerteza
Ou a hipocrisia da certeza?
Basta.

Com os pés no chão
Entre o sim e o não.
Cheiros...
Desejo e emoção!
E na vida sempre temos receios
Ou com alguma mágoa no peito.

Com os pés no chão
Me coloco diante de ti
Com olhos varejados em lágrimas...
Te mostro aberto o meu coração!
Meu rumo vai em busca de toda a imensidão
Tendo como combustível o AMOR!

E simplesmente sigo...
Sigo em te amar, em desejos pulsantes
Sigo em me amar, em liberdade constante.
Pairo no ar, e vivo todo instante.
Com os pés no chão.

Mas a mente distante
Vagueia incansavelmente pelas lembranças vividas,
Pelos caminhos desejados mas não percorridos.
Estou sem chão...
Flutuo em mim.

Navego em ilusões, fruto do viver abstrato da incoerência...
E enfim me pego assim, apenas com os pés no chão...
Ludibriado por lembranças mortas e ausente de pés na razão.
Mas com o coração em órbita...
Vivendo, vivendo...
Vou caminhar, sim!
E sempre com os pés no chão, sem me iludir.



24 AUTORES: Yan Couto, Milena Rhumas, Elienai do Santos, Jackson Teixeira, Nessí Zoukizomba, Laís Prado, Juliana Coutinho, Rodrigo Maionese, Cris Lima, Isaac Ribeiro, Joedson Rosa, Vinícius Sena, Siomara Coelho, Josivan Vieira, Nailson Filho, Melissa Santos, Eliete Silva, Natali Burí, Milena Aires, Ricardo Amorim, Vanessa Machado, Samara Coelho, Juliana Oliveira e Marcus Paulo.

POEMA COLETIVO EM REDE II

I - DAS PALAVRAS ALEATÓRIAS QUE VEM À MENTE,
      APARENTEMENTE SEM SIGNIFICÂNCIA.
II - DA TESSITURA DE UMA NARRATIVA SEM CONECTIVOS.


AMOR
Sinto
VIVER
Sempre
SAUDADE
Vem
CHEIRO
Passa
PLENITUDE
Invade
RECIPROCIDADE
Abraça.

SAUDADES
Sim!
CHUVA
Cai
DOIDEIRA
Minha
MAGIA
Madrugada.

SAUDADE
Mais
AMOR
Quero
SEXO
Desejo.

SONO
Não
GRAVAR
Música
CHUVA
Mais
ZOUK
Danço
HARMONIA
Caótica
AUTOCAD
Desenho
VIDA
Segue.



sexta-feira, 15 de maio de 2015

POEMA COLETIVO EM REDE

I - DAS PALAVRAS ALEATÓRIAS QUE VEM À MENTE,
      APARENTEMENTE SEM SIGNIFICÂNCIA.
II - DA TESSITURA DE UMA NARRATIVA SEM CONECTIVOS.


ESPIRRO
Saúde!
LUZ
Parafina
SAUDADE
Aperta
PALAVRA
Som.

FORRÓ
Suor
AMOR
Cadê?
DORMINDO.

COMENTÁRIOS
Seu.
SENSAÇÃO
Frio
PAZ
Preciso
MARACUJÁ
Não.
AMOR
Onde?
DENTRO DE MIM

PAZ
Agora
PRAZER
Delícia
PREENCHER
Aqui.
OU LÁ.


MEDROSOS QUE SOMOS

Medos têm nome, sobrenome e moradia.
Medos são criados e alimentados
Com fidelidade e maestria
Pelo Deus primaz dos medos: Eu.

Há o Medo de Aranha.
Que é primo do Medo de Barata,
Cujo irmão é o Medo de Barata Voadora.
Todos eles moram lá em casa:
Na cozinha, no banheiro, no ralo.
Para onde eu olho, em cada cantinho,
Vejo-os, todos gargalhando para mim,
Que sou gigante e saio correndo.

Há o Medo da Tristeza.
Que é primo do Medo do Sofrimento,
Cujo irmão é o Medo da Dor Física.
Eles moram no timo, pertinho do coração.
São discretos, educadíssimos,
Mas são poderosos em seu silêncio taciturno.

Há o Medo da Morte.
Que é primo do Medo da Vida Após a Morte,
Cujo irmão é o Medo do Céu e do Inferno.
Todos eles moram nos perigos do dia
E nos mistérios da noite.

Há o Medo da Solidão.
Que é primo de segundo grau
Do Medo do Ser Humano.
O primeiro mora no centro de uma metrópole,
Frequenta bares e carnavais.
O segundo é cigano,
Já morou em todo tipo de lugar,
Sempre levantando acampamento,
Quando via que era hora de seguir.

Há o Medo do Medo.
Filho único.
Mimado pelo pai,
Construiu em torno de si
Muralha mais espessa do que a chinesa.
Ele não sai da sua torre de ferro desde que nasceu.
Ele não sai,
Não sai,
Não sai de si.

Medos têm nome, sobrenome e moradia.
Responsável por eles é quem os cria:
O Deus primaz do reino dos medrosos.



UM VAZIO MOLHADO


Quando a chuva não cessa
Haja louvor e promessa
Para ver estiar

Quando a água não cansa
Haja som e haja dança
Para não desanimar

Quando o tempo acinzenta
Haja farinha e pimenta
Para tentar esquentar

Quando o clima se fecha
Haja cama e haja sesta
Para saber aproveitar

Mas quando se enjoa de tanta chuva
De tanta água...
E a vida nua e crua se mostra vazia
Embebedada de rotina e cansaço

Mas quando se enjoa de tanto cinza
De tanto caos...
E a vida cheia de nada concreto
Resolve deixar as águas rolarem.

Fica um vazio molhado por dentro da roupa.
Quente e úmido.
Abafado e esponjoso.

Fica um vazio molhado dentro dos olhos.
Triste talvez.
Calado com certeza.

Fica um vazio molhado dentro da alma.
Um espaço nulo onde tudo-nada cabe mais.
Um recipiente cheio de inexistência.



quinta-feira, 14 de maio de 2015

META FORA

Meta fora!
Nas coxas...
Na parte de dentro dói mais.

Meta fora!
Nos peitos...
No pescoço é muito clichê.

Quer saber?
Meta uma tattoo onde quiser.
Meta um adereço onde achar melhor.

Quer saber mais?
Meta a mesóclise na fala comum.
Meta a metáfora na hora do café.

Fora a lascívia atribuída ao verbo meter,
Tudo está dentro do padrão.

Meta fora o dedo de onde não é chamado.
Use-o apenas quando for requisitado!

Meta fora a metáfora sonora
Na hora de dizer apenas
Palavra de baixo calão!


domingo, 10 de maio de 2015

Mãe: Sujeito ativo de todos os verbos

Em homenagem a minha mãe linda (à esquerda).
Uma mulher forte que pariu e criou essas duas mulheres
igualmente fortes e empoderadas. Gratidão, mãe! Te amo!
Concebeu.
Gerou.
Pariu.
Amamentou,
Alimentou.

Protegeu.
Cuidou.
Sorriu.
Criou,
Educou.

Noites perdeu.
Muito se preocupou.
Nunca desistiu.
Sempre se dedicou.
Sempre protagonizou.

Ser mãe é experimentar
O poder divino de gerar vidas
É ser sujeito ativo desse milagre
E, com amor e delicadeza, mostrar
A resistência e a força da fêmea!

domingo, 3 de maio de 2015

OUTROS OLHARES


Olhos ternos, curiosos, atentos, dispersos...
Olhos serenos, ansiosos, sedentos, relapsos...

Olhos dos outros em meus olhos
O olhar do outro em mim, ou
Meus olhos nos olhos dos outros
Meu olhar no outro
Eu no olhar do outro

Vejo cílios, íris, pupilas dilatando-se
Vejo o movimento acelerado e involuntário
Vejo esboços de sorriso e vergonha
Vejo o vasculhar de recônditos...

Sinto empatia e compaixão
Sinto conexão, entrega e unidade.

E que lugar é esse que me coloca como ''eu''
e aquele ser como o ''outro''?
E que mente autocentrada é essa que não consegue
observar sem querer trazer para si,
comparando, segregando, julgando.

Se eu olho, essa imagem me pertence.
Não tire seus olhos dos meus, por favor!
Me sinto acolhida agora nesse canto de olhar.
Me sinto inteira, sendo parte de alguém.

Olhos...
Piscam sempre.
Abrem-se para um infinito universo profundo e pessoal.
Fecham-se para o que possa parecer invasivo.

Olha para mim...
Esse ser que você vê é seu reflexo:
Sofre e tem medo de estar só na multidão.

Arte de Juliana Cesar in  jcesart.blogspot.com.br

quinta-feira, 30 de abril de 2015

FORÇA, MINHA PRÓ!


Acorda cedo, chega antes dos alunos.
Prepara a sala, dá as boas vindas.
Faz uma prece, conversa, dá risadas.
Lê um texto, faz perguntas à garotada.
Aprende muito, estimula e ensina.
Recebe pouco, para o tanto de trabalho.
Além de doar toda sua saúde na sala-de-aula,
Leva o ofício para casa: prepara atividades,
Corrige provas, pesquisa, se aprimora.
Tenta servir de exemplo em sua vida diária.
E fala de tolerância, respeito e afeto
aos seus pupilos mais rebeldes.

Mas quando vai à rua e tentar dialogar com o governo,
Recebe bala de borracha e spray de pimenta na cara!
E que moral ela vai ter ao retornar à sala-de-aula?
E que sentido mais vai ter seu discurso de amor e paz?
E que utilidade tem seu diploma universitário e
Sua educação acadêmica, se a polícia te trata
Como qualquer coisa, menos como ser humano...

Força, minha pró!
Eles não sabem mais quais são os limites.
Eles perderam a noção de respeito ao ente humano.
Eles pararam de raciocinar.
Apenas reagem e seguem ordens.
E é para não formar mais pessoas como eles
Que você deve lutar.
Eu te apoio em suas greves e em suas reivindicações.

Força, minha pró!
Você não está só.
Somos multidões!
Somos mar de gente de bem
Que quer ver a revolução das baionetas de flores!
Sua luta é minha, é nossa!
E a educação ainda terá seu altar consagrado.
Porém, enquanto construimos os alicerces,
Enfrentamos esses absurdos,
Mas não ficaremos calados!

Força, minha pró!
Essa é sua vocação,
Sua profissão escolhida!
Não desista!
Descanse um pouco agora,
Cure essa ferida.

Força, minha pró!
A guerra contra a ignorância
ainda não foi vencida.


terça-feira, 28 de abril de 2015

AH, MEU SENHOR...

- Ah, mas ela não se dá valor!

E que valor é esse, meu senhor?
Ta achando que ela é objeto de especulação?
Ta achando que ela precisa da sua valorização?
Ela tem o direito de se mostrar como quiser.
E o senhor tem o dever de respeitar a sua liberdade!

- Ah, mas como vou respeitá-la, se nem ela se respeita?

E que respeito é esse, meu senhor?
Ta achando que ela tem que se esconder em casa, para não ser avistada?
Ta achando que ela tem que andar de burca, para não ser cobiçada?
Ela vai aonde quiser e vestida como bem entender.
E o senhor tem o dever de respeitar a sua liberdade!

- Ah, mas mulher de respeito tem que...

- AH, DÁ UM TEMPO, MEU SENHOR!

Ta achando que ela precisa da sua opinião para existir?
Ta achando que é o gerente do mundo e que pode decidir?

Ela nasceu do ventre materno - mulher, fêmea
que pariu de cócoras e sorriu feliz, poderosa.

E o senhor não tem nada a ver com a vida dela!

- Ah, mas sem o homem não existe mulher...

- Ah, meu senhor...


sexta-feira, 10 de abril de 2015

NASCE UMA LÁGRIMA DE DOR

Que esforço é parir uma lágrima!
Espremer os olhos e apertar
para que a tristeza saia
e caia feito rio
ou lava
e flua
pelo
ar.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

CABELO, QUE BELO!


Algo aparentemente superficial
Que toma proporção continental
Que abala o equilíbrio mental
E faz a menina se sentir mal

Na TV, não tem paquita de tererê
Nem chiquitita estilo Ilê ayê
Mas no espelho, refletida está você
Com um cabelo que ninguém queria ver

Então começa uma revolução silenciosa
Em que cada mulher se sente maravilhosa
E corta o mau-costume pela ponta sedosa
E deixa emergir a raiz enrolada e majestosa

Cabelo trançado, dreadlock, box braid
Rastafari, moicano, blackpower
Cacheado, crespo, volume alto...

Cabelo assumido é grito libertário!
Cabelo natural, que belo!



terça-feira, 31 de março de 2015

OBSCENA


Observe a cena:
Uma mulher de vestido vermelho, tão longo que se arrasta no chão.
Cabelos crespos ao vento, tal cauda de pavão.
Lábios carnudos, pintados de vermelho paixão.
Passa normalmente perto dele, balançando as cadeiras, como uma miração.
Ele tenta mexer com ela - assovia, fala qualquer nojeira, acha que sabe elogiar -
E ouve um claro e veemente ''NÃO!''
Não obstante, ele acredita que precisa tentar mais uma vez.
Ela olha fundo em seus olhos e, com a maior imponência diz:
- Desgraça, NÃO É NÃO!
Ele perde a razão.
''Como umazinha dessa ousa me responder com tanta indignação?''
- SUA OBSCENA!
Ele retruca, completando a sequência com ''vaca, vadia e puta''.


domingo, 29 de março de 2015

A GENTE PRECISA DAR MAIS


Gente chata precisa DAR mais!
DAR mais risadas,
DAR mais abraços,
DAR mais liberdade aos seus movimentos
E dançar colando o corpo com o mundo.

Gente imbecil precisa DAR muito mais!
DAR mais tempo a si mesma,
DAR mais olhadas no espelho,
DAR mais atenção à sua própria confusão mental
E observar os julgamentos que faz da vida alheia.

Gente arrogante precisa DAR cem vezes mais!
DAR mais respiradas antes de falar o que pensa.
DAR mais humildade aos seus discursos autocentrados.
DAR mais autonomia para a voz de quem está ao lado,
E ouvir verdadeiramente o que ecoa de outros universos.

A gente precisa dar mais...
Porque dar é ato solidário.
Porque dar implica troca,
Por mais que a gente não espere retorno,
O cosmos devolve tudo na mesma frequência.

A gente precisa dar mais...
Para sair da própria solidão.
Para se religar ao Todo sem precisar de religião.
E perceber que quando damos algo de nós,
e o outro lado o recebe com empatia,
Nos perpetuamos.


segunda-feira, 9 de março de 2015

ANDA, MUDA, DANÇA!

Minhas andanças                                            
Não sei ao certo
Por onde vão

Minhas mudanças
Não sei até quando
Permanecerão

Minhas danças
Não sei deveras
Se encantarão

Mas a vem a vida,
Em sua presença inexorável
de cada inspiração ofegante,
Me empurra ao precipício
E diz:

Anda, sua louca!
Não perde tempo com besteira pouca.
Abre a boca e leva ao ventre
A delícia de viver solta.

Muda, sua puta!
Deixa livre o seu sexo, me escuta.
Dá ao corpo o que é dele por direito
Depois de tantas lidas e labuta.

Dança, minha criança!
Pula de alegria, gira de esperança.
Fluindo, como água corrente
Desata os nós em nós, se balança!





domingo, 8 de março de 2015

ENGENDRANDO UMA MULHER


Se formou no ventre materno,
Na água pura de amor e proteção.
Ao invés de uma protuberância,
Uma depressão por entre as pernas.

Uma menina!
Sempre cercada de mimos,
Constantemente orientada a se afastar
Das mazelas humanas.
Fora criada numa redoma.

Não brinque com meninos.
Não toque aí.
Não sente de perna aberta.
Não, não pode tirar a blusa.
Pare se tocar aí, já falei.

Menarca.
Pelos.
Seios.
Cólicas.
Acne.
Celulite.
Estrias.
Cabelos alisados.
Autoestima lá em baixo,
na lama.
E a sensação de ser insuficiente,
Inútil,
Incompetente no papel de ser mulher.
E a sensação de não-ser...
E a sensação de não pertencer a si mesma.

A TV sempre apelando para os sentidos:
as mulheres mais sensuais, conquistavam muitos homens
e sempre conseguiam tudo o que queriam.

As mulheres mais felizes e amadas eram
todas iguais - ''perfeitas'', ''puras''
Subservientes, escravas-isauras
Que se pensavam soberanas em seus
impérios de auto-vassalagem.

Nas revistas, corpos esculpidos
por um Deus excêntrico e esquizofrênico
que só despeja a beleza em poucas
e raras criaturas humanas.

Então, que mulher não quer ser
como aquelas da revista ou da TV?
Aparentemente tão plenas, satisfeitas
e solenes...

E a mulher vai sendo condicionada
a viver em conflito consigo mesma,
se odiando por suas ''falhas'' naturais
Por suas dobras, por seus odores,
Por suas texturas, por suas formas.

Vai sendo induzida a compactuar
com esse sistema roto e
A manter tudo como está:
Quem você pensa que é, mulher?
Coloque-se no seu lugar!

Até que em um lapso,
Um estalo vem à cuca.
E o desconforto desse lugar
de fêmea, paradigmático e estanque
Provoca a força imensurável
que vai alavancar a mudança.

Se ela decide seguir seus instintos
e suas intuições,
é taxada louca, vil, puta!
Vaca profana,
Vadia!
Bruxa!

Mas ela ri, absoluta de si
E, de mãos dadas com tantas outras irmãs
Tão putas quanto santas,
Segue sua caminhada em prol do seu direito
de ser o que quiser.
Ela não odeia os homens nem quer ser homem.

Ela é estrada,
e traz em seu corpo um cálice de vinho,
um baú de tesouros,
um abismo profundo.

Ela é livre para ser o for
ela é livre para ser além
Mas ela se tornou mulher.

Siomara Coelho - MAM - BA. Foto por Pablo Rodrigues.






sábado, 7 de março de 2015

DONA DE MIM

Mainha e painho sempre foram muito libertadores:
- Filha, nada importa mais do que sua independência.
Eles se preocuparam em me preparar para não precisar dos homens
Para não precisar do mundo, para não precisar de ninguém.

E fui crescendo, um tanto egoísta e individualista,
Me isolando em meu mundo paralelo de segurança psicológica.
Demorei um tanto para me desprender desses hábitos eremitas.
Precisei de intervenções terapêuticas para aprender a ''me jogar na vida''.

Hoje me considero dona de mim.
Ainda guardo os conselhos dos meus pais,
pois eles, mais do que eu mesma até,
só querem o meu bem!
Mas sou dona das minhas escolhas,
dos meus movimentos,
dos meus desejos,
do meu corpo.

E vivo o que pede o exato momento do agora,
Sem o crivo pesado do medo
sobre o que ''os outros vão pensar''.

Entretanto, faço parte de uma comunidade,
onde uma ação isolada repercute em todos
e não passa despercebida.
E por ser tão desapegada aos conceitos tradicionais,
começo a me sentir pressionada e perseguida.

Mas esse sentimento não me tortura ou boicota.
Pelo contrário, ele me convida
a ousar um pouco mais e sair cada vez mais da
caixa estabelecida.

Vou transitando, andante libertária
Não pretendo possuir nada além das minhas asas intactas.
Vou andando, transante imaginária
Não domino qualquer forma de vida que passa em meu jardim.
Tudo o que tenho é meu verso.
Sei apenas que sou dona de mim.
Siomara Coelho - Praia de Buracão - Rio Vermelho, Salvador - BA. Foto por Renato Costa.


domingo, 1 de março de 2015

BAIXOU A TERPSÍCORE

Rodopiei,
A diante, andei...
Rodopiando
Rodipiante, suei!

Foi que ouvi um som
Que em meu corpo repercutiu
Em forma de ondas.
Virei oceano vasto e voluptuoso.
Fiz quebrar maré na praia,
Fiz esparramar espuma na rocha.

- Baixou a Terpsícore! -
A musa grega que se deleita na dança -
Disse um andarilho quase intelectual.

Girei, ondulei, me balancei...
Frenesi.
- Tô mais pra Pomba Gira, Padilha. -
Retruquei com desprezo.
Não me enche assim de orgulho uma entidade estrangeira...
Mas com a pulga atrás da orelha,
Fui procurar saber como essa criatura de nome esquisito se comporta.

É gorda - uma afronta aos padrões estéticos contemporâneos - ponto para ela.
Toca uma lira -  me atinge muito mais um atabaque ou um timbau. - ponto para a Gira.

Estão empatadas as personagens que disputam um lugar na minha performance.
Talvez eu não precise dar nome aos bois.
Nesse caso, às vacas.
E sendo fêmeas, são tão sagradas quanto colo de mãe
e tão profanas quanto o chamado das esquinas.
Eu as invoco, porque aquilo que não sabemos
Alguém vem e nos ensina.

Eu continuo rodopiando...
Rodo um pouco,
Pio um vinho,
Ando um caminho.

Chego a flutar,
Fazendo a música delirante
Retumbar mais lancinante
Nos pés, no ventre, no ar.

QUE BELEZA!

Gorda,
Preta,
Cabelo enrolado
Olhos escuros
Nariz redondo
Lábios grossos
Sorriso largo.
Linda,linda,
linda, sim!

Ela está à margem do que tange a mídia
E as margens balizam o rio.
Por entre elas, o fluxo faz seu caminho.

Ela está fora do que determina o padrão
E fora condicionada a se achar feia,
porém, marginal, ela disse 'não'!

E como ela, tantas outras,
Mulheres escravizadas
por uma lavagem cerebral crônica
de mídias e mentes humanas torpes
Que fazem de tudo para não vê-las
jamais bem
Nunca!

E quem ganha com isso? Quem?
Deixa a resposta ser reticente...

Ela simplesmente quebrou a corrente,
Rompeu o círculo vicioso de baixa autoestima
E cansou de tentar agradar a essa gente
Que não sabe respeitar a alteridade.


Ela apenas soltou suas madeixas,
Deu uma banana para as várias queixas,
Olhou-se no espelho, ergueu a cabeça
E disse para si mesma:
- Que beleza!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

UMA FESTA DE INFINITO

E lá se vai o Carnaval...
Quanta folia,
Quanta animação!
Vesti a minha fantasia,
Soltei a imaginação!

Os corpos saciados de prazeres,
As almas lavadas de suor e cerveja,
Sentem-se vivos, pulsando e vibrantes,
Partes imprescindíveis de uma multidão anônima!

Ao final de cada refrão,
um beijo diferente
Ao final de cada canção,
um grito eufórico
Ao final de cada trajeto,
um corpo cansado, de pés moídos
Ao final de cada dia,
um gosto de 'quero mais'
E na quarta-feira de cinzas,
um vazio...

O Carnaval é uma festa de finais.
Mas, se de recomeços são feitos os términos,
Carnaval - início-fim de tudo-nada -
é uma festa de imensurável regozijo,
de infinito desvario,
e de ínfima ilusão.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

LATÊNCIA

Estar sempre preparada para o depois.
E em posição de alerta, prever o devir.
O corpo vibra como liquidificador.
E o coração acelera em frenesi.

Ai, essa latência que não passa...
Essa energia que não se esvai...
E essa vontade louca de tocar e ser tocada
no âmago, na essência, na alma.

E libero as mãos para lidas intrapessoais.
Elas fazem melhor do que qualquer um.
E tenho, por alguns instantes, saciada a minha fixação.
Mas logo , acende novamente, essa força no ventre

Pulsante,
Insistente,
Poderosa,
Latente.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

DÓI

Surge do ventre
E ganha força no plexo solar.
Arde no estômago,
Como um inferno incandescente.

Um rompimento abrupto:
Corte de navalha,
Garrote vil,
Fiquei sem fala,
Tirou meu ar.

Escutei seus motivos,
Lamúrias românticas de um homem monogâmico.
Me senti suja, ordinária, repulsiva, bruxa.
Acreditei que a culpa era minha.

Chorei, porque lágrimas lavam os olhos
da podridão que acabaram de presenciar.
No caso, eu estava diante do espelho.
Acho que não mereço mesmo estar com alguém.
Mereço estar com ninguém.
Caibo apenas em mim.

Vivencio agora esse queimor visceral.
Parece que morro hoje.
Morrerei de alguma maneira.

E dói, dói tanto saber que não terei mais
A sua calorosa companhia
Nem sua língua libidinosa, por entre as minhas terminações nervosas.
Nem sua voz grave, me colocando no meu lugar de fêmea.
- Vadia!
E eu acho que já sabia,
Terminaria assim.

Dói ter perdido a guerra dos egos dominadores:
O meu e o seu.
Na verdade nós dois perdemos,
Nos perdemos de nós.

Foto by Pablo Rodrigues, no MAM da Bahia

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

BASTARIA SER

Me diz quem é você
Por trás do véu
Da dor e do prazer
Por trás do fel
Que entranha o poder
Me diz o que mais vem a ser

O que vai além da percepção
Daquilo que acredita real
Difícil é discernir a verdade
No que julga ser puramente mau

São máscaras sobrepostas
De várias cores e texturas
Elas pesam e, quando expostas,
Nos levam à beira da loucura

É o pensamento o que gera a ação?
Como não julgar no outro seus motivos e razões?
É a emoção o que gera a reação?
Como, então, sintonizar as boas vibrações?

Me diz quem sou eu
Por trás dessas palavras soltas
Que fazem o tempo passar em vão
Por trás dessa quase poesia em prosa
Que dá a falsa ideia de reflexão
Me diz o que eu venho a ser.

Se fosse real, esse ''eu'', esse ''você''...
Bastaria ser.
Mas não.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

LAMENTOS VAZIOS


Ai de mim
com essa vontade
de gritar pra o mundo ouvir...                
Eu não quero ser assim,
sempre pela metade,
fingindo felicidade,
com a mania de sorrir.

E volta e meia,
vou à lua,
namorando da janela,
brilha tanto e tão cheia,
Me convida a ficar nua
e me faz sentir mais bela.

Ai de mim
com essa loucura
de sentir no coração tanto querer...
Eu não quero ser assim,
mais ou menos insegura,
longe de mim tanta frescura,
tenho sede de viver.

E volta e meia,
vou à rua,
procurando emoção,
mas pela multidão permeia,
a minha e a sua,
intrínseca solidão.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

UM BRINDE AO CAOS


Brindamos à saúde, ao dinheiro, ao amor...
Paz, sucesso, felicidade... Ao noivos!!!
Brindamos toda a sorte de acontecimentos
e desejos banais...
Mas nunca brindamos ao caos.

Nossas mentes modulares, condicionadas ao
cartesianismo burocrático de elevadores e
escritórios, jamais nos permitem comemorar a desordem.

Nos tornamos ''adultos'' muito cedo,
somos chamados à uma responsabilidade enfadonha em tenra idade:
Precisamos ser alguém na vida!
Tudo tem que dar certo!
O que você quer ser quando crescer?

Demoramos meses para aprender a andar,
E quando já podemos controlar as nossas pernas,
Nos cansamos da retidão do caminhar.
O chão perdeu a graça, porque não há mais quedas.
A trilha já está traçada, não há nada mais a desbravar.
Nos perdemos no ir e vir dessa rotina compulsória.

Até que um dia, alguém resolve implantar o caos no seu cotidiano.
[Esse alguém pode estar dentro de você]
Ao invés de fazer sempre o que estava planejado,
burla o sistema, inventa outro itinerário
e você começa a perceber que, na verdade, nada está sob seu controle.

Para tomar consciência de algo, precisamos atingir um certo grau de loucura.
E é aí que o famigerado caos protagoniza a cena:
ele bagunça seu quarto, revira suas gavetas socadas de coisas obsoletas,
roupas que não entravam mais, dívidas antigas... Ele joga tudo para o ar.

Como em um concerto, você se vê no púlpito,
tentando reger a orquestra atonal do seu mundinho particular.
Mas parece que seus músicos não te obedecem e não estão querendo ler a partitura.
Você olha a balbúrdia ao seu redor: faz silêncio, mas há o murmurinho das coisas não ditas,
da sua ansiedade neurótica por organização e segurança psicológica.

Aí, você pega uma taça de vinho, se joga na cama com lençóis revirados e brinda!
Brinde ao caos, porque agora sua prioridade não é ver tudo arrumado.
E há uma certa beleza ensandecida no que beira o caótico.

Parece até que esquecemos como é prazeroso ter desafios.
Como era prazeroso, aos nossos 10 meses de idade tentarmos nos equilibrar em pé.
E como era gostoso, passar o tempo infinito de criança em férias inventando brincadeiras
que certamente nos colocariam de castigo.

A gente chega aos vinte e poucos anos com a convicção de que agora temos tudo em nossas mãos,
mas, por algum empecilho no meio da estrada,
nos desmotivamos e afogamos nosso espírito aventureiro na lama do pensamento medroso.
O pensamento medroso é aquele que não nos permite arriscar, não nos permite seguir sonhos ousados, apostar em metas altas. O pensamento medroso é medíocre e tem pavor da perda, do fracasso quantitativo e da crítica opinião alheia. O pensamento medroso nos faz assumir as piores características humanas: nos faz submissos e mesquinhos.

Por tudo isso, ratifico a minha sugestão, que brindemos ao caos; pois sem ele nossa vida seria um cotidiano cor-de-rosa-chiclete, com cheirinho tutti-fruti insuportável. Ou seria um corriqueiro domingo cinzento  com tempo nublado e pancadas de chuva.

Um brinde ao caos, com direito a ''tim tim'' e arroto ao término da garrafa!