sábado, 31 de dezembro de 2016

2016: O ano do caos em mim, do amor e da solidão.

Janeiro: "Ando tão à flor da pele..."
   - 5 meses de gestação, turbilhão de sentimentos contraditórios.
   - solidão, incertezas, INTUIÇÃO gritando que eu enfrentaria grandes turbulências em breve.
   - APRENDI que a gravidez havia mudado TUDO e que eu enfrentaria tudo sozinha mesmo.

Fevereiro: "Na bruma leve das paixões que vem de dentro..."
   - Enfrentei altos níveis de stress, principalmente por falta de companhia.
   - Encarei muita sujeira, altas faxinas, SOZINHA, devido à reforma do quarto de Sophia.
   - Pensei que teria ajuda para pintar o quartinho, mas pintei sozinha, durante o carnaval.
   - Descobri que seria tia esse ano!

Março: "No coração, os meus parentes, os entes e os presentes que a vida me dá..."
   - ansiedade batendo cada vez mais forte, ao se aproximar a DPP.
   - Chá de Fraldas organizado pelas MELHORES AMIGAS do universo, só agradeço!
   - tentei descansar ao máximo, dormir, assistir todas as séries que eu pudesse...
   - mas encarei mais stress, com carpinteiro desonesto que fez merda nos móveis que encomendei.

Abril: ''É como se eu tivesse esperado toda vida pra te embalar...''
  - 33 horas de trabalho de parto: sem analgesia, sem anestesia, apenas eu e meu corpo em conexão      com o cosmos.
  - EU PARI. E essa foi a ação mais forte, mais inteira, mais perfeita que realizei na vida. SOZINHA!
  - Me apaixonei de imediato pela minha filha.
  - Vivi os primeiros dias de loucura do puerpério. Só não surtei porque a natureza faz tudo perfeito e eu ainda estava sob efeito dos hormônios.

Maio: "Eu preciso de alguém, sem o qual eu passe mal...''
  - me senti sozinha muitas noites e dias. Apenas eu e minha Sophia.
  - descobri que não seria possível viver algo como ''família tradicional'', Sophia ganharia uma irmã dentro de 4 meses. Minhas estruturas desmoronaram.
  - me arrependi de ter experimentado abrir uma relação de 4 anos que era sólida.

Junho:"AAAAI amei demais e hoje já não sei se sou capaz de ter alguém no meu coração...''
  - primeiro São João sem dançar forró, sem sair, sem diversão.
  - primeiro São João com minha pequena, descobrindo novas habilidades, risonha...
 
Julho: "Eu quero uma casa no campo..."
  - Tempo de recolhimento.
  - Passei mais tempo com meus pais.

Agosto: ''Socorro alguém me dê um coração, que esse já não bate nem apanha...''
  - 4 meses de maternidade, na corda bamba para não surtar.
  - solidão sempre me acompanhando.
  - ansiedade, stress, medo, raiva... e a culpa, por estar passando tudo isso no leite da minha filha!
BARRIL! Precisava de ajuda psicológica, mas não rolou.
 
Setembro: ''Alguma coisa está fora da ordem...''
   - SOLIDÃO!!!
   - A chegada da irmã de Sophia. Afastamento brusco do pai dela.
   - A chegada de Tainá, antes da DPP... Mas deu tudo certo, para aliviar meu coração de tia.

Outubro: ''Comer de tudo o que for bem natural...''
   - Mudanças internas! Hora de cuidar mais de mim.
   - ACEITA QUE DÓI MENOS.
 
Novembro: ''Meu corpo é terra em que nascem corais, sargaços e líquens...''
   - 30 anos! Piquenique na praça! =)
   - cortei a juba, depois de 4 anos sem cortar.
   - comecei a sair mais com Sophia.

Dezembro: ''Eu quero amor, eu quero tudo o que for bem colorido, tudo o que for leve...''
   - consulta com iridologista: me disse tudo o que eu já sabia sobre mim. Mas provou que, pelos olhos, realmente pode-se desnudar a alma de alguém. Saúde física ta massa! Só falta consertar a mente!
   - cantei de gaiata no sarau da FUSART (quem sabe em 2017 eu não volte, hein?)
   - dancei um pouquinho de zouk na confra da galera de Marcelo. E Sophia foi cmg!
   - Dei uns beijos bons por aí! (Porque sou humana, sou mulher, antes de ser mãe!) kkkkk

2016 Foi divisor de águas na minha humilde existência humana. Descobri que não posso contar com homem. Descobri que a força, o afeto, a companhia, a compreensão, a sororidade vem das mulheres que me cercam, sim! Descobri que ser mulher é viver se protegendo sempre, é não abrir a guarda nunca, é confiar desconfiando! Agradeço à minha mãe por ser essa guerreira tão presente nos meus dias, nas minhas crises, me dando suporte, quando estou beirando a loucura. Esse ano eu pirei, acho que serei, de agora em diante, uma pessoa pirada! Mas não negligencio da minha filha jamais. Há muito desespero em mim, mas há AMOR. HÁ Amor suficiente para me manter viva. Que venha 2017, com mais positividade, aprendizados, e AMOR.

Siomara - janeiro 2016
Sophia e Siomara - dezembro 2016

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

RELEITURA DE UM SAMBA MISÓGINO

Se essa mulher - maravilhosa!
Fosse minha parceira
Eu entrava com ela
Na roda de samba

Cortejava seus gestos
Me orgulhava de seus passos
Saudava seu jeito
Altivo de majestade

Fazia questão de rebolar
Colado ao corpo dela
E os marmanjos olhando
Querendo ser eu

Se essa mulher - poderosa!
Fosse minha parceira
Dava uma noite de gozo
Que ela gritava "vem mais"!

Vem mais, oh, meu amor
Eu mereço
Tudo de delicioso
Que você tiver
Para me dar.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

ANTROPOFAGIAR

Porque com a boca se come
Sem mastigar também
E com o sexo se alimenta
Sem transar também

E num encontro
De bocas e sexos
Bocas e bocas
Sexos e sexos
A forma humana
Já não tem tanto valor

Então são mãos e braços
Coxas, pele, barrigas
Fazendo o compasso
Da canção sussurrante
De corpos que dançam o prazer

É de dar água na boca
A sede de ter o outro dentro de você
É de salivar desejos
O gozo do outro partindo de você 


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

ELE DIZ

Em mulher não se bate
Nem com uma flor
- Ele diz.

Poderia ter saído daquela
Relação abusiva
Mas, não, apanhou porque quis.
- Vadia! - ele diz.

Abriu as pernas, engravidou
Agora quer abortar.
- Assassina, meretriz! - ele diz.

Pariu e está solteira.
Se vire para criar sozinha
- Infeliz! - ele diz.

Ser mulher é sobreviver
Se esquivando dos tapas
Que emanam dos ecos
Do que ELE diz.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

UMA MULHER FRAGMENTADA: POSSO FALAR SOBRE O MEU PUERPÉRIO?

Eu pari lindamente: sem intervenções médicas, sem complicações, muito coquetel do amor natural produzido pelo meu organismo. Minha filha é saudável, linda, maravilhosa, tenho apoio incondicional dos meus pais (e da minha mãe, então!!!)... Tudo lindo, né!

Calma, jovem, o puerpério não se trata apenas das coisas externas. 
Existe uma mulher que morreu para todas as múltiplas possibilidades que uma vida sem filhos apresenta; uma mulher que nasceu para o amor supremo e infinito pelo pequeno ser que colocou no mundo; uma mulher que se sente muito solitária em suas madrugadas de amamentação, principalmente quando o companheiro não é tão presente... Existe uma mulher fragmentada! Meu puerpério tem sido uma verdadeira montanha russa e eu acredito estar perto do fim desse ciclo louco agora!

Meus primeiros dias como mãe foram um misto de euforia, explosão absoluta de amor, fadiga física e emocional, êxtase e paixão pela minha filha. Com 1 mês, eu e meu companheiro descobrimos que ele seria pai novamente esse ano, fruto de um ato desesperado de uma outra companheira dele, enfim...
Imagine como ficou a minha cabeça quando soube que o pai dedicado, sempre presente e participativo, agora teria um outro bebê para cuidar e que a minha filha ficaria em algum momento desassistida. Eu entrei em desespero, mas calada. Não queria deixá-lo mais desesperado do que ficou, afinal ele havia se prevenido para evitar  uma nova criança. Mas as forças do universo quiseram que esse novo ser encarnasse, então minha filha ganhou esse ano uma meia-irmã. Depois dessa notícia, passei a me sentir muito mais insegura do que já estava: medo de dar conta da criação, do suporte financeiro, de tudo sozinha... Medo de nunca mais poder fazer as coisas que eu estava planejando para minha vida profissional e acadêmica... Medo de não poder ter uma vida normal NUNCA MAIS.
Sério, o ''nunca mais'' passa muito na cabeça da mulher no puerpério imediato. E só agora, passados 6 meses, posso ver que TUDO PASSA, e que o bebê cresce, mas junto com isso vem uma mulher fragmentada, descuidada consigo mesma e precisando de ajuda, sim!

Pois então, me deixei engordar absurdamente! Estava confinada em casa, com medo de sair com minha bebezinha, com vergonha do meu corpo e da minha cara de zumbi... Pronto, sedentária, comendo tudo o que não deveria (muito carboidrato vazio, muito leite, quase nenhum alimento saudável), ansiosa, insegura, quase depressiva...  Cheguei aos 102kg. Fiz a proesa de engordar mais do que tinha ganhado na gestação. 

Ao final dos 3 meses, eu já me sentia mais animada com a rotina, mais adaptada com a nova realidade. Gente, não dormir a noite inteira mexe com o psicológico, o emocional, mexe com tudo no ser humano... Eu não tive mais nenhuma noite inteira de sono desde o trabalho de parto... São 6 meses tendo ciclos de sono de no máximo 4 horas.

A partir do 4° mês, comecei a controlar a compulsão alimentar, mas ainda não conseguia fazer dieta restritiva nem substituir alguns alimentos: comer era o meu único prazer! Fui buscando conversar com outras mães, procurei ler muitos blogs falando sobre o puerpério, visitei fóruns de mães do mesmo período que eu... Vi que não estou sozinha nesse universo intenso, profundo e tão pouco falado. O que frustra muitas mães é o fato de ninguém nunca ter dito que era assim de fato. A gente espera que nosso bebê seja igual ao da novela da tv, que quase não chora, que fica tranquilíssimo no carrinho o tempo todo, que deixa a mãe fazer mil coisas e ser feliz para sempre. NÃO É ASSIM, jovem! Bebês EXIGEM colo, afinal, são ''bebês de colo''. Bebês demandam muitos mais cuidados do que imaginamos quando não convivemos com um.

Minha irmã pariu, quando Sophia estava com 5 meses. Então agora são duas puérperas e duas bebezinhas na mesma residência. É gostoso, mas é bem puxado! Uma dá suporte a outra, uma ouve e compreende as dores da outra. E assim vamos seguindo o fluxo natural da vida.

Agora, aos 6 meses de Sophia, ainda me sinto fragmentada - acho que serei, daqui para frente, um eterno mosaico - mas já estou cuidando melhor da minha saúde, da minha alimentação, estou me exercitando em casa mesmo, estou com mais disposição para enfrentar todos os reveses que vem surgindo nessa dinâmica louca da minha vida pessoal. Estou vivendo um dia de cada vez, sem muitos planos para o futuuuuuuuro distante. Prefiro planejar o que farei apenas no dia seguinte e assim me sinto menos frustrada. Ontem mesmo conseguimos passear pela primeira vez! Digo passear mesmo, sair sem obrigações (mercado, pediatra, visitar meus pais), apenas para curtir a tarde tranquilamente. E foi maravilhoso, exceto pela crise de choro que Sophia teve na volta para casa. Acho que ela fica apavorada com o movimento do carro.

O lado lindo, florido, encantado, é perceber que todo meu ''sacro ofício'' está valendo a pena. Quando vejo meu bebê acordar sempre sorrindo, se desenvolvendo bem, brincalhona, agradeço às forças que regem o cosmos por eu ser parte da vida dessa menina tão apaixonante. Dou tudo de mim a ela e continuarei dando, porque é assim que escolho viver a minha maternidade. Mas essa escolha tem um preço: atrasar minhas realizações pessoais.

Sei que minha filha vai crescer, está crescendo, né! Vai se tornar independente e, algum dia, vai pegar sua mochila e dizer ''tchau, mãe, vou ali ver o mundo!''.
E eu estarei disposta a apoiá-la em todas as suas decisões.

Esse é um breve e resumidíssimo relato do meu puerpério - este que ainda não acabou! 
Acho que enquanto Sophia mamar, me sentirei uma mulher-mosaico-mutante dando voltas na montanha russa. (risos)

Eu e Sophia, numa praça de Salvador, em 26 de outubro de 2016.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

ESTUPRADAS

Quando temos nossa voz calada
Quando temos nosso ponto de vista menosprezado
Sem respeito, sem ensejo
Sem valor, sem igualdade.

Quando temos nosso corpo objetificado
Quando temos nosso ir-e-vir cerceado
Sem pudor, sem defesa
Sem chance, sem liberdade.

Quando temos nosso templo invadido
Quando temos nossa carne dilacerada
Sem consentimento, sem desejo
Sem escrúpulo, sem humanidade.

Quando temos nossa fé nos homens destroçada
É quando já chegamos no limite
Corpo, mente e alma
Fêmeas,
Cansadas de serem estupradas!

sexta-feira, 20 de maio de 2016

MINHA REVOLUÇÃO PARTICULAR

Há 7 meses eu recebera a notícia que revolucionou a minha vida: estava grávida. Não era segredo para ninguém que eu nunca quis ser mãe. Isso era um fato. Um bebê jamais fez parte dos meus planos, pois não se encaixaria na rotina que eu tinha, interferiria na liberdade que eu amava, no meu estilo individualista e um tanto desregrado de ser. Não abordarei as circunstâncias da concepção ''acidental'' - prefiro acreditar na casualidade e não em acidente - nem falarei do caráter duvidoso dos métodos contraceptivos. Isso é de foro íntimo. O que quero expressar nesse texto é o quanto mudei radicalmente desde que comecei a gerar uma vida.

Nos dois primeiros meses de gravidez, comecei a mudar velhos hábitos, a praticar uma rotina mais saudável, mas eu ainda não sabia que estava gestante. Quando soube daquela condição especial, decidi levar mais a sério ainda a onda de reformas interiores. Mas não foi só isso que mudou.

Tive de refazer todos os meus planos profissionais e acadêmicos. Tive de abrir mão da primeira oportunidade de trabalho teatral, tive de adiar a entrada na área de concentração em Teatro, tive de abandonar algumas atividades artísticas. Tive de pausar, por tempo indeterminado, tudo o que eu tinha estruturado em minha mente para a minha vida.

Agora tudo o que penso é pelo bebê que gerei. Pesquiso apenas conteúdos relacionados à maternidade: e é muita coisa! Questões outras que me interessavam já não ocupam meu tempo - nem tenho esse tempo!

Durante a gestação, meus sentimentos atingiram picos por mim desconhecidos. Sorri e chorei por motivos nunca antes experimentados, os mais banais. Emoções à flor da pele, ora me senti um bebê gerando outro, ora me senti uma anciã cansada da vida. Contudo, vivi os melhores 9 meses de todos esses 29 anos. Dormia e acordava num estado de plenitude - apesar das preocupações corriqueiras - e satisfação pela existência de uma outra vida dentro de mim. Os hormônios funcionaram perfeitamente e eu me senti muito mais feliz, linda, em paz.

Quando pari e tive o primeiro contato com meu bebê, conheci o amor mais puro e mais forte que um ser humano pode vislumbrar: chorei, sorri, griteeeeeeeeeei ''Ela é linda! Meu amor! Minha filha! Maravilha de Deus!'' E conheci também meu lado mais mamífera, mais animal, sem vergonhas, pudores, etiquetas: virei bicho fêmea que lambe a cria.

E desde então eu sou outra: outra pessoa, outra existência, outra coisa, outra demanda.
Hoje meu bebê completa 1 mês de nascida. E que mês intenso! Aprendizados contínuos e sucessivos para ela e, com certeza, para mim! Aprendi as coisas básicas, cuidados, detalhes, minúcias: tudo tão pequeno e frágil. Aprendi as coisas árduas: resistir ao sono, à fome, ao cansaço... ao desespero! Estou internalizando, assimilando, todo esse universo em expansão que se abriu a partir do meu ventre.

A velha Siomara ainda está aqui, escusa, inquieta, louca para sair dançando e cantando da jaula improvisada - e provisória! Ela crê que poderá voltar algum dia. Ela espera. Mas, por enquanto, é essa Siomara Mãe que está comandando: não sei como serão os próximos meses, nem consigo imaginar como será amanhã, mas suspiro de alívio a cada vez que minha filha pega no sono e me deixa cochilar por alguns minutos! Nesse exato momento, aproveito a brecha que ela me dá e faço uso desse instrumento que amo: a escrita.

Essa foi a minha grande revolução particular: assumir, aceitar, acolher, com o maior amor do mundo, essa oportunidade que a natureza me deu de amadurecer e dar um significado mais nobre à minha vida. Não nasci para ser mãe, mas há um mês nasceu uma mãe devota e cheia de amor para dar.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

E assim Sophia nasceu... [Relato de Parto]

E assim Sophia nasceu...

Na manhã de 19 de abril, acordei com leves cólicas e comentei com minha irmã-doula, Samara. Ela me tranquilizou, avisando que poderia ser apenas o começo dos pródromos e que poderia levar dias ou até mais uma semana. Tentei, então, relaxar. Cochilei e acordei antes do meio-dia com uma cólica ainda mais forte. Senti que estava entrando em trabalho de parto, mas não fiz alarme. Fui para a bola de pilates, fiquei me movimentando para segurar as cólicas que vinham a cada 20 ou 30 minutos.

As horas foram passando e as cólicas foram ficando mais intensas. Naquela noite eu não consegui dormir. As contrações vinham a cada 10 minutos, durando cerca de 40 segundos. Minha irmã-doula me ofereceu a bolsa de água quente para aliviar. Bebi chá de camomila. Fiquei em posição semi-deitada e, a cada contração, eu me contorcia, tensionava outras partes do corpo, como forma de ''distribuir'' a dor. Samara me ofereceu outras terapias - massagem, ficar de cócoras, banho de água morna - mas eu só queria ficar ali naquela posição, sem interferências: eu sabia que aquela dor teria um fim maravilhoso!

Meu companheiro, Renato, também esteve presente o tempo todo, o que me tranquilizou emocionalmente e me deu mais forças para permanecer firme na minha escolha. Amanheceu, 20 de abril, e as contrações agora vinham a cada 8 minutos e a duração variava entre 30 segundos até 1 minuto. Renato oferecia massagem, mas isso me irritava e dava mais dor. Já não quis comer nada, tudo me enjoava. Bebi muita água. As horas corriam, mas para mim era uma eternidade e a dúvida se aquilo era trabalho de parto latente ou pródromos me deixava apreensiva e na dúvida se eu conseguiria suportar dores mais fortes.

Às 16h, eu já estava no ápice da dor e, a cada contração, eu dizia que não ia aguentar, que não queria mais parir, que iria a um hospital, que queria cesárea! Nesse momento, o papel da doula fez toda a diferença: Samara me fazia refletir sobre o motivo da minha escolha e a tranquilidade dela me dava mais força para continuar. Pedi para ir à casa de parto, pois sentia que estava perto de Sophia nascer. Nosso amigo Lalado gentilmente nos levou até o local. Durante o percurso, as dores pareciam mais intensas, eu achava que desmaiaria a qualquer momento. Mas segurei a onda - as ondas!

Chegando na Mansão do Caminho, esperamos bastante na recepção para que eu fosse examinada e tivesse resposta sobre o avanço do trabalho de parto. Fui atendida por uma enfermeira obstetra de mesmo nome que eu. Ela avaliou minhas contrações e julgou que eu não estaria em fase ativa de TP, porque, segundo ela, a minha ''barriga não estava ficando toda dura''. Ela não quis fazer exame de toque, para não me causar mais dor e incômodo. Ela recomendou que eu voltasse para casa, tomasse um banho e tentasse descansar. (Como??? Eu já tinha passado a noite anteior em claro de tanta dor!!!) Minha irmã ainda conversou comigo que eu deveria insistir que ela fizesse o toque, porque as contrações não são necessariamente iguais em todas as mulheres. Mas eu fiquei com medo de sentir mais dor e preferi confiar na palavra da profissional.

Enfim, voltamos para casa. Fui direto para minha cama, para tentar descansar. Não quis comer nem beber nada. Estava exausta. Em determinado momento, veio a próxima contração e uma vontade incontrolável de empurrar, fazer força, me invadiu. E eu comecei a empurrar. Eu gritava muito. Renato veio me auxiliar, me deu um pano para morder, fechou toda a janela do quarto, tentou me deixar mais a vontade. Eu sentia que Sophia estava querendo nascer naquele momento. Outra contração e eu forcei mais: senti o tão falado círculo de fogo! Sim, é de fato uma queimação! O colo estava totalmente dilatado! Eu dizia ''Sophia vai nascer aqui!''. Samara, que tinha saído com Lalado para comprar uma piscininha plástica para tentar aliviar minha dor, quando chegou e verificou a situação me mandou ficar de quatro apoios para eu segurar um pouco mais. Minha natureza pedia para expulsar e Samara me trazia para a realidade, avisando que o ambiente não tinha sido preparado para receber minha filha, que eu precisava esperar. Eu estava na partolândia e dizia ''Sophia quer nascer aqui e agora!''. Pedi um espelho para ver minha situação, quando posicionei, pude ver que o colo estava todo dilatado e ela estava ainda com a bolsa intacta.

Renato chamou um taxi - a essa altura, chamar Lalado mais uma vez seria muito desgastante para ele e não daria tempo. Para descer as escadas sem permitir que minha filha nascesse ali foi o maior sacrifício! Entrei no taxi e permaneci o percurso todo de 4 apoios - batendo a cabeça na porta, a cada curva desesperada que o taxista dava! (risos) - gritando e fazendo um esforço anti-fisiológico para manter minha filha dentro de mim por mais algum tempo.

Chegando à casa de parto, minha irmã procurou me posicionar de 4 apoios na recepção e logo a funcionária conseguiu me alojar no consultório de admissão onde eu tinha sido examinada mais cedo. Não havia quartos disponíveis, pois a casa estava lotada. Mas eu não me importei. Eu só queria colocar Sophia no mundo e cuidar dela com o mínimo de intervenções médicas possível!

Deitei na maca, coloquei o pano na boca, segurei as mãos de Renato e deixei fluir. Siomara, a enfermeira obstetra que tinha me avaliado mais cedo, me chamou de sortuda porque ela jurava que nunca viu uma mulher com contrações ''não eficazes'' evoluir para parto ativo tão rápido. Em 8 minutos na posição semi-deitada sobre a maca, veio a primeira contração e eu forcei. Na segunda, a cabeça de Sophia saiu e logo em seguida o corpinho! Simples assim!!! Foi a sensação mais extasiante da minha vida! Foi o ápice de toda a felicidade que eu já tinha experienciado antes. A obstetriz apenas limpou o excesso de vernix da minha menina e a colocou de imediato sobre meu abdomen. Eu entrei em estado de euforia ao olhar minha cria pela primeira vez: chorei, sorri, agradeci, gritei... Quis trazê-la para meu peito, mas a placenta ainda não tinha saído e nós deixamos o cordão umbilical parar de pulsar para poder cortar. O pai dela teve a oportunidade de cortar o cordão.

Quando eu quis amamentar logo em seguida, fui alertada pela obstetriz de que eu não poderia amamentar antes de fazer o exame de sorologia. Eu questionei, pois já tinha feito todos os exames há menos de 1 mês e ela tinha verificado. Então ouvi a primeira menção da palavra ''protocolo do Ministério da Saúde''. Uma auxiliar veio, portanto, coletar meu sangue para fazer análise imediata. Outra auxiliar veio com um frasco de iodo povidona e uma seringa com vitamina k para aplicar em Sophia, sem ao menos me dizer o que era aquilo. Eu contestei, disse que não queria aqueles procedimentos, que não tinha sido avisada sobre a obrigatoriedade dessas intervenções naquela instituição, que eu tinha feito um plano de parto e essas decisões já tinham sido estudadas por mim, pelo pai e pela doula. A auxiliar não gostou do meu comportamento. Veio outra e pegou meu braço, perguntei o que era aquilo e ela explicou que era para evitar hemorragia em mim. Aplicou e pronto. Deixei, né!

Naquela hora, essas abordagens que tornam a parturiente um objeto passivo não me incomodaram tanto, porque eu ainda estava sob efeito do coquetel de hormônios natural, que o meu corpo teve a oportunidade de produzir, pois eu dei o tempo que ele precisava para isso... Era tanta ocitocina e endorfina, tanto amor pela minha pequena Sophia... Pediram para pegá-la, depois de alguns minutos no meu braço, para medir, pesar e outros ''protocolos''. Só deixei e confiei porque Renato estava junto e Samara também estava por lá.

Desci sozinha da maca, com ajuda da enfermeira, minha xará. Fui levada a um quarto onde já havia uma puérpera com seu RN. A casa estava cheia e eu precisava dividir quarto. Tomei banho sozinha, já me sentia 100%. As dores simplesmente desapareceram totalmente, senti novamente a facilidade de me movimentar sem a barriga. Estava em êxtase e queria mais do que tudo terminar o banho e pegar minha filha no colo. E quando segurei Sophia novamente, fui inundada mais uma vez por uma tsunami de Amor!

Mais tarde, uma outra obstetriz veio conversar comigo e Renato sobre a aplicação da vitamina K e do colírio em Sophia. Nós protestamos porque a vitamina K tem a possibilidade de ser administrada via oral, sem precisar furar o corpinho do bebê, já cansado do parto. E o colírio só é necessário em casos onde a mãe tem alguma doença que possa ter infectado a visão do bebê, o que não é meu caso. Tive o cuidado de fazer TODOS os exames possíveis durante meu pré-natal e no último mês da gestação, justamente para evitar qualquer sofrimento à minha filha. Mas ela explicou que ali era uma instituição que trabalha em parceria com o SUS e, portanto, deve seguir alguns ''protocolos'' do Ministério da Saúde. Ela conversou com muita paciência e disse ainda que eu e Sophia não teríamos alta, e pior, eu poderia ser processada por negar um ''direito do bebê'' - algo que é extremamente contestável! Enfim, disse que ela mesma poderia responder judicialmente se algo acontecesse com minha filha, devido à omissão dela enquanto profissional. Acabei cedendo a tanta pressão psicológica e vi minha filha ser furada - sem necessidade - e dar o primeiro choro de dor da vida dela. Depois vi minha filha ter os olhinhos inundados de iodo povidona - sem necessidade - e ficar sem poder enxergar direito.

Quando eu penso que poderia ter parido em casa, sinto uma pontinha de arrependimento por não ter me organizado e corrido atrás disso. Seria uma opção dispendiosa, em torno de 6 a 8 mil reais - o mesmo preço médio de uma cesárea - mas certamente seria muito mais tranquilo e prazeroso, sem violência e desconforto algum. Eu já tinha passado 33 horas de trabalho de parto todo em casa, na companhia de Renato e Samara, usando apenas métodos naturais de alívio da dor. Senti a fase ativa, o ''círculo de fogo'', no conforto e na privacidade da minha cama. Se o ambiente estivesse preparado, eu pariria lindamente em casa.

Não vou relatar o período de avaliação – mais de 24 h - que passei na casa de parto, pois não quero comprar briga, nem parecer ingrata. Eu agradeço a Deus, por ter permitido que tudo fluisse sem intercorrência alguma, e à equipe que procurou me atender da melhor maneira que pode. Fui bem acolhida, percebi a dedicação das funcionárias em improvisar uma cama para mim, e arranjar algum assento para meu acompanhante. A equipe da Mansão é muito atenciosa e trabalha por amor ao serviço, apesar de ainda faltar só um pouco mais de trato para se chamar verdadeiramente de assistência humanizada: avisar à paciente sobre os procedimentos que serão administrados nela e no bebê, e perguntar se ela permite, seria um bom começo. E como obedecem aos ''protocolos do Ministério da Saúde'', elas deveriam ter me avisado sobre isso no dia em que fui fazer análise de perfil, quando estava com 37 semanas.

Concluindo, a casa de parto da Mansão do Caminho é a única em Salvador com essa possibilidade de respeito à fisiologia do parto, mas parece que o Ministério da Saúde impõe algumas práticas que devem ser discutidas. Me assusta como o ''sistema'' se apodera do corpo do RN, impõe direitos e deveres e não aceita contestação. Nós, pessoas humanas, mulheres e homens, mães e pais, não temos real liberdade de escolher como queremos parir, como queremos que nosso bebê seja tratado ao nascer. E, ao contestar os ''protocolos'' - que em sua maioria não são baseados em evidências - somos chamadas loucas, somos ameaçadas de perder a guarda do ser que botamos no mundo com tanta dor e tanto amor, somos pressionadas a seguir as ordens ''supremas'', como bois e vacas de abate.

Mas, apesar de tudo ter acontecido como eu NÃO PLANEJEI, agradeço à misericórdia divina por tudo ter acontecido na força do amor: Não tive laceração nem sofri episiotomia, portanto não levei ponto algum; não sofri manobras absurdas e retrógradas para acelerar a saída da minha filha; não fui obrigada a receber hormônio sintético para acelerar as contrações; não fui mandada calar a boca; pude gritar – apesar de ter preferido usar o pano na boca; pude escolher a posição que quis – e pasmem, quis ficar na maca mesmo; pude ter a companhia de duas pessoas de minha total confiança o tempo todo; meu bebê teve seu estoque de ferro assegurado pelo clampeamento tardio do cordão umbilical; minha bebê não foi lavada por ninguém, não foi aspirada nem sondada; fui bem acolhida e assistida, apesar das imperfeições meramente humanas e institucionais já pontuadas. Enfim, estamos bem e saudáveis. Eu agradeço.



domingo, 8 de maio de 2016

MEU DESEJO PARA O DIA DAS MÃES


Não dou a mínima para essas datas comemorativas comerciais.
Porque, sim, para além do clichê, dia das mães é todo dia mesmo!
Eu até entro no clima socialmente, parabenizo, - e hoje agradeço também! - mas
internamente sinto que é apenas uma banal tradição capitalista.

Quando eu era criança, achava a data divertida, pois sempre tinha algum artesanato produzido por mim na escola, para presentear mainha! Eu e minha irmã invadíamos sua cama com cartinhas e um café-da-manhã infantil. E ela adorava - ou, pelo menos, parecia adorar!
Mas minhas demonstrações de afeto nunca foram presas a datas. Eu sempre tinha um abraço, um ''eu te amo'', prontos para serem colocados para fora de mim, independente da ocasião: painho e mainha sempre foram a parte mais preciosa do meu ser!

Para não parecer hipócrita, a partir da adolescência, tive muitos arranca-rabos com minha mãe, por sermos muito diferentes em alguns aspectos, por excesso de ciúme da minha parte, por querer para ela uma vida perfeita, sem dores, sem lágrimas... Eu brigava, porque essa era minha linguagem!
Mas ela, de uma maneira mágica - que só agora posso compreender -,  nunca virou as costas para mim! Mesmo depois de muitos impropérios, de eu ter sido uma adolescente - e uma jovem adulta - extremamente não subserviente, com atitudes que denotavam ingratidão - apesar de internamente eu sempre me arrepender das coisas que eu fazia-, minha mãe sempre estava lá quando eu precisava, sem jogar na minha cara o quanto eu ainda dependia daquele porto seguro, sem exigir de mim nada além de ser feliz!

E hoje eu entendo o que é essa força poderosa chamada maternidade!
Agora tudo o que vivi até então faz sentido.
A minha mãe vive em mim e eu vivo em minha filha!
Entendo toda a dedicação, a abdicação de suas próprias vontades,
o ''sacrifício'', a energia aparentemente infinita, a ''incansável''
mulher que parece viver para servir...
Só agora compreendo, respeito, reverencio.

Certamente não serei uma mãe como a minha é.
Mas a força, o amor, a capacidade de me doar pela minha filha existe em mim!

Então, meu desejo para o dia das mães é me perdoar por não ter sido uma filha digna.
Desejo também perdoar a minha mãe pelas pequenas falhas que ela mesma já pontuou.
Hoje também desejo ter muito mais leite e energia para acordar a cada 2 horas e
alimentar minha pequena Sophia. =D
Desejo que futuramente minha filha seja livre para se expressar, independente de data, e só expresse o que for verdadeiro em seu coração. Que ela possa me dizer onde estou errando e que eu tenha  humildade para retificar as minhas incoerências.

Desejo que mães e filh@s façam as pazes hoje, amanhã, qualquer dia, e que o amor prevaleça!



sexta-feira, 1 de abril de 2016

''Parto humanizado??? DeeeeusÉmais!!!''

''Parto humanizado??? DeeeeusÉmais!!!''

Foi exatamente isso que ouvi hoje, na sala de espera para mais uma consulta de pré-natal,
de uma jovem de 24 anos, esperando sua primeira filha.
Sua gravidez está de baixo risco e - pasmem - o médico defende que ela deve tentar parto normal. Ela, no entanto, está indignada e disse que tentará convencer o médico a marcar a cesárea.
Falei dos benefícios do parto natural com assistência humanizada, sobre a importância de uma doula, mencionei o documentário ''Renascimento do parto'', mas tudo o que eu via como reação era uma cabeça assustada, meneando em negação, e frases como a do título dessa publicação.
O que me chamou atenção foi a concordância das outras gestantes e outras mulheres que já passaram pela cesárea sobre uma suposta ''maior segurança'' da cirurgia em relação ao parto natural.
E a rejeição do termo parto humanizado???!!! Não é bem louco isso?!
 Preferem o que? Um parto automatizado?
Um parto mecanizado?
Um parto robotizado?

 PELO AMOR DA DEUSA, MULHERES, ACORDEM!

Não percebemos todo um discurso tendencioso que beneficia apenas o sistema médico.
 Entregamos toda a responsabilidade do nascimento da nossa cria  nas mãos de um profissional que só visa o conforto de sua agenda e de seu bolso. Abrimos mão do protagonismo em um momento extremamente especial para mãe e bebê, perdemos controle dos nossos movimentos, somos anestesiadas, cortadas, nossos bebês muitas vezes nascem prematuros, por conta dessas cesáreas eletivas. Temos ojeriza  a sangue, suor, líquidos, secreções e excreções produzidos pelo nosso próprio corpo. Permitimos que nossos bebês sofram intervenções neonatais totalmente desnecessárias
como aspiração nasal, sonda gástrica, colírio, clampeamento imediato de cordão umbilical, banho imediato... E o pior, o bebê fica distante da mãe nos primeiros momentos de sua chegada
ao mundo! Para quê?
Qual a urgência de dar banho, medir, aspirar???
Que neurose é essa por uma situação fisiológica que seja extremamente asséptica?
Como nos tornamos tão medrosas?
Quando deixamos de acreditar na perfeição do nosso corpo, da nossa natureza?
Por que há tanto pavor em torno da possibilidade de sentir dor?
Há respostas para todas essas perguntas, mas deixarei a cargo de quem quiser refletir sobre isso.

A cada vez que encontro com mães e gestantes que defendem ferrenhamente a cesárea, mais eu me lembro de uma frase: ''O Conhecimento liberta!''
Eu era leiga sobre tudo isso: gestação, parto, puerpério. Nem sonhava em vivenciar.
 E quando descobri minha nova condição, corri atrás de poder e autonomia, ou seja, procurei informação. E hoje tenho convicção do que quero, tenho certeza que será o melhor
para mim e para minha filha!
Ficarei muito, mas muito triste mesmo, se for necessária uma cesárea de emergência.
Não sou cordeirinho, não sigo a boiada, não vou ceder a esse sistema que tenta nos colocar em coleiras e desencorajar qualquer ato de empoderamento.
E parto natural humanizado é empoderamento feminino, é autonomia, é protagonismo da mulher.
 É um momento de profunda conexão com sua força mais poderosa,
é a oportunidade de descobrir quão forte e poderosa você é!
Sejamos corajosas, sim, para ir contra esse sistema que diz ''você não pode parir'',
''você não consegue suportar a dor''.
Por que a dor do parto é uma só, e acaba quando seu filho nasce,
mas a dor de perceber que teve furtada a sua autonomia sobre a situação mais divina da sua vida
é perene.

* A Cesárea salva vidas, quando utilizada para casos de real necessidade.
** Saiba quais as reais indicações de cesárea aqui > http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/indicacoes-reais-e-ficticias-de.html


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

SOMOS TODAS CLANDESTINAS: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE HISTÓRIAS DE SOLIDÃO


Cheguei ao Teatro Solar Boa Vista, acompanhada da minha irmã.
No hall do teatro, encontrei uma amiga do coletivo feminista.
Conversamos sobre minha gravidez, sobre minhas expectativas para o parto.
''Papo de mulher.''
Sim, porque homem não se interessa, não se faz presente,
não se importa, não se engaja, não tem empatia, não se coloca no lugar, não cria vínculo!

Entramos no teatro.
As cadeiras estavam organizadas em cima do palco, o mais próximo possível da cena.
O cenário: um banco de madeira, cordas penduradas no esquerdo-frente,
um prato com um pó cor de terra (talvez urucum, talvez argila vermelha), um telão branco ao fundo.
O público era preponderantemente feminino.

A atriz entra em cena.
A primeira fala da personagem traz o seu útero como ''campo de batalha''.
E segue-se 45 minutos de um monólogo intenso, denso, pesado mesmo,
doloroso, que martela na mente e no coração.
O conteúdo da peça é ABORTO!

Aborto não como ato criminoso sobre a vida de um ser indefeso,
mas como ato de violência sobre o corpo da mulher, que ocorre antes, durante e depois dele mesmo.
Se a mulher engravida, a culpada é dela.
Se a mulher não encontra apoio para ter a criança, a culpa é dela.
Se a mulher não tem condições de fazer um aborto ''seguro'', a culpa é dela.
Se a mulher resolve ter o filho, a culpa é dela.
Se a mulher resolve abortar de qualquer jeito, a culpa é dela.
Se a mulher morre, por complicações de um aborto clandestino, a culpa é dela.

A mulher se vê sozinha em todos os momentos pós-coito-do-macho-progenitor.
Ele se exime de qualquer responsabilidade, não é apontado, não é culpabilizado,
não é perseguido, não é torturado pelo sistema de saúde, não é ameaçado pela polícia,
não é difamado, não é condenado pela igreja, não é castigado por ''Deus''.
Já ela...
Quem mandou nascer mulher, né?

Em determinado momento, a personagem traz para a cena uma bacia
com um pedaço de carne e um facão.
Ela se agacha e, de cócoras, começa a cortar vigorosamente a carne,
enquanto conta diversos relatos de abortos clandestinos.
Em cada caso narrado, a omissão, a ausência, a indiferença do homem,
parecem dilacerar muito mais a mulher do que o ato de abortar em si.
E ela vai - qual açogueiro, qual um médico que, em uma curetagem violenta,
faz ''a desgraçada sofrer pelo crime cometido'' - fincando a
faca naquele pedaço morto de carne animal, fincando o texto nos nossos ouvidos,
fazendo as palavras cravarem como cacos de vidro na nossa mente de mulher.
Sim, porque toda mulher heterossexual com vida sexual ativa pode engravidar
mesmo usando contraceptivos.
Sim, porque toda mulher, heterossexual ou não, pode sofrer um estupro e engravidar.
Sim, porque toda mulher tem seu corpo como um território colonizado pelo sistema patriarcal, gerenciado pelo sistema de saúde, vigiado pela sociedade como um todo,
objetificado pelo capitalismo, demonizado pela igreja...
Toda mulher é sistematicamente uma desapropriada dela mesma.

- Seu corpo não é seu por ''direito''! - Eles dizem.
Bruxa!
Vadia!
Promíscua!
Louca!
Absurda!
Devassa!
Irresponsável!
E, para resistir, ela se torna clandestina!
- Assassina! - Eles dizem.
E ela sangra até a morte - que pode ser física,
que pode ser psicológica.
E o silêncio...


A peça não me trouxe catarse alguma.
Entretanto, me deixou inquieta, reflexiva, triste, inconformada!
Me fez escrever esse texto.
E agora que estou grávida, com 30 semanas de gestação, sei o que é ser mulher
e ter nos ombros o ''peso'' da responsabilidade sobre uma nova vida que trago ao mundo.
E eu, graças aos desígnios da causalidade universal, tenho o privilégio de estar sendo
apoiada pela minha família e amigos. Mas me sinto mal ao me colocar no lugar daquelas que
não tiveram a mesma sorte que eu, que foram vítimas de estupro, que engravidaram sem a menor
condição de criar uma criança, que foram expulsas de casa, que não encontraram apoio de absolutamente ninguém e se veem verdadeiramente solitárias.


Somos todas sangue, suor e lágrimas.
Somos todas clandestinas.
Somos todas solidão.




segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

CONVERSA ENTRE MARINAS

Marina, mulher, eu vi que você se pintou!
A foto na rede, com tantos likes, bombou!
Sua beleza já era única
E a maquiagem revelou outras nuances...
Mas tenho que te dar uma ideia:
Tire esse bofe do lance!
Homem que bate em mulher, por motivo banal
- Por motivo qualquer! -
Não merece confiança,
Merece cadeia sem fiança!

Marina, mulher, eu te avisei que aquele bofe não presta!
Agora do seu belo rosto o que resta?
Angústia, medo, olho roxo de sangue preso...
Vamos lá, na delegacia, mulher, denunciar esse marginal!
A única coisa que espero é que não encontre outro igual.
Você merece respeito,
Esteja de peito nu ou rosto pintado,
Seu corpo é seu por direito!

Marina, mulher, o que ele fazia com você
Se chama gaslighting,
É tortura psicológica,
Para confundir sua noção da realidade,
Para te fazer acreditar que é a culpada
Pelos erros que não cometeu!
Que mal há em se pintar, meu Deus?!
Apanhar porque recebeu elogios!?

Marina, mulher, estou com você
Para o que vier.
Vamos denunciar esse homem torpe.
E você se pinta o quanto quiser!

Marina, mulher, você se pintou!
E quando quiser se pintar de novo, me chama que eu vou
Ajudo nos makes, me pinto também!

Desculpe, Marina, amiga,
Mas eu me intrometo por bem!
Para te ver bem!
Para ficar bem.