Vontade de escrever umas coisas... De compartilhar a minha perspectiva, a vivência desse corpo-fêmea-gorda-preta, de refletir sobre as relações de opressão nas microesferas do cotidiano... Mas acho desnecessário, já tem muita mana falando sobre isso, eu sei. Sabe quando começa a cair a ficha que você nunca será "digna de sentar com elas", pessoas brancas que esbanjam seu poder de consumo sem vergonha, e você consegue entender, finalmente, todos os pequenos "mal entendidos" do passado, e as peças do quebra-cabeça vão se encaixando...? Qual o lugar desse corpo-fêmea, que é de uma mulher gorda e preta? É realmente o lugar que ela escolher ou você, pessoa racista, já determinou esse lugar?
Eu quero curar minha criança ferida, que era gorda e preta, quero dizer a ela que a vida é muito mais do que pensar fixamente em emagrecer e alisar o cabelo para ser aceita. Quero dizer a ela que continue estudando, porque mesmo sabendo escrever muito bem, eles ainda vão tentar silenciar seu discurso. Quero dizer a ela para desligar a TV e ir fazer qualquer coisa: qualquer coisa seria melhor do que ter assistido asporcarias que assisti. Quero dizer a ela que não precisa se submeter a nada que não a agrade, na tentativa de agradar aos outros.
Quero curar também a minha adolescente, que era gorda e preta, para que ela se enxergue de verdade. Quero dizer a ela que o discurso da "mulata sensual" não a beneficia, que a "liberdade sexual" que ela tanto aplaude não a beneficia, que ela não precisa ser "bonita" para ser respeitada. Que ela não precisa passar fome para emagrecer e não precisa ser magra. Que ela realmente é muito ingênua, apesar de inteligente e informada, e que as pessoas podem ser muito cruéis a troco de nada! Quero dizer que ela deve se preservar em todos os aspectos, principalmente o emocional. E que ela não fique tão ansiosa para ser maior de idade, pois aí é que as coisas complicam mais.
Talvez isso não seja para ser lido. Mas virou texto, se materializou. Estou incomodada com tudo de errado que vem acontecendo no mundo, e me vem essas inquietações...