sábado, 2 de dezembro de 2017

Madrugais

Das conversas
Dos insights
Dos afetos
Que só a calada da noite
Pode proporcionar.

São confidências num canto de janela online
São inspirações para compor cenas colossais
São amores que se constroem a cada hora dedicada:
Todos filhos da madrugada.

E dois seres humanos, ou mais,
Fazem amor, em versos de prosas
Falados ou escritos,
Na rede
Embalados
Pelo silencioso som
Dos hits madrugais.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

"EMBUSTE ÀS AVESSAS"



Era o maior entusiasta
Do sexo sem compromisso.
Entretanto, não bastava,
Todas lhe tinham um feitiço.

E não ficava apenas
Nos finalmentes dos amantes,
Sempre caiu naquele esquema
De conversar depois e antes.

Certo dia, resolveu
- Vou compartilhar o meu amor!
Em cada flor mil beijos deu,
Mas de nenhuma se fez senhor.

Se envolvia, quem diria!
O jovem descompromissado,
Mas demonstrar não queria
Que amava e era amado.

Um embuste às avessas,
Pois sonhava sexo casual.
Onde achava a carne fresca:
Vinho, velas, castiçal...

Tão logo ria a aurora
Não conseguia se despedir,
A visitante torna-se agora
Aquela que ele não deixará partir.






sábado, 11 de novembro de 2017

Primeiras memórias

Eu devia ter uns 2 anos e meio. Morava no edifício Ana, no conjunto Laura Catarina. Lembro que era um apartamento no térreo, com acesso a uma pequena área externa, que me parecia um quintal. Em noites de lua cheia, meu pai ficava comigo na janela do quarto, por um tempo indefinido e tão suficiente... Ele falava coisas, cantava canções antigas - "lá vai a chalana, bem longe se vai..." - e eu me sentia totalmente completa naquele momento. Me incomodava com o movimento de trabalho doméstico interminável da mãe. E geralmente ela estava estendendo roupas, naquela área externa, e da janela do quarto eu podia vê -la, eu acenava, mas ela estava absorta em suas questões existenciais. E eu cantava com meu pai, olhava a lua... aquelas noites poderiam ser eternas, porque a sensação de plenitude me enchia o corpo pequenino. Sim, são memórias minhas. Pode estar um tanto floreada pela minha narração de adulta, mas eu vivi isso.

Com uns 4 anos, eu morava na rua Dom Eduardo, perto da casa da minha avó paterna, na Santa Rita. Me lembro de muita coisa dessa época. O nosso apartamento era no subsolo e o corrimão parecia uma escorregadeira gigante de concreto. Eu sempre tive vontade de escorregar ali, mas meu pai proibiu, porque era perigoso, e eu não o desobedecia. Havia um garoto albino na rua, o Galego, e ele adorava ir brincar lá comigo e minha irmã. Uma vez ele apareceu com um brinquedinho diferente e eu achei tão legal que peguei e escondi. Ele foi se queixar à minha mãe e ela prometeu que resolveria a situação. Ela conversou comigo -eu me senti num julgamento que durou horas- e eu menti. Depois ela encontrou o brinquedo que estava muito mal escondido e eu acabei confessando. Ela me fez pedir desculpas a Galego e devolver o brinquedo. Aquilo foi importante demais: ela não brigou comigo, apenas explicou que o que fiz era errado e eu precisava corrigir aquilo. E tudo se resolveu e Galego voltou a brincar normalmente comigo. ... Nesse edifício havia uma garota da mesma idade que eu, a Paulinha, e eu achava ela linda por causa dos cabelos lisos! Havia uma menina loira também, cujo nome não recordo, mas minha amizade maior era com Paula. Uma vez, eu e ela fomos até o último andar do prédio, onde moravam uns "japoneses". Estávamos com muito medo dessa travessura, porque Paulinha disse que o japoneses comem de tudo, cachorro, grilo e até crianças. Queríamos bisbilhotar a casa deles. Mas não tivemos coragem. Descemos as escadas correndo, ao ouvir as vozes deles se aproximando. Eu gostava de ficar na varanda do andar de Paulinha, que era no alto e dava para ver a rua toda. Me lembro de uma noite em que estava lá com ela, brincando, e ouvi em algum rádio a música "All that she wants".

Nessa época, o momento mais feliz já eram as férias da escolinha, sim! Porque íamos à ilha de Itaparica - ou, como eu costumava dizer, "ilha de tia Gil" - e ficávamos na casa da irmã de meu pai, em Ponta de Areia. Aquela casa era um paraíso para mim: era enorme, dava para brincar de correr e tantas coisas criativas! E tinha tantas Mangueiras por todo o terreno... e pés de pitanga, caju e araçá! Eu, minha irmã e minha prima, ficávamos o dia inteiro esperando o momento de ir à praia, e enquanto isso não acontecia, as árvores eram meu playground. Eu era uma criança gorda que subia em árvores! Passava horas brincando sozinha, inventando estórias, conversando com amigos imaginários!  (Eu fui uma curumim de apartamento. Minha alma é das matas, mas meu corpo foi colonizado e adestrado para viver em caixas de concreto.)

Quando vim morar no Vila Verde, já tinha uns 6 anos e meio. Lembro do dia em que meu tio Zé veio instalar os últimos detalhes da parte elétrica do apartamento, antes da nossa mudança: aquele espaço todo vazio não me parecia em nada com minha casa. Eu olhava pela janela, via aquela ladeira infinita, nem sabia como tinha chegado ali. Parecia tão irreal, me sentia sonhando. Eu não queria sair da Dom Eduardo. Eu não queria me afastar da Paulinha, eu gostava dela, tínhamos planos para colocar em prática,  e tínhamos o mistério dos japoneses para resolver.

Mas nos mudamos em 1992. Lembro dos meus primos adultos, por parte de pai, ajudando na mudança que foi feita na caminhonete de tio Jó. Lembro do meu primo André - que Deus o tenha! - sorrindo para minhas traquinagens: eu me embolando dentro de um balde de plástico gigante. Me embolei tanto que o balde se partiu. Eu já era uma criança gorda.

Essas são algumas memórias recorrentes, as mais vivas em mim. Existem muitas outras! Tive uma infância muito feliz! Tive meus traumas também, pois a dinâmica familiar não era muito harmoniosa, e a sociedade não era tão afetuosa com uma menina gorda do cabelo crespo. Mas fui criançona mesmo: ingênua, espontânea, criativa, sorridente, dançarina...

Que eu possa resgatar essa criança, cuidar dela em mim, mantê-la por perto, principalmente, quando estiver brincando com minha filha. Me pergunto agora sobre a qualidade de memórias que estou dando a Sophia. Que tipo de mãe sou para ela? Espero estar cada vez mais cônscia dos meus desafios internos e ter mais controle sobre meus impulsos agressivos. Que essa maturidade que vem, me permita ser melhor para a minha filha, que eu consiga ter a ternura que meus pais tiveram comigo, que eu não surte tanto na frente dela, pois ela não precisa desse peso. Que eu me doe um pouco mais a ela, a cada dia, porque ainda acho que é pouco. Passa tão depressa... Já são 31 anos os meus...

MATROSKA

É a filha dentro da mãe
A mãe dentro da avó
A avó dentro da bisa
E assim, desde os primórdios,
As de hoje são versões
Aperfeiçoadas daquelas
Mulheres anciãs
Ancestrais.

Eu sou minha mãe
E a mãe dela
E trago em meu corpo,
Mente e coração
Tudo o que já foi
Vivido, sentido,
Pelas minhas
Versões antigas.

Demorei para me conectar
Para perceber a ligação infinita.

Mas o chamado está ecoando forte
Um grito, um rugido, um brado
Vem das florestas, dos vales,
Dos campos e das águas
A mãe Terra precisa de nós
De todas as mulheres
Da nossa sabedoria
Da nossa leveza
Dos nossos feitiços ocultos
Para curar a humanidade
Para curar o masculino
Para curar a natureza
Que está ferida pela homem.

Precisamos estar atentas
Somos nós o braço forte
Da revolução planetária.
Não se trata de mão armada,
Mas de alma amada.
Começando com o auto-amor
E o auto-perdão,
Temos que botar para fora
Todo amor que trazemos
Em nosso ventre:
Somos a fonte infinita de amor!


Entenda esse chamado
E perceba a sua função
No seu meio, no seu contexto.
Se cure, se fortaleça,
Se plante, se conecte
Com seu útero,  com seu sagrado.
O planeta vai precisar de todas as mulheres
Juntas na mesma vibração
Como em uma grande tenda sagrada.

Somos todas uma!
Filhas de uma mesma hierarquia divina.
E precisamos curar o masculino,
Pois sozinho, ele não está conseguindo
Perceber seu desequilíbrio.

Que a Grande Mãe
Nos permita perceber nossa força ancestral:
Mulheres lobas
Amazonas
Guerreiras da paz.

Eu sou a minha mãe
E a mãe dela
E a mãe da mãe da minha mãe
Eu sou todas elas.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Desvendar-me ou desvender-me

Crenças odiosas sobre estética
Vendaram meus olhos
Diante do espelho:
Não quis me ver
Não me quis bem
 Só me quis mal
Me quis outra.

Era uma barriga caída
Seios murchos e flácidos
Celulite e estrias por todo lado
Difícil querer enxergar
Um corpo torto,
Um corpo estranho,
Quase um corpo queer!

Foram 30
Os anos que passaram
De olhos vendados para mim,
Fugindo da autoimagem criada
Por um conjunto de discursos
Do que é belo e do que sou eu.

Um espelho em cada cômodo,
Para garantir o incômodo
E me manter aprisionada
Na fissura pela capa,
Escrava do que acham - acho - de mim.

De súbito, mas não tão de repente,
Em uma obra de desconstrução
Processual e onipotente,
Desatei o nó
Do meu auto-desamor.
Desvendei-me perante a mim
Despi-me totalmente.
Foram alguns segundos de ojeriza
E outros tantos de surpresa descoberta
- Prazer, essa sou é você.

Crenças odiosas são rentáveis
E são fáceis, convincentes
Levo os dedos treinados e ágeis
Para desvendar agora e sempre
Cada crençazinha que apareça
Na tentativa de me furtar novamente
A estima por mim mesma.




quarta-feira, 6 de setembro de 2017

CICLO ELEMENTAL

Eu sou aquela que desagua
Em sangue, a cada lua
Em leite, a cada cria
Em gozo, a cada ato

Sou correnteza
Que só segue
Se desvia 
mas não para
Nem se prende
Fluida...
Quase como ar.

Eu sou aquela que sopra
Intuição, a cada noite
Inspiração, a cada dia

Sou ventania
Que promove
Des-ordem
Mobiliza 
Mudanças 
Quase como fogo.

Eu sou aquela que arde
Em lutas, a cada injustiça
Em risos, a cada conquista

Sou fogareiro
Que invade
E transmuta 
Trago a Fênix 
Forte.
Quase como a terra.


Eu sou aquela que sustenta
Nos braços, adultos e crianças
Nos ombros, a dor do mundo
Nos pés, minhas próprias andanças


Sou barro e pedra
Lama e pó 
Que gera, abriga
Nutre e
Protege.
Fundamental,
Quase como água. 



(Poema composto para a performance "Desvendar", de Dança do Ventre,  na Escola de Dança da UFBA,  em agosto de 2017)


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

ENLUARADA


Enluarada
Uivando em seu canto secreto
Segredos

Nua de defeitos vãos
Fêmea humana
Cheia de possibilidades

Enamorada de si.

domingo, 2 de julho de 2017

DOS BEIJOS QUE NÃO TE DEI

Beijar é verbo de atrito
Que fricciona o beber e o já
Dos lábios sedentos de prazer agora.

Beijar é verbo de roçar,
Vizinho do lamber e do chupar,
Línguas uníssonas, jamais monótonas.

Beijo é palavra que tem gosto
E, toda sinestésica, tem cheiro e cor
Faz um som de delícia,
Quando dado com vontade
É macio e confortável,
Quando dado com verdade.

Beijo não precisa de definição.
Começa onde quer
e se transforma sempre
Não termina, não acaba...
Se transmuta em
Cheiro no cangote
Abraço apertado
Mãos que se perdem
nos relevos de alguém.

Beijo surge no olhar,
No aguar do desejo
De ter aquela boca
Bonita que combina
Com todo o conjunto:
Olhos, peitos, pernas.
Plural De Beijo,  Beijos
Que não te dei...
Ainda!



quinta-feira, 22 de junho de 2017

GORDA FEIA

Gorda feia!
Dizia sempre que me via,
Quando eu brincava na rua,
Todo dia.
Não podia me ver sorrir...

Gorda feia!
E eu já sabia que era gorda.
Mas feia, não entendia...
Para ser bela, deveria
Ser toda como Paquita:
Corpo, cabelo, cara, cor...

Gorda feia!
Repetia
Ecoava
Doía
Incutia na minha criança,
Minha pequena Siomara,
A ingênua e descabida
Vontade de ser outra
De não ser aquela
De não ser ela
De não ser eu.

Gorda feia!
Me convenceu.
Aceitei seus rótulos
E todo o pesado fardo
De ser exatamente assim.
Doeu por muitos anos
E ainda dói, quando em crise.
A minha criança ferida
Ainda não se curou.

A mulher,
Gorda feia,
Já se muniu de argumentos
E aprendeu o louvável
FODA-SE
Que todo babaca merece ouvir.

A gorda feia
Sobreviveu à sua violência!
Cresceu e apareceu.
Foi desejada e querida.
E viveu tanta coisa linda,
Que não cabe em pouca rima
Tanto brilho e tanto amor!


terça-feira, 6 de junho de 2017

[Não] nasci para ser capacho!

[Não] nasci para ser capacho!
[Não] vou me fingir de frágil
Para agradar ego de macho

[Não] nasci para ser capacho!

[Não] vou deixar de dar e gozar
No primeiro encontro - pode ser o último -
Para macho me respeitar

 [Não] nasci para ser capacho!

Dos meus interesses, [não] vou abrir mão
Dos meus sonhos, [não] vou me esquecer
Para macho acreditar ser minha razão de viver

 [Não] nasci para ser capacho!

Pode ser que eu me apaixone
Por um homem...

E, de repente, desista de resistir
Ao sistema patriarcal

E, subitamente,  resolva não me revoltar
Com essa discrepância social

E, infelizmente, me torne de fato
Capacho de macho.
Triste final!



terça-feira, 11 de abril de 2017

Mulher livro livre

Eis uma mulher livro aberto.
E apesar de poder ser lida
Sem maiores esforços,
Há meandros profundos
Nas suas entrelinhas.
Há marcas de rabiscos,
Há rastros de esboços.

Traz hipérboles
Disfarçadas de eufemismos
Traz verdades
Disfarçadas de metáforas

Uma mulher livro livre
E apesar de ser sempre passional,
Não depende da existência de um romance
Para se realizar: satisfazer-se.

Se em uma página chora uma paixão
Não correspondida,
Em outra, mais à frente, celebrará a solidão
De um coito autoral: gozar-se e dormir-se.

A mulher livro sabe que pode ser.
A mulher livre é.
A mulher livro livre pode ser e é.

A mulher livre ama e é amada
Porque ela atrai reciprocidade
E não deseja essas instituições sociais
Criadas para aprisionar o corpo fêmea.

Sua protagonista
Não quer namorar.
Tampouco, casar.
Quer jogar seu corpo no mundo,
Seguindo apenas a lei natural dos encontros.

A mulher livro escolhe quem a lê.
Se abre, qual falésia, quando encontra
A leitura esmerada de uma alma interessante.

Sua protagonista
Não guarda segredos.
Tampouco, afetos.
Transborda-lhes:
Linhas obscenas, eufóricas.

Eis a mulher livro livre do século presente.
Um exemplar raro
Que se encontra em qualquer esquina.
Ela é ordinária!
Ou metafísica? surreal...



quinta-feira, 9 de março de 2017

VIDA-FLOR

Estou cravejada de espinhos.
Rosa despetalada.
Só sobraram estes
Que me protegem
E me ferem
Porque assim deve ser.

Não há mais seiva
Nem sangue
Nem lágrima.
Há somente dor
E uma semente seca
Que não germinará.

Assim acaba o ciclo
De uma vida-flor
Iludida com a ocasião
De estar enfeitada de superficialidades
E ser buquê.

Não sirvo mais para flor.
Não quero servir mais para nada.

CRISE FINAL

Enfim, chegamos à fase
Do silêncio matinal.
Não dormimos abraçados
Mal me pede "passa o sal".
Ovos mexidos,  tapioca
Prepara tudo só pra você
E eu aqui me perguntando,
Quando deixamos de ser?

Se arruma apressado
Pega a chave e diz "tchau".
Sozinha, no chão da sala,
Deito e sou o temporal.
Choro as noites de alegria
De afagos e prazer
Sempre em sua companhia
A gente acreditava mesmo
Que não acabaria assim.

Sou toda raios e trovões
Desabo o mundo
Antes de você voltar
Quando abrir a porta
Vai encontrar outra
Vida para viver
Encerro o ciclo
Viro a página
Para não desvanecer

Quem sabe lá,  um dia
A gente se bate
Domingo a tarde
Sem nada a fazer

Quem sabe lá,  uma noite
A gente se abrace
E as horas passem
Sem perceber.

PRESENTE-ARTE

Estes são rabiscos de dor
De uma alma que sente muito
Que transborda gritos de amor
Mas não encontra eco no mundo

Aqui estão impregnados
Sonhos, desilusões e afetos
Reinam como fantasmas
Nas galerias acesas do pretérito

Que passado não volta eu sei
Que não posso ser outra, também
Mas eu devo respirar agora
E amar quem está aqui.

Você consegue imaginar
A dona desses versos?
Que tipo de beleza a vestiria?
Você consegue imaginar
A dona preta desses versos?
Uma grande e volumosa mulher
Com fartura de tudo o que é lindo e lido como feio.
Imagine se ela pudesse se materializar
E chegar até você, "presentear-te",
Presente arte...
O que faria com a preta que decanta dores
Em forma de verso?

É porque dói ser fêmea...
É porque dói ser amor.
Não precisa fazer nada além.
É só ler.⁠⁠⁠⁠

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Fluxo

Vontade de escrever umas coisas... De compartilhar a minha perspectiva,  a vivência desse corpo-fêmea-gorda-preta, de refletir sobre as relações de opressão nas microesferas do cotidiano... Mas acho desnecessário,  já tem muita mana falando sobre isso, eu sei.  Sabe quando começa a cair a ficha que você nunca será "digna de sentar com elas", pessoas brancas que esbanjam seu poder de consumo sem vergonha, e você consegue entender,  finalmente, todos os pequenos "mal entendidos" do passado, e as peças do quebra-cabeça vão se encaixando...? Qual o lugar desse corpo-fêmea,  que é de uma mulher gorda e preta? É realmente o lugar que ela escolher ou você, pessoa racista,  já determinou esse lugar?

Eu quero curar minha criança ferida, que era gorda e preta, quero dizer a ela que a vida é muito mais do que pensar fixamente em emagrecer e alisar o cabelo para ser aceita. Quero dizer a ela que continue estudando, porque mesmo sabendo escrever muito bem, eles ainda vão tentar silenciar seu discurso. Quero dizer a ela para desligar a TV e ir fazer qualquer coisa: qualquer coisa seria melhor do que ter assistido asporcarias que assisti. Quero dizer a ela que não precisa se submeter a nada que não a agrade,  na tentativa de agradar aos outros.

Quero curar também a minha adolescente,  que era gorda e preta, para que ela se enxergue de verdade. Quero dizer a ela que o discurso da "mulata sensual" não a beneficia, que a "liberdade sexual" que ela tanto aplaude não a beneficia, que ela não precisa ser "bonita" para ser respeitada. Que ela não precisa passar fome para emagrecer e não precisa ser magra. Que  ela realmente é muito ingênua,  apesar de inteligente e informada, e que as pessoas podem ser muito cruéis a troco de nada! Quero dizer que ela deve se preservar em todos os aspectos,  principalmente o emocional. E que ela não fique tão ansiosa para ser maior de idade, pois aí é que as coisas complicam mais.

Talvez isso não seja para ser lido. Mas virou texto, se materializou. Estou incomodada com tudo de errado que vem acontecendo no mundo, e me vem essas inquietações...

domingo, 29 de janeiro de 2017

Eu me sustento


Não é de dinheiro que falo
Quando a palavra sustento
Habita meu verso.

É de osso, de músculo.
É de ar, de hálito.
É de fluido, de hormônio.
É de livro, de libido.
É de mente e coração.

É um lindo romance sem final
Feliz sempre, pela própria vida
Onde eu sou quem me leva
Café na cama,
Flores belas,
Ao cinema,
Com direito a carinhos gratuitos.

Me sustento há tantos anos
Sem ter notado que
Nunca me abandonei
Nunca estive só,  sem mim
Nunca me deixei pra lá.

Levo a minha vida
Negociando o destino
Aonde ela quer me levar.
Banco minha viagem
Com passagem só de ida
Decidimos o destino, liberdade
Sem mala ou despedida.
O que me sustenta
Não se compra, não se guarda
Não se conquista.

Vou com firmeza
Porque sei que tenho razões para voltar
Vou tranquila
Porque sei que estarei bem em qualquer lugar
Descobri faz pouco tempo
Eu sou meu próprio lar
E nele, em mim, eu me sustento.





(Devaneio poético pós aula de teatro)