terça-feira, 27 de janeiro de 2015

DÓI

Surge do ventre
E ganha força no plexo solar.
Arde no estômago,
Como um inferno incandescente.

Um rompimento abrupto:
Corte de navalha,
Garrote vil,
Fiquei sem fala,
Tirou meu ar.

Escutei seus motivos,
Lamúrias românticas de um homem monogâmico.
Me senti suja, ordinária, repulsiva, bruxa.
Acreditei que a culpa era minha.

Chorei, porque lágrimas lavam os olhos
da podridão que acabaram de presenciar.
No caso, eu estava diante do espelho.
Acho que não mereço mesmo estar com alguém.
Mereço estar com ninguém.
Caibo apenas em mim.

Vivencio agora esse queimor visceral.
Parece que morro hoje.
Morrerei de alguma maneira.

E dói, dói tanto saber que não terei mais
A sua calorosa companhia
Nem sua língua libidinosa, por entre as minhas terminações nervosas.
Nem sua voz grave, me colocando no meu lugar de fêmea.
- Vadia!
E eu acho que já sabia,
Terminaria assim.

Dói ter perdido a guerra dos egos dominadores:
O meu e o seu.
Na verdade nós dois perdemos,
Nos perdemos de nós.

Foto by Pablo Rodrigues, no MAM da Bahia

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

BASTARIA SER

Me diz quem é você
Por trás do véu
Da dor e do prazer
Por trás do fel
Que entranha o poder
Me diz o que mais vem a ser

O que vai além da percepção
Daquilo que acredita real
Difícil é discernir a verdade
No que julga ser puramente mau

São máscaras sobrepostas
De várias cores e texturas
Elas pesam e, quando expostas,
Nos levam à beira da loucura

É o pensamento o que gera a ação?
Como não julgar no outro seus motivos e razões?
É a emoção o que gera a reação?
Como, então, sintonizar as boas vibrações?

Me diz quem sou eu
Por trás dessas palavras soltas
Que fazem o tempo passar em vão
Por trás dessa quase poesia em prosa
Que dá a falsa ideia de reflexão
Me diz o que eu venho a ser.

Se fosse real, esse ''eu'', esse ''você''...
Bastaria ser.
Mas não.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

LAMENTOS VAZIOS


Ai de mim
com essa vontade
de gritar pra o mundo ouvir...                
Eu não quero ser assim,
sempre pela metade,
fingindo felicidade,
com a mania de sorrir.

E volta e meia,
vou à lua,
namorando da janela,
brilha tanto e tão cheia,
Me convida a ficar nua
e me faz sentir mais bela.

Ai de mim
com essa loucura
de sentir no coração tanto querer...
Eu não quero ser assim,
mais ou menos insegura,
longe de mim tanta frescura,
tenho sede de viver.

E volta e meia,
vou à rua,
procurando emoção,
mas pela multidão permeia,
a minha e a sua,
intrínseca solidão.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

UM BRINDE AO CAOS


Brindamos à saúde, ao dinheiro, ao amor...
Paz, sucesso, felicidade... Ao noivos!!!
Brindamos toda a sorte de acontecimentos
e desejos banais...
Mas nunca brindamos ao caos.

Nossas mentes modulares, condicionadas ao
cartesianismo burocrático de elevadores e
escritórios, jamais nos permitem comemorar a desordem.

Nos tornamos ''adultos'' muito cedo,
somos chamados à uma responsabilidade enfadonha em tenra idade:
Precisamos ser alguém na vida!
Tudo tem que dar certo!
O que você quer ser quando crescer?

Demoramos meses para aprender a andar,
E quando já podemos controlar as nossas pernas,
Nos cansamos da retidão do caminhar.
O chão perdeu a graça, porque não há mais quedas.
A trilha já está traçada, não há nada mais a desbravar.
Nos perdemos no ir e vir dessa rotina compulsória.

Até que um dia, alguém resolve implantar o caos no seu cotidiano.
[Esse alguém pode estar dentro de você]
Ao invés de fazer sempre o que estava planejado,
burla o sistema, inventa outro itinerário
e você começa a perceber que, na verdade, nada está sob seu controle.

Para tomar consciência de algo, precisamos atingir um certo grau de loucura.
E é aí que o famigerado caos protagoniza a cena:
ele bagunça seu quarto, revira suas gavetas socadas de coisas obsoletas,
roupas que não entravam mais, dívidas antigas... Ele joga tudo para o ar.

Como em um concerto, você se vê no púlpito,
tentando reger a orquestra atonal do seu mundinho particular.
Mas parece que seus músicos não te obedecem e não estão querendo ler a partitura.
Você olha a balbúrdia ao seu redor: faz silêncio, mas há o murmurinho das coisas não ditas,
da sua ansiedade neurótica por organização e segurança psicológica.

Aí, você pega uma taça de vinho, se joga na cama com lençóis revirados e brinda!
Brinde ao caos, porque agora sua prioridade não é ver tudo arrumado.
E há uma certa beleza ensandecida no que beira o caótico.

Parece até que esquecemos como é prazeroso ter desafios.
Como era prazeroso, aos nossos 10 meses de idade tentarmos nos equilibrar em pé.
E como era gostoso, passar o tempo infinito de criança em férias inventando brincadeiras
que certamente nos colocariam de castigo.

A gente chega aos vinte e poucos anos com a convicção de que agora temos tudo em nossas mãos,
mas, por algum empecilho no meio da estrada,
nos desmotivamos e afogamos nosso espírito aventureiro na lama do pensamento medroso.
O pensamento medroso é aquele que não nos permite arriscar, não nos permite seguir sonhos ousados, apostar em metas altas. O pensamento medroso é medíocre e tem pavor da perda, do fracasso quantitativo e da crítica opinião alheia. O pensamento medroso nos faz assumir as piores características humanas: nos faz submissos e mesquinhos.

Por tudo isso, ratifico a minha sugestão, que brindemos ao caos; pois sem ele nossa vida seria um cotidiano cor-de-rosa-chiclete, com cheirinho tutti-fruti insuportável. Ou seria um corriqueiro domingo cinzento  com tempo nublado e pancadas de chuva.

Um brinde ao caos, com direito a ''tim tim'' e arroto ao término da garrafa!