sábado, 25 de janeiro de 2020

TRANSBORDANTE

Ela encontrou o que procurava.

No espelho d'água, sob o brilho do rei,

Nas águas doces, se banhava

Quando a percebi, me encantei!


Ela se admira, sem vaidade

Postura da realeza

Ganhou tesouros da maturidade

Sua magia e sua beleza.


Ela é toda feita de caudalosos rios:

Margens, meandros, nascentes e foz.

Lânguida, potente e serena...

Um corpo cheio de caminhos

Que gosta de fluir a sós.

Firme, ativa e plena.


É água, muita água
Enchente, transbordante
Encontrou, em si, a fonte
De uma vida abundante.


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Juras de amor próprio


Eu me declaro mulher.
Na alegria da Donzela
Na audácia da Feiticeira
Na saúde da Mãe
Na sapiência da Anciã.


Me declaro minha,
Em todas as fases desta vida.
E se for para estar comprometida,
Que seja leve a companhia 
Nesta caminhada.


Prometo me conhecer,
Me curar,
E me apaixonar
Todos os dias
Pela Vida

Até que a morte
Me encare.


Siomara - Morro de São Paulo, setembro 2019 _ Foto: Ibu Rufino

sexta-feira, 8 de março de 2019

SOU DESSAS

Minhas ferramentas
Aguardam serenas,
Para tempos de enfrentar tormentas.

Sou dessas: Mecânica
Que só aperta os parafusos
Quando a maré é titânica.

Minha dança
Aguarda em pés descalços,
Para tempos de desesperança.

Sou dessas: Cigana
Que só gira a saia,
Quando a mão lida engana.

Minha poesia
Aguarda paciente e discreta,
Para tempos de solidão e maresia.

Sou dessas: Poeta
Que só verte as palavras
Quando a dor aperta.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Moída

Fustigada, sinto a carne latejar.
Fui amassada, pressionada, manipulada:
Estou moída, estou cansada!

O músculo estressado,
Inundado em cortisol,
Tem espasmos e desiste:
Pesa o mundo em minhas costas.

O corpo quer descansar, quer desfalecer.
Mas é a mente que decide
prosseguir na lida.

E é por Amor, que a gente se coloca nessa,
é por algo maior.
Ademais, eu tenho fé na Vida.

Fecho os olhos de toneladas,
pareço deixar de existir.
Meus pés rachados, quase não sinto.
Respiro fundo do oceano escuro
E vejo a alma se desintegrar.

Então me lembro do som do meu nome
E da voz da minha filha
E da convocação para permanecer
E da consagração do sacerdócio
E da profecia ancestral
E das aves de verão
E das ondas do mar ...

E fico:
Fustigada, amassada, pressionada, manipulada, cansada.

Puta
Da vida.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Trecho do Memorial (mostra performática "Rizomas")

Tocha acesa. Chá de camomila. O Vestido branco da minha mãe. Banho de bacia. Abebé. Eu-Corpo. Reflexo. Vergonha. Auto-rejeição. Medo. Dores. Culpa. Grito. Lágrimas. Águas. “Onde está o seu poder, mulher?” Oxum convoca. O olhar polissêmico do público. “Onde está o seu poder?” Que corpo é este, que sabe gozar, que sabe criar, que sabe parir, que sabe nutrir, mas duvida dos seus saberes? Onde está o seu poder de se mostrar?
Me lavei diante de estranhos. Tirei o vestido e mostrei minhas formas excedentes, barriga, coxas, estrias, flacidez, celulite... Um corpo marcado pela obesidade. A gravidez também modificou este corpo. A vida faz isto com os corpos, erosão. Me olhei no espelho de Oxum e Ela me ama como sou... Ela me põe no colo quando eu choro. Ela vê beleza em mim. Ela me convoca a ver esta beleza também! E veio a culpa por ter sido tão dura comigo mesma por tantos anos, por não ter me amado o suficiente e por ter permitido que outras pessoas também me ferissem,  porque eu não me sentia merecedora de amor, de respeito, de cuidado. Autoestima baixa é um instrumento de autodestruição poderoso. E por muito tempo enfrentei crises depressivas por conta desse paradigma mental limitado, por achar que a beleza só se encontrava no padrão vendido pelo mercado.
Me lavei, me despi e me vesti com as cores da minha mãe Iansã. Naquele momento, eu já não sentia mais vergonha, nem medo, nem auto-rejeição. Ali, me entendi como corpo no mundo, como sujeito da minha história, me senti forte para enfrentar meus desafios, sem precisar da aprovação de ninguém: era eu comigo mesma. Atingi um estado de expansão de energia e percepção que só conseguia ter nos meus rituais com Ayahuasca. Eu não queria saber o que o público achou, eu não queria ouvir comentários, as críticas poderiam surgir, mas não poderiam tirar a importância do que foi aquele rito para mim! Foi como um batismo para minha vida artística, onde eu mesma fui a benzedeira.
Performance "Onde está o seu poder, mulher?"
Mostra Rizomas, Geodésica - UFBA. Em
 14 de dezembro de 2018.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

CAMINHANTE


De repente, parei.
Algo no meio da estrada
Forçou-me a parada,
Não pude mais andar.

Estática fiquei.
Algo além me convocava!
Não sabia o que procurava, 
Temia avançar em vão.

No meu caminho,
Tinha barro e asfalto
Tinha poças e buracos,
Rachaduras pelo chão.

Bem no meio, encruzilhada,
Tinha fome e sede 
Tinha morte e medo,
Devaneio e solidão.

De súbito, me dei conta.
Eu precisava continuar!
Ninguém mais podia trilhar
O caminho que era meu.

Percebi, quase inocente,
Que nenhuma lei existente 
- De gravidade ou governança -
Podia me coibir nessa andança.

Só uma implosão poderia 
Mover de volta meu corpo
Pois, enfim, reconhecia 
Com todo peso e desgosto,
Que a pedra era eu.


sábado, 8 de dezembro de 2018

Mãe Solo


É chão de terra batida mesmo,
Sob uma casinha de sapê

É campo arado, para o cultivo diário
Da cria que se cria sozinha

É planície árida, com rachaduras
E cactos em flor

É estrada de barro que se caminha
Com lata d'água na cabeça

Dá a vida
Se vira
Se doa
Dói

Pedregulhos
Precipícios
Latifúndio...

Limites
Barreiras
Fronteiras:
Mãe Solidão.

Eu e Sophia,  na minha aula de "Teatro, rito e performance", na UFBA