E assim
Sophia nasceu...
Na manhã
de 19 de abril, acordei com leves cólicas e comentei com minha
irmã-doula, Samara. Ela me tranquilizou, avisando que poderia ser
apenas o começo dos pródromos e que poderia levar dias ou até mais
uma semana. Tentei, então, relaxar. Cochilei e acordei antes do
meio-dia com uma cólica ainda mais forte. Senti que estava entrando
em trabalho de parto, mas não fiz alarme. Fui para a bola de
pilates, fiquei me movimentando para segurar as cólicas que vinham a
cada 20 ou 30 minutos.
As horas
foram passando e as cólicas foram ficando mais intensas. Naquela
noite eu não consegui dormir. As contrações vinham a cada 10
minutos, durando cerca de 40 segundos. Minha irmã-doula me ofereceu
a bolsa de água quente para aliviar. Bebi chá de camomila. Fiquei
em posição semi-deitada e, a cada contração, eu me contorcia,
tensionava outras partes do corpo, como forma de ''distribuir'' a
dor. Samara me ofereceu outras terapias - massagem, ficar de cócoras,
banho de água morna - mas eu só queria ficar ali naquela posição,
sem interferências: eu sabia que aquela dor teria um fim
maravilhoso!
Meu
companheiro, Renato, também esteve presente o tempo todo, o que me
tranquilizou emocionalmente e me deu mais forças para permanecer
firme na minha escolha. Amanheceu, 20 de abril, e as contrações
agora vinham a cada 8 minutos e a duração variava entre 30 segundos
até 1 minuto. Renato oferecia massagem, mas isso me irritava e dava
mais dor. Já não quis comer nada, tudo me enjoava. Bebi muita água.
As horas corriam, mas para mim era uma eternidade e a dúvida se
aquilo era trabalho de parto latente ou pródromos me deixava
apreensiva e na dúvida se eu conseguiria suportar dores mais fortes.
Às 16h,
eu já estava no ápice da dor e, a cada contração, eu dizia que
não ia aguentar, que não queria mais parir, que iria a um hospital,
que queria cesárea! Nesse momento, o papel da doula fez toda a
diferença: Samara me fazia refletir sobre o motivo da minha escolha
e a tranquilidade dela me dava mais força para continuar. Pedi para
ir à casa de parto, pois sentia que estava perto de Sophia nascer.
Nosso amigo Lalado gentilmente nos levou até o local. Durante o
percurso, as dores pareciam mais intensas, eu achava que desmaiaria a
qualquer momento. Mas segurei a onda - as ondas!
Chegando
na Mansão do Caminho, esperamos bastante na recepção para que eu
fosse examinada e tivesse resposta sobre o avanço do trabalho de
parto. Fui atendida por uma enfermeira obstetra de mesmo nome que eu.
Ela avaliou minhas contrações e julgou que eu não estaria em fase
ativa de TP, porque, segundo ela, a minha ''barriga não estava
ficando toda dura''. Ela não quis fazer exame de toque, para não me
causar mais dor e incômodo. Ela recomendou que eu voltasse para
casa, tomasse um banho e tentasse descansar. (Como??? Eu já tinha
passado a noite anteior em claro de tanta dor!!!) Minha irmã ainda
conversou comigo que eu deveria insistir que ela fizesse o toque,
porque as contrações não são necessariamente iguais em todas as
mulheres. Mas eu fiquei com medo de sentir mais dor e preferi confiar
na palavra da profissional.
Enfim,
voltamos para casa. Fui direto para minha cama, para tentar
descansar. Não quis comer nem beber nada. Estava exausta. Em
determinado momento, veio a próxima contração e uma vontade
incontrolável de empurrar, fazer força, me invadiu. E eu comecei a
empurrar. Eu gritava muito. Renato veio me auxiliar, me deu um pano
para morder, fechou toda a janela do quarto, tentou me deixar mais a
vontade. Eu sentia que Sophia estava querendo nascer naquele momento.
Outra contração e eu forcei mais: senti o tão falado círculo de
fogo! Sim, é de fato uma queimação! O colo estava totalmente
dilatado! Eu dizia ''Sophia vai nascer aqui!''. Samara, que tinha
saído com Lalado para comprar uma piscininha plástica para tentar
aliviar minha dor, quando chegou e verificou a situação me mandou
ficar de quatro apoios para eu segurar um pouco mais. Minha natureza
pedia para expulsar e Samara me trazia para a realidade, avisando que
o ambiente não tinha sido preparado para receber minha filha, que eu
precisava esperar. Eu estava na partolândia e dizia ''Sophia quer
nascer aqui e agora!''. Pedi um espelho para ver minha situação,
quando posicionei, pude ver que o colo estava todo dilatado e ela
estava ainda com a bolsa intacta.
Renato
chamou um taxi - a essa altura, chamar Lalado mais uma vez seria
muito desgastante para ele e não daria tempo. Para descer as escadas
sem permitir que minha filha nascesse ali foi o maior sacrifício!
Entrei no taxi e permaneci o percurso todo de 4 apoios - batendo a
cabeça na porta, a cada curva desesperada que o taxista dava!
(risos) - gritando e fazendo um esforço anti-fisiológico para
manter minha filha dentro de mim por mais algum tempo.
Chegando
à casa de parto, minha irmã procurou me posicionar de 4 apoios na
recepção e logo a funcionária conseguiu me alojar no consultório
de admissão onde eu tinha sido examinada mais cedo. Não havia
quartos disponíveis, pois a casa estava lotada. Mas eu não me
importei. Eu só queria colocar Sophia no mundo e cuidar dela com o
mínimo de intervenções médicas possível!
Deitei na
maca, coloquei o pano na boca, segurei as mãos de Renato e deixei
fluir. Siomara, a enfermeira obstetra que tinha me avaliado mais
cedo, me chamou de sortuda porque ela jurava que nunca viu uma mulher
com contrações ''não eficazes'' evoluir para parto ativo tão
rápido. Em 8 minutos na posição semi-deitada sobre a maca, veio a
primeira contração e eu forcei. Na segunda, a cabeça de Sophia
saiu e logo em seguida o corpinho! Simples assim!!! Foi a sensação
mais extasiante da minha vida! Foi o ápice de toda a felicidade que
eu já tinha experienciado antes. A obstetriz apenas limpou o excesso
de vernix da minha menina e a colocou de imediato sobre meu abdomen.
Eu entrei em estado de euforia ao olhar minha cria pela primeira vez:
chorei, sorri, agradeci, gritei... Quis trazê-la para meu peito, mas
a placenta ainda não tinha saído e nós deixamos o cordão
umbilical parar de pulsar para poder cortar. O pai dela teve a
oportunidade de cortar o cordão.
Quando eu
quis amamentar logo em seguida, fui alertada pela obstetriz de que eu
não poderia amamentar antes de fazer o exame de sorologia. Eu
questionei, pois já tinha feito todos os exames há menos de 1 mês
e ela tinha verificado. Então ouvi a primeira menção da palavra
''protocolo do Ministério da Saúde''. Uma auxiliar veio, portanto,
coletar meu sangue para fazer análise imediata. Outra auxiliar veio
com um frasco de iodo povidona e uma seringa com vitamina k para
aplicar em Sophia, sem ao menos me dizer o que era aquilo. Eu
contestei, disse que não queria aqueles procedimentos, que não
tinha sido avisada sobre a obrigatoriedade dessas intervenções
naquela instituição, que eu tinha feito um plano de parto e essas
decisões já tinham sido estudadas por mim, pelo pai e pela doula. A
auxiliar não gostou do meu comportamento. Veio outra e pegou meu
braço, perguntei o que era aquilo e ela explicou que era para evitar
hemorragia em mim. Aplicou e pronto. Deixei, né!
Naquela
hora, essas abordagens que tornam a parturiente um objeto passivo não
me incomodaram tanto, porque eu ainda estava sob efeito do coquetel
de hormônios natural, que o meu corpo teve a oportunidade de
produzir, pois eu dei o tempo que ele precisava para isso... Era
tanta ocitocina e endorfina, tanto amor pela minha pequena Sophia...
Pediram para pegá-la, depois de alguns minutos no meu braço, para
medir, pesar e outros ''protocolos''. Só deixei e confiei porque
Renato estava junto e Samara também estava por lá.
Desci
sozinha da maca, com ajuda da enfermeira, minha xará. Fui levada a
um quarto onde já havia uma puérpera com seu RN. A casa estava
cheia e eu precisava dividir quarto. Tomei banho sozinha, já me
sentia 100%. As dores simplesmente desapareceram totalmente, senti
novamente a facilidade de me movimentar sem a barriga. Estava em
êxtase e queria mais do que tudo terminar o banho e pegar minha
filha no colo. E quando segurei Sophia novamente, fui inundada mais
uma vez por uma tsunami de Amor!
Mais
tarde, uma outra obstetriz veio conversar comigo e Renato sobre a
aplicação da vitamina K e do colírio em Sophia. Nós protestamos
porque a vitamina K tem a possibilidade de ser administrada via oral,
sem precisar furar o corpinho do bebê, já cansado do parto. E o
colírio só é necessário em casos onde a mãe tem alguma doença
que possa ter infectado a visão do bebê, o que não é meu caso.
Tive o cuidado de fazer TODOS os exames possíveis durante meu
pré-natal e no último mês da gestação, justamente para evitar
qualquer sofrimento à minha filha. Mas ela explicou que ali era uma
instituição que trabalha em parceria com o SUS e, portanto, deve
seguir alguns ''protocolos'' do Ministério da Saúde. Ela conversou
com muita paciência e disse ainda que eu e Sophia não teríamos
alta, e pior, eu poderia ser processada por negar um ''direito do
bebê'' - algo que é extremamente contestável! Enfim, disse que ela
mesma poderia responder judicialmente se algo acontecesse com minha
filha, devido à omissão dela enquanto profissional. Acabei cedendo
a tanta pressão psicológica e vi minha filha ser furada - sem
necessidade - e dar o primeiro choro de dor da vida dela. Depois vi
minha filha ter os olhinhos inundados de iodo povidona - sem
necessidade - e ficar sem poder enxergar direito.
Quando eu
penso que poderia ter parido em casa, sinto uma pontinha de
arrependimento por não ter me organizado e corrido atrás disso.
Seria uma opção dispendiosa, em torno de 6 a 8 mil reais - o mesmo
preço médio de uma cesárea - mas certamente seria muito mais
tranquilo e prazeroso, sem violência e desconforto algum. Eu já
tinha passado 33 horas de trabalho de parto todo em casa, na
companhia de Renato e Samara, usando apenas métodos naturais de
alívio da dor. Senti a fase ativa, o ''círculo de fogo'', no
conforto e na privacidade da minha cama. Se o ambiente estivesse
preparado, eu pariria lindamente em casa.
Não vou
relatar o período de avaliação – mais de 24 h - que passei na
casa de parto, pois não quero comprar briga, nem parecer ingrata. Eu
agradeço a Deus, por ter permitido que tudo fluisse sem
intercorrência alguma, e à equipe que procurou me atender da melhor
maneira que pode. Fui bem acolhida, percebi a dedicação das
funcionárias em improvisar uma cama para mim, e arranjar algum
assento para meu acompanhante. A equipe da Mansão é muito atenciosa
e trabalha por amor ao serviço, apesar de ainda faltar só um pouco
mais de trato para se chamar verdadeiramente de assistência
humanizada: avisar à paciente sobre os procedimentos que serão
administrados nela e no bebê, e perguntar se ela permite, seria um
bom começo. E como obedecem aos ''protocolos do Ministério da
Saúde'', elas deveriam ter me avisado sobre isso no dia em que fui
fazer análise de perfil, quando estava com 37 semanas.
Concluindo,
a casa de parto da Mansão do Caminho é a única em Salvador com
essa possibilidade de respeito à fisiologia do parto, mas parece que
o Ministério da Saúde impõe algumas práticas que devem ser
discutidas. Me assusta como o ''sistema'' se apodera do corpo do RN,
impõe direitos e deveres e não aceita contestação. Nós, pessoas
humanas, mulheres e homens, mães e pais, não temos real liberdade
de escolher como queremos parir, como queremos que nosso bebê seja
tratado ao nascer. E, ao contestar os ''protocolos'' - que em sua
maioria não são baseados em evidências - somos chamadas loucas,
somos ameaçadas de perder a guarda do ser que botamos no mundo com
tanta dor e tanto amor, somos pressionadas a seguir as ordens
''supremas'', como bois e vacas de abate.
Mas,
apesar de tudo ter acontecido como eu NÃO PLANEJEI, agradeço à
misericórdia divina por tudo ter acontecido na força do amor: Não
tive laceração nem sofri episiotomia, portanto não levei ponto
algum; não sofri manobras absurdas e retrógradas para acelerar a
saída da minha filha; não fui obrigada a receber hormônio
sintético para acelerar as contrações; não fui mandada calar a
boca; pude gritar – apesar de ter preferido usar o pano na boca;
pude escolher a posição que quis – e pasmem, quis ficar na maca
mesmo; pude ter a companhia de duas pessoas de minha total confiança
o tempo todo; meu bebê teve seu estoque de ferro assegurado pelo
clampeamento tardio do cordão umbilical; minha bebê não foi lavada
por ninguém, não foi aspirada nem sondada; fui bem acolhida e
assistida, apesar das imperfeições meramente humanas e
institucionais já pontuadas. Enfim, estamos bem e saudáveis. Eu
agradeço.