sexta-feira, 31 de julho de 2015

NOTAS DELA SOBRE ELA MESMA

Mulher.
Gorda.
Preta.
Cabelo crespo.
Pele marcada.
Boca carnuda.
Sorriso largo.

Maravilhosa.
Graciosa.
Poderosa.
Caráter íntegro.
Plena de si.
Boa de papo.
Suave companhia.

E tudo o mais que for dito sobre ela
Será considerado apenas mais um aspecto desse caleidoscópio.
Tudo o que for sobre ela, ''positivo ou negativo'',
Será tambem sobre todas as outras.

Ela é célula-tronco.
Ela é parte de um todo
que contem o todo em sua parte mais íntima.
Ela é caco de azulejo do mosaico feminino universal.

terça-feira, 28 de julho de 2015

A ESTRANHA

Eles querem que eu me encaixe
E não me ache
Não me ache mesmo,
Por que tenho que procurar
meu lugar...
Mas que lugar é esse
que eles insistem me colocar?

Eles querem que eu me enquadre
E me cale
Me cale mesmo,
Por que ''quem sou eu
para falar''?
Apenas alguém incomodada
e, a essas pessoas, eles mandam se mudar!

Eu só espero que não me desprezem
Nem menosprezem o meu gritar.
Porque estou aqui com vocês
E faço parte dessa farsa
chamada sociedade.

Eu só espero que não me internem
Nem tentem me silenciar.
Porque se escrevo, quero ser lida
E à essa altura,
nem faço questão de ser linda
Só quero te tocar.

Com lágrimas em versos
Com sorrisos em estrofes
Sou ''a estranha'' forma humana
Que passa invisível
Quando há multidão.

Com alfinetadas em palavras
Com afagos em oração
Sou a preterida dos amantes
''A estranha'' forma humana
Que vive na solidão.

SESTA

Deitei à tarde,
Para descansar.
Não era para dormir,
Mas nem percebi.
Quando acordei,
Já havia escuridão.

Deitei à tarde,
Para sonhar.
Não era para dormir,
Mas não evitei.
Tive pesadelos.
No susto, levantei de supetão.

Dei um tempo
Só para mim
Para sedimentar ruídos mentais
Que foram chacoalhados por ervas medicinais.

Dei um tempo
Só para tudo
Para organizar a desordem do eu
Que ficou mais caótica do que há alguns segundos.

Sonhei penhascos,
Quando havia abismo aqui dentro.
Me joguei
Despenquei
Cai.

Quis amar o mundo,
Quando havia carência de afeto aqui perto
Me olhei no espelho
Chorei
Sorri.

Procurei nos outros a mesma chave
que os outros procuram em outros outros, em mim...
Procuramos, todos juntos, fora
A chave que nem existe:
Foi inventada para distrair.

Deitei extasiada em gozo.
Me cobri de leveza e um pouco de culpa.
Por que tanto barulho lá fora?
Por que tanto sussurro aqui dentro?

Quis apagar dessa realidade estranha
E me libertar da prisão
cuja carcereira,
cela, cadeado
e hierarquia
são todas Eu.

Acordei amassada em mais ilusões e fantasias.
Continuo de olhos abertos, no meu reflexo de letargia
Em que se dorme acordada no rufar dos medos
e se acorda dormente no tilintar dos desejos.

Abri os olhos,
Lua cheia.
Sinto frio
e ainda sono.
Boa noite.