sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Desvendar-me ou desvender-me

Crenças odiosas sobre estética
Vendaram meus olhos
Diante do espelho:
Não quis me ver
Não me quis bem
 Só me quis mal
Me quis outra.

Era uma barriga caída
Seios murchos e flácidos
Celulite e estrias por todo lado
Difícil querer enxergar
Um corpo torto,
Um corpo estranho,
Quase um corpo queer!

Foram 30
Os anos que passaram
De olhos vendados para mim,
Fugindo da autoimagem criada
Por um conjunto de discursos
Do que é belo e do que sou eu.

Um espelho em cada cômodo,
Para garantir o incômodo
E me manter aprisionada
Na fissura pela capa,
Escrava do que acham - acho - de mim.

De súbito, mas não tão de repente,
Em uma obra de desconstrução
Processual e onipotente,
Desatei o nó
Do meu auto-desamor.
Desvendei-me perante a mim
Despi-me totalmente.
Foram alguns segundos de ojeriza
E outros tantos de surpresa descoberta
- Prazer, essa sou é você.

Crenças odiosas são rentáveis
E são fáceis, convincentes
Levo os dedos treinados e ágeis
Para desvendar agora e sempre
Cada crençazinha que apareça
Na tentativa de me furtar novamente
A estima por mim mesma.




quarta-feira, 6 de setembro de 2017

CICLO ELEMENTAL

Eu sou aquela que desagua
Em sangue, a cada lua
Em leite, a cada cria
Em gozo, a cada ato

Sou correnteza
Que só segue
Se desvia 
mas não para
Nem se prende
Fluida...
Quase como ar.

Eu sou aquela que sopra
Intuição, a cada noite
Inspiração, a cada dia

Sou ventania
Que promove
Des-ordem
Mobiliza 
Mudanças 
Quase como fogo.

Eu sou aquela que arde
Em lutas, a cada injustiça
Em risos, a cada conquista

Sou fogareiro
Que invade
E transmuta 
Trago a Fênix 
Forte.
Quase como a terra.


Eu sou aquela que sustenta
Nos braços, adultos e crianças
Nos ombros, a dor do mundo
Nos pés, minhas próprias andanças


Sou barro e pedra
Lama e pó 
Que gera, abriga
Nutre e
Protege.
Fundamental,
Quase como água. 



(Poema composto para a performance "Desvendar", de Dança do Ventre,  na Escola de Dança da UFBA,  em agosto de 2017)