domingo, 8 de março de 2015

ENGENDRANDO UMA MULHER


Se formou no ventre materno,
Na água pura de amor e proteção.
Ao invés de uma protuberância,
Uma depressão por entre as pernas.

Uma menina!
Sempre cercada de mimos,
Constantemente orientada a se afastar
Das mazelas humanas.
Fora criada numa redoma.

Não brinque com meninos.
Não toque aí.
Não sente de perna aberta.
Não, não pode tirar a blusa.
Pare se tocar aí, já falei.

Menarca.
Pelos.
Seios.
Cólicas.
Acne.
Celulite.
Estrias.
Cabelos alisados.
Autoestima lá em baixo,
na lama.
E a sensação de ser insuficiente,
Inútil,
Incompetente no papel de ser mulher.
E a sensação de não-ser...
E a sensação de não pertencer a si mesma.

A TV sempre apelando para os sentidos:
as mulheres mais sensuais, conquistavam muitos homens
e sempre conseguiam tudo o que queriam.

As mulheres mais felizes e amadas eram
todas iguais - ''perfeitas'', ''puras''
Subservientes, escravas-isauras
Que se pensavam soberanas em seus
impérios de auto-vassalagem.

Nas revistas, corpos esculpidos
por um Deus excêntrico e esquizofrênico
que só despeja a beleza em poucas
e raras criaturas humanas.

Então, que mulher não quer ser
como aquelas da revista ou da TV?
Aparentemente tão plenas, satisfeitas
e solenes...

E a mulher vai sendo condicionada
a viver em conflito consigo mesma,
se odiando por suas ''falhas'' naturais
Por suas dobras, por seus odores,
Por suas texturas, por suas formas.

Vai sendo induzida a compactuar
com esse sistema roto e
A manter tudo como está:
Quem você pensa que é, mulher?
Coloque-se no seu lugar!

Até que em um lapso,
Um estalo vem à cuca.
E o desconforto desse lugar
de fêmea, paradigmático e estanque
Provoca a força imensurável
que vai alavancar a mudança.

Se ela decide seguir seus instintos
e suas intuições,
é taxada louca, vil, puta!
Vaca profana,
Vadia!
Bruxa!

Mas ela ri, absoluta de si
E, de mãos dadas com tantas outras irmãs
Tão putas quanto santas,
Segue sua caminhada em prol do seu direito
de ser o que quiser.
Ela não odeia os homens nem quer ser homem.

Ela é estrada,
e traz em seu corpo um cálice de vinho,
um baú de tesouros,
um abismo profundo.

Ela é livre para ser o for
ela é livre para ser além
Mas ela se tornou mulher.

Siomara Coelho - MAM - BA. Foto por Pablo Rodrigues.






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