Corpo estendido, estampado no jornal
Mas que ironia, que desventura!
Virou notícia na página policial
Foi baleada, presa à viatura,
Atropelada, arrastada pelo chão
Mas por ser negra, pobre e leiga
A TV não lhe deu a devida atenção!
Viveu a vida só de labuta,
Limpando as sujeiras da desigualdade social.
''Trabalho digno'' - é o que eles dizem-
Pra mim, Dignidade representa muito mais!
A cartomante lhe alertara
Que a sua vida em breve iria mudar
E uma viagem para bem longe
Seria feita e a faria brilhar:
[Aconteceu com Macabéa
Nordestina ''invisível'',
inseminada de esperança,
grávida de futuro,
atropelada pelo Poder.
Com a Cláudia foi diferente
Roubaram-lhe a vida,
mandaram-na para longe,
sem ser avisada previamente.
Logo ela, que tinha vidas para alimentar,
Caiu ao solo atingida pelos tiros,
Enquanto andava pela rua
com o dinheiro do pão.]
Ela é brasileira, virou estrela
de um jeito fatal e desumano
Melhor seria não ter ido à cartomante
e continuar sustentando as mentiras
desse sistema capital.
Sua estreia teve repercussão
Apontou a bestialidade e o caos
em que está nossa sociedade.
Está ali, virou estrela.
Mas nesse plano ela não brilha mais.
- Siomara Coelho
(Meus sentimentos à família da senhora Cláudia Silva Ferreira e a todas as vítimas da violência urbana.)

