terça-feira, 31 de março de 2015

OBSCENA


Observe a cena:
Uma mulher de vestido vermelho, tão longo que se arrasta no chão.
Cabelos crespos ao vento, tal cauda de pavão.
Lábios carnudos, pintados de vermelho paixão.
Passa normalmente perto dele, balançando as cadeiras, como uma miração.
Ele tenta mexer com ela - assovia, fala qualquer nojeira, acha que sabe elogiar -
E ouve um claro e veemente ''NÃO!''
Não obstante, ele acredita que precisa tentar mais uma vez.
Ela olha fundo em seus olhos e, com a maior imponência diz:
- Desgraça, NÃO É NÃO!
Ele perde a razão.
''Como umazinha dessa ousa me responder com tanta indignação?''
- SUA OBSCENA!
Ele retruca, completando a sequência com ''vaca, vadia e puta''.


domingo, 29 de março de 2015

A GENTE PRECISA DAR MAIS


Gente chata precisa DAR mais!
DAR mais risadas,
DAR mais abraços,
DAR mais liberdade aos seus movimentos
E dançar colando o corpo com o mundo.

Gente imbecil precisa DAR muito mais!
DAR mais tempo a si mesma,
DAR mais olhadas no espelho,
DAR mais atenção à sua própria confusão mental
E observar os julgamentos que faz da vida alheia.

Gente arrogante precisa DAR cem vezes mais!
DAR mais respiradas antes de falar o que pensa.
DAR mais humildade aos seus discursos autocentrados.
DAR mais autonomia para a voz de quem está ao lado,
E ouvir verdadeiramente o que ecoa de outros universos.

A gente precisa dar mais...
Porque dar é ato solidário.
Porque dar implica troca,
Por mais que a gente não espere retorno,
O cosmos devolve tudo na mesma frequência.

A gente precisa dar mais...
Para sair da própria solidão.
Para se religar ao Todo sem precisar de religião.
E perceber que quando damos algo de nós,
e o outro lado o recebe com empatia,
Nos perpetuamos.


segunda-feira, 9 de março de 2015

ANDA, MUDA, DANÇA!

Minhas andanças                                            
Não sei ao certo
Por onde vão

Minhas mudanças
Não sei até quando
Permanecerão

Minhas danças
Não sei deveras
Se encantarão

Mas a vem a vida,
Em sua presença inexorável
de cada inspiração ofegante,
Me empurra ao precipício
E diz:

Anda, sua louca!
Não perde tempo com besteira pouca.
Abre a boca e leva ao ventre
A delícia de viver solta.

Muda, sua puta!
Deixa livre o seu sexo, me escuta.
Dá ao corpo o que é dele por direito
Depois de tantas lidas e labuta.

Dança, minha criança!
Pula de alegria, gira de esperança.
Fluindo, como água corrente
Desata os nós em nós, se balança!





domingo, 8 de março de 2015

ENGENDRANDO UMA MULHER


Se formou no ventre materno,
Na água pura de amor e proteção.
Ao invés de uma protuberância,
Uma depressão por entre as pernas.

Uma menina!
Sempre cercada de mimos,
Constantemente orientada a se afastar
Das mazelas humanas.
Fora criada numa redoma.

Não brinque com meninos.
Não toque aí.
Não sente de perna aberta.
Não, não pode tirar a blusa.
Pare se tocar aí, já falei.

Menarca.
Pelos.
Seios.
Cólicas.
Acne.
Celulite.
Estrias.
Cabelos alisados.
Autoestima lá em baixo,
na lama.
E a sensação de ser insuficiente,
Inútil,
Incompetente no papel de ser mulher.
E a sensação de não-ser...
E a sensação de não pertencer a si mesma.

A TV sempre apelando para os sentidos:
as mulheres mais sensuais, conquistavam muitos homens
e sempre conseguiam tudo o que queriam.

As mulheres mais felizes e amadas eram
todas iguais - ''perfeitas'', ''puras''
Subservientes, escravas-isauras
Que se pensavam soberanas em seus
impérios de auto-vassalagem.

Nas revistas, corpos esculpidos
por um Deus excêntrico e esquizofrênico
que só despeja a beleza em poucas
e raras criaturas humanas.

Então, que mulher não quer ser
como aquelas da revista ou da TV?
Aparentemente tão plenas, satisfeitas
e solenes...

E a mulher vai sendo condicionada
a viver em conflito consigo mesma,
se odiando por suas ''falhas'' naturais
Por suas dobras, por seus odores,
Por suas texturas, por suas formas.

Vai sendo induzida a compactuar
com esse sistema roto e
A manter tudo como está:
Quem você pensa que é, mulher?
Coloque-se no seu lugar!

Até que em um lapso,
Um estalo vem à cuca.
E o desconforto desse lugar
de fêmea, paradigmático e estanque
Provoca a força imensurável
que vai alavancar a mudança.

Se ela decide seguir seus instintos
e suas intuições,
é taxada louca, vil, puta!
Vaca profana,
Vadia!
Bruxa!

Mas ela ri, absoluta de si
E, de mãos dadas com tantas outras irmãs
Tão putas quanto santas,
Segue sua caminhada em prol do seu direito
de ser o que quiser.
Ela não odeia os homens nem quer ser homem.

Ela é estrada,
e traz em seu corpo um cálice de vinho,
um baú de tesouros,
um abismo profundo.

Ela é livre para ser o for
ela é livre para ser além
Mas ela se tornou mulher.

Siomara Coelho - MAM - BA. Foto por Pablo Rodrigues.






sábado, 7 de março de 2015

DONA DE MIM

Mainha e painho sempre foram muito libertadores:
- Filha, nada importa mais do que sua independência.
Eles se preocuparam em me preparar para não precisar dos homens
Para não precisar do mundo, para não precisar de ninguém.

E fui crescendo, um tanto egoísta e individualista,
Me isolando em meu mundo paralelo de segurança psicológica.
Demorei um tanto para me desprender desses hábitos eremitas.
Precisei de intervenções terapêuticas para aprender a ''me jogar na vida''.

Hoje me considero dona de mim.
Ainda guardo os conselhos dos meus pais,
pois eles, mais do que eu mesma até,
só querem o meu bem!
Mas sou dona das minhas escolhas,
dos meus movimentos,
dos meus desejos,
do meu corpo.

E vivo o que pede o exato momento do agora,
Sem o crivo pesado do medo
sobre o que ''os outros vão pensar''.

Entretanto, faço parte de uma comunidade,
onde uma ação isolada repercute em todos
e não passa despercebida.
E por ser tão desapegada aos conceitos tradicionais,
começo a me sentir pressionada e perseguida.

Mas esse sentimento não me tortura ou boicota.
Pelo contrário, ele me convida
a ousar um pouco mais e sair cada vez mais da
caixa estabelecida.

Vou transitando, andante libertária
Não pretendo possuir nada além das minhas asas intactas.
Vou andando, transante imaginária
Não domino qualquer forma de vida que passa em meu jardim.
Tudo o que tenho é meu verso.
Sei apenas que sou dona de mim.
Siomara Coelho - Praia de Buracão - Rio Vermelho, Salvador - BA. Foto por Renato Costa.


domingo, 1 de março de 2015

BAIXOU A TERPSÍCORE

Rodopiei,
A diante, andei...
Rodopiando
Rodipiante, suei!

Foi que ouvi um som
Que em meu corpo repercutiu
Em forma de ondas.
Virei oceano vasto e voluptuoso.
Fiz quebrar maré na praia,
Fiz esparramar espuma na rocha.

- Baixou a Terpsícore! -
A musa grega que se deleita na dança -
Disse um andarilho quase intelectual.

Girei, ondulei, me balancei...
Frenesi.
- Tô mais pra Pomba Gira, Padilha. -
Retruquei com desprezo.
Não me enche assim de orgulho uma entidade estrangeira...
Mas com a pulga atrás da orelha,
Fui procurar saber como essa criatura de nome esquisito se comporta.

É gorda - uma afronta aos padrões estéticos contemporâneos - ponto para ela.
Toca uma lira -  me atinge muito mais um atabaque ou um timbau. - ponto para a Gira.

Estão empatadas as personagens que disputam um lugar na minha performance.
Talvez eu não precise dar nome aos bois.
Nesse caso, às vacas.
E sendo fêmeas, são tão sagradas quanto colo de mãe
e tão profanas quanto o chamado das esquinas.
Eu as invoco, porque aquilo que não sabemos
Alguém vem e nos ensina.

Eu continuo rodopiando...
Rodo um pouco,
Pio um vinho,
Ando um caminho.

Chego a flutar,
Fazendo a música delirante
Retumbar mais lancinante
Nos pés, no ventre, no ar.

QUE BELEZA!

Gorda,
Preta,
Cabelo enrolado
Olhos escuros
Nariz redondo
Lábios grossos
Sorriso largo.
Linda,linda,
linda, sim!

Ela está à margem do que tange a mídia
E as margens balizam o rio.
Por entre elas, o fluxo faz seu caminho.

Ela está fora do que determina o padrão
E fora condicionada a se achar feia,
porém, marginal, ela disse 'não'!

E como ela, tantas outras,
Mulheres escravizadas
por uma lavagem cerebral crônica
de mídias e mentes humanas torpes
Que fazem de tudo para não vê-las
jamais bem
Nunca!

E quem ganha com isso? Quem?
Deixa a resposta ser reticente...

Ela simplesmente quebrou a corrente,
Rompeu o círculo vicioso de baixa autoestima
E cansou de tentar agradar a essa gente
Que não sabe respeitar a alteridade.


Ela apenas soltou suas madeixas,
Deu uma banana para as várias queixas,
Olhou-se no espelho, ergueu a cabeça
E disse para si mesma:
- Que beleza!