quinta-feira, 27 de outubro de 2016

UMA MULHER FRAGMENTADA: POSSO FALAR SOBRE O MEU PUERPÉRIO?

Eu pari lindamente: sem intervenções médicas, sem complicações, muito coquetel do amor natural produzido pelo meu organismo. Minha filha é saudável, linda, maravilhosa, tenho apoio incondicional dos meus pais (e da minha mãe, então!!!)... Tudo lindo, né!

Calma, jovem, o puerpério não se trata apenas das coisas externas. 
Existe uma mulher que morreu para todas as múltiplas possibilidades que uma vida sem filhos apresenta; uma mulher que nasceu para o amor supremo e infinito pelo pequeno ser que colocou no mundo; uma mulher que se sente muito solitária em suas madrugadas de amamentação, principalmente quando o companheiro não é tão presente... Existe uma mulher fragmentada! Meu puerpério tem sido uma verdadeira montanha russa e eu acredito estar perto do fim desse ciclo louco agora!

Meus primeiros dias como mãe foram um misto de euforia, explosão absoluta de amor, fadiga física e emocional, êxtase e paixão pela minha filha. Com 1 mês, eu e meu companheiro descobrimos que ele seria pai novamente esse ano, fruto de um ato desesperado de uma outra companheira dele, enfim...
Imagine como ficou a minha cabeça quando soube que o pai dedicado, sempre presente e participativo, agora teria um outro bebê para cuidar e que a minha filha ficaria em algum momento desassistida. Eu entrei em desespero, mas calada. Não queria deixá-lo mais desesperado do que ficou, afinal ele havia se prevenido para evitar  uma nova criança. Mas as forças do universo quiseram que esse novo ser encarnasse, então minha filha ganhou esse ano uma meia-irmã. Depois dessa notícia, passei a me sentir muito mais insegura do que já estava: medo de dar conta da criação, do suporte financeiro, de tudo sozinha... Medo de nunca mais poder fazer as coisas que eu estava planejando para minha vida profissional e acadêmica... Medo de não poder ter uma vida normal NUNCA MAIS.
Sério, o ''nunca mais'' passa muito na cabeça da mulher no puerpério imediato. E só agora, passados 6 meses, posso ver que TUDO PASSA, e que o bebê cresce, mas junto com isso vem uma mulher fragmentada, descuidada consigo mesma e precisando de ajuda, sim!

Pois então, me deixei engordar absurdamente! Estava confinada em casa, com medo de sair com minha bebezinha, com vergonha do meu corpo e da minha cara de zumbi... Pronto, sedentária, comendo tudo o que não deveria (muito carboidrato vazio, muito leite, quase nenhum alimento saudável), ansiosa, insegura, quase depressiva...  Cheguei aos 102kg. Fiz a proesa de engordar mais do que tinha ganhado na gestação. 

Ao final dos 3 meses, eu já me sentia mais animada com a rotina, mais adaptada com a nova realidade. Gente, não dormir a noite inteira mexe com o psicológico, o emocional, mexe com tudo no ser humano... Eu não tive mais nenhuma noite inteira de sono desde o trabalho de parto... São 6 meses tendo ciclos de sono de no máximo 4 horas.

A partir do 4° mês, comecei a controlar a compulsão alimentar, mas ainda não conseguia fazer dieta restritiva nem substituir alguns alimentos: comer era o meu único prazer! Fui buscando conversar com outras mães, procurei ler muitos blogs falando sobre o puerpério, visitei fóruns de mães do mesmo período que eu... Vi que não estou sozinha nesse universo intenso, profundo e tão pouco falado. O que frustra muitas mães é o fato de ninguém nunca ter dito que era assim de fato. A gente espera que nosso bebê seja igual ao da novela da tv, que quase não chora, que fica tranquilíssimo no carrinho o tempo todo, que deixa a mãe fazer mil coisas e ser feliz para sempre. NÃO É ASSIM, jovem! Bebês EXIGEM colo, afinal, são ''bebês de colo''. Bebês demandam muitos mais cuidados do que imaginamos quando não convivemos com um.

Minha irmã pariu, quando Sophia estava com 5 meses. Então agora são duas puérperas e duas bebezinhas na mesma residência. É gostoso, mas é bem puxado! Uma dá suporte a outra, uma ouve e compreende as dores da outra. E assim vamos seguindo o fluxo natural da vida.

Agora, aos 6 meses de Sophia, ainda me sinto fragmentada - acho que serei, daqui para frente, um eterno mosaico - mas já estou cuidando melhor da minha saúde, da minha alimentação, estou me exercitando em casa mesmo, estou com mais disposição para enfrentar todos os reveses que vem surgindo nessa dinâmica louca da minha vida pessoal. Estou vivendo um dia de cada vez, sem muitos planos para o futuuuuuuuro distante. Prefiro planejar o que farei apenas no dia seguinte e assim me sinto menos frustrada. Ontem mesmo conseguimos passear pela primeira vez! Digo passear mesmo, sair sem obrigações (mercado, pediatra, visitar meus pais), apenas para curtir a tarde tranquilamente. E foi maravilhoso, exceto pela crise de choro que Sophia teve na volta para casa. Acho que ela fica apavorada com o movimento do carro.

O lado lindo, florido, encantado, é perceber que todo meu ''sacro ofício'' está valendo a pena. Quando vejo meu bebê acordar sempre sorrindo, se desenvolvendo bem, brincalhona, agradeço às forças que regem o cosmos por eu ser parte da vida dessa menina tão apaixonante. Dou tudo de mim a ela e continuarei dando, porque é assim que escolho viver a minha maternidade. Mas essa escolha tem um preço: atrasar minhas realizações pessoais.

Sei que minha filha vai crescer, está crescendo, né! Vai se tornar independente e, algum dia, vai pegar sua mochila e dizer ''tchau, mãe, vou ali ver o mundo!''.
E eu estarei disposta a apoiá-la em todas as suas decisões.

Esse é um breve e resumidíssimo relato do meu puerpério - este que ainda não acabou! 
Acho que enquanto Sophia mamar, me sentirei uma mulher-mosaico-mutante dando voltas na montanha russa. (risos)

Eu e Sophia, numa praça de Salvador, em 26 de outubro de 2016.