Eis uma mulher livro aberto.
E apesar de poder ser lida
Sem maiores esforços,
Há meandros profundos
Nas suas entrelinhas.
Há marcas de rabiscos,
Há rastros de esboços.
Traz hipérboles
Disfarçadas de eufemismos
Traz verdades
Disfarçadas de metáforas
Uma mulher livro livre
E apesar de ser sempre passional,
Não depende da existência de um romance
Para se realizar: satisfazer-se.
Se em uma página chora uma paixão
Não correspondida,
Em outra, mais à frente, celebrará a solidão
De um coito autoral: gozar-se e dormir-se.
A mulher livro sabe que pode ser.
A mulher livre é.
A mulher livro livre pode ser e é.
A mulher livre ama e é amada
Porque ela atrai reciprocidade
E não deseja essas instituições sociais
Criadas para aprisionar o corpo fêmea.
Sua protagonista
Não quer namorar.
Tampouco, casar.
Quer jogar seu corpo no mundo,
Seguindo apenas a lei natural dos encontros.
A mulher livro escolhe quem a lê.
Se abre, qual falésia, quando encontra
A leitura esmerada de uma alma interessante.
Sua protagonista
Não guarda segredos.
Tampouco, afetos.
Transborda-lhes:
Linhas obscenas, eufóricas.
Eis a mulher livro livre do século presente.
Um exemplar raro
Que se encontra em qualquer esquina.
Ela é ordinária!
Ou metafísica? surreal...