quinta-feira, 22 de junho de 2017

GORDA FEIA

Gorda feia!
Dizia sempre que me via,
Quando eu brincava na rua,
Todo dia.
Não podia me ver sorrir...

Gorda feia!
E eu já sabia que era gorda.
Mas feia, não entendia...
Para ser bela, deveria
Ser toda como Paquita:
Corpo, cabelo, cara, cor...

Gorda feia!
Repetia
Ecoava
Doía
Incutia na minha criança,
Minha pequena Siomara,
A ingênua e descabida
Vontade de ser outra
De não ser aquela
De não ser ela
De não ser eu.

Gorda feia!
Me convenceu.
Aceitei seus rótulos
E todo o pesado fardo
De ser exatamente assim.
Doeu por muitos anos
E ainda dói, quando em crise.
A minha criança ferida
Ainda não se curou.

A mulher,
Gorda feia,
Já se muniu de argumentos
E aprendeu o louvável
FODA-SE
Que todo babaca merece ouvir.

A gorda feia
Sobreviveu à sua violência!
Cresceu e apareceu.
Foi desejada e querida.
E viveu tanta coisa linda,
Que não cabe em pouca rima
Tanto brilho e tanto amor!


terça-feira, 6 de junho de 2017

[Não] nasci para ser capacho!

[Não] nasci para ser capacho!
[Não] vou me fingir de frágil
Para agradar ego de macho

[Não] nasci para ser capacho!

[Não] vou deixar de dar e gozar
No primeiro encontro - pode ser o último -
Para macho me respeitar

 [Não] nasci para ser capacho!

Dos meus interesses, [não] vou abrir mão
Dos meus sonhos, [não] vou me esquecer
Para macho acreditar ser minha razão de viver

 [Não] nasci para ser capacho!

Pode ser que eu me apaixone
Por um homem...

E, de repente, desista de resistir
Ao sistema patriarcal

E, subitamente,  resolva não me revoltar
Com essa discrepância social

E, infelizmente, me torne de fato
Capacho de macho.
Triste final!