segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Trecho do Memorial (mostra performática "Rizomas")

Tocha acesa. Chá de camomila. O Vestido branco da minha mãe. Banho de bacia. Abebé. Eu-Corpo. Reflexo. Vergonha. Auto-rejeição. Medo. Dores. Culpa. Grito. Lágrimas. Águas. “Onde está o seu poder, mulher?” Oxum convoca. O olhar polissêmico do público. “Onde está o seu poder?” Que corpo é este, que sabe gozar, que sabe criar, que sabe parir, que sabe nutrir, mas duvida dos seus saberes? Onde está o seu poder de se mostrar?
Me lavei diante de estranhos. Tirei o vestido e mostrei minhas formas excedentes, barriga, coxas, estrias, flacidez, celulite... Um corpo marcado pela obesidade. A gravidez também modificou este corpo. A vida faz isto com os corpos, erosão. Me olhei no espelho de Oxum e Ela me ama como sou... Ela me põe no colo quando eu choro. Ela vê beleza em mim. Ela me convoca a ver esta beleza também! E veio a culpa por ter sido tão dura comigo mesma por tantos anos, por não ter me amado o suficiente e por ter permitido que outras pessoas também me ferissem,  porque eu não me sentia merecedora de amor, de respeito, de cuidado. Autoestima baixa é um instrumento de autodestruição poderoso. E por muito tempo enfrentei crises depressivas por conta desse paradigma mental limitado, por achar que a beleza só se encontrava no padrão vendido pelo mercado.
Me lavei, me despi e me vesti com as cores da minha mãe Iansã. Naquele momento, eu já não sentia mais vergonha, nem medo, nem auto-rejeição. Ali, me entendi como corpo no mundo, como sujeito da minha história, me senti forte para enfrentar meus desafios, sem precisar da aprovação de ninguém: era eu comigo mesma. Atingi um estado de expansão de energia e percepção que só conseguia ter nos meus rituais com Ayahuasca. Eu não queria saber o que o público achou, eu não queria ouvir comentários, as críticas poderiam surgir, mas não poderiam tirar a importância do que foi aquele rito para mim! Foi como um batismo para minha vida artística, onde eu mesma fui a benzedeira.
Performance "Onde está o seu poder, mulher?"
Mostra Rizomas, Geodésica - UFBA. Em
 14 de dezembro de 2018.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

CAMINHANTE


De repente, parei.
Algo no meio da estrada
Forçou-me a parada,
Não pude mais andar.

Estática fiquei.
Algo além me convocava!
Não sabia o que procurava, 
Temia avançar em vão.

No meu caminho,
Tinha barro e asfalto
Tinha poças e buracos,
Rachaduras pelo chão.

Bem no meio, encruzilhada,
Tinha fome e sede 
Tinha morte e medo,
Devaneio e solidão.

De súbito, me dei conta.
Eu precisava continuar!
Ninguém mais podia trilhar
O caminho que era meu.

Percebi, quase inocente,
Que nenhuma lei existente 
- De gravidade ou governança -
Podia me coibir nessa andança.

Só uma implosão poderia 
Mover de volta meu corpo
Pois, enfim, reconhecia 
Com todo peso e desgosto,
Que a pedra era eu.


sábado, 8 de dezembro de 2018

Mãe Solo


É chão de terra batida mesmo,
Sob uma casinha de sapê

É campo arado, para o cultivo diário
Da cria que se cria sozinha

É planície árida, com rachaduras
E cactos em flor

É estrada de barro que se caminha
Com lata d'água na cabeça

Dá a vida
Se vira
Se doa
Dói

Pedregulhos
Precipícios
Latifúndio...

Limites
Barreiras
Fronteiras:
Mãe Solidão.

Eu e Sophia,  na minha aula de "Teatro, rito e performance", na UFBA 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

SOBRE JURAS E ''DR´s''



Amor é feito de atos.
Não é teatro, não é simulacro...
Não estamos aqui para vivenciar um drama.
Atitude é o que se espera de quem diz que te ama!

Promessas são feitas para santos.
Humanos precisam ser surpreendidos:
Com afagos, com afeto.
Afetados com a presença viva.

Palavras são instrumentos:
Se bem usadas, podem cativar.
Se desperdiçadas, podem destruir.

Amar é agir.
É mover-se ao encontro de...
E nunca deixar para depois.




(Poema de 2015, resgatado das lembranças do Facebook.)

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O PARAQUEDAS ABRIU

Há algum tempo saltei
Ao que sentia ser um abismo de amor sem fim.
Criei meias ilusões,
Fantasiei fugas triviais.
Queria contaminar sua vida com a minha intensidade,
Mas senti que você não mergulha em águas profundas.

Parece, enfim, que a queda não era tão livre assim.
O meu paraquedas de emergência abriu,
A poucos metros do fundo do poço.
O feitiço se esvaiu
E estou retomando o fôlego.

Não quero te acusar
Nem atribuir a ti responsabilidade alguma
Só preciso me acostumar
Com o fato de ser agora apenas mais uma
Flor que murcha.

Aquela flor que surgiu
Daquela terra quase infértil
Floresceu, porque você dedicou
Seu carinho e algo mais.
Aquela era a sua flor
Não a ofertei a outro rapaz.
Jamais!
E ela está murchando,
Precoce, infelizmente,
Mas o tempo sabe o que faz...
Antes da primavera,
Sempre é outono.
No verão estarei solo pronto,
Para acolher novas sementes
E enfrentar outros temporais.

Me joguei mesmo
E fui feliz em quase tudo
Aprendi a lidar com o barulho do vento no escuro,
Com as incertezas de um querer quase clandestino.
Me entreguei, enquanto sentia suas mãos, 
Compartilhando entusiasmado
O frescor de cada encontro.
Só que um hora me vi sozinha
E você disse que virei rotina,
Me deixando com as mãos abanando.
Ativei, assim, o paraquedas emergencial
- O que se esconde, mas não me abandona -
E me salvei do meu próprio luto emocional.

Não me permito sofrer.
Sinto dor, porque arranquei nos dentes
O apego que eu mesma cravei em meu peito.
Quando estancar a ferida, estarei refeita
Te olharei nos olhos, serena
E não sentirei nada além de respeito.

Continua sendo "amor livre"
Só que agora estou em terra firme
E não caio mais em encanto algum.



domingo, 21 de outubro de 2018

TERRA MOLHADA

Sou terra fértil
Sou terra molhada
Onde o que se planta nasce
E o que nasce, vinga
E o que vinga, floresce
E as flores dão frutos de LUZ.

Sou terra fértil
Sou terra molhada
Adubada, arada e ampla
Pronta para as infinitas possibilidades
Do cultivo, do labor, da criação, da sensibilização.

Sou terra molhada de chuva e suor.
Sou terra fértil de vida e idéias.
Sinto em meu solo
O contato alquímico
Da Sabedoria cósmica
E do Amor divino.

sábado, 20 de outubro de 2018

Percepções de Oxum: um banho de luz dourada.

Entrei no Vila Velha ansiosa. Cumprimentei a querida Onisajé, diretora artística do espetáculo, e sentei na primeira fileira, me sentindo como uma menina: estava encantada com a beleza do cenário. O elenco já estava posicionado, entoando sons, como um lamento, um chorinho manhoso de menina-moça ou um sussurro doído de deusa-mulher.

Com o público todo acomodado, as luzes indicaram que a viagem para um mundo mágico estava prestes a começar. Os atores cantavam e saudavam ao que me pareceu Exu, pedindo agô, permissão, abrindo os caminhos para a passagem da yabá das águas doces. Oreyê yê! E ela chegou com firmeza nos passos.

"Quem escreve com líquido sou eu!"
Essa frase cantada tantas vezes, como um mantra de um poder feminino ancestral, me hipnotizou. Fui mergulhada nas águas cintilantes das 4 facetas de Oxum que se apresentaram essa noite.

Dialogando com seus pares masculinos, cada aspecto de Oxum trazia uma qualidade diferenciada no temperamento, na atitude, contudo, sempre amorosa, bela e altiva. Oxum Opará – Justiceira e guerreira; Oxum Okê – caçadora; Oxum Abotô – relacionada ao parto e ao nascimento e Oxum Ijimu, a feiticeira e senhora da fecundidade.  (Retirei essas informações da sinopse.)

"Qual o seu poder, mulher? Onde você seca?"
E ela decretou estado de greve geral: tudo o que for líquido no mundo secará, enquanto o masculino não aprender a escutar. Escute, homem, escute!

Oxum convocou a humanidade, para olhar com respeito e empatia o sagrado feminino que reside em cada mulher, em especial, para a mulher negra, que está no grupo minoritário de maior risco e com altos níveis de feminicídios registrados.

Oxum propôs uma mudança genial na língua portuguesa, em que todas as palavras terminariam com a desinência feminina, pois o mundo surge da mulher e nada mais justo seria dar a ela as honras devidas. Personificada na figura de uma mulher negra acadêmica, sendo avaliada por uma bancada toda composta por homens, essa faceta de Oxum questiona o machismo e o racismo institucionais presentes em toda a estrutura social vigente, com um toque de humor sagaz que arrancou gargalhadas da plateia.

Houve espaço até  para o uso da metalinguagem, em uma crítica sarcástica ao complexo vira-lata da tradição teatral na Bahia, ao costume esnobe de enaltecer o teatro europeu e torcer o nariz para o teatro preto produzido aqui. Aquela estória de que santo de casa não faz milagre! Mas o NATA fez o milagre da magia acontecer em Oxum e não deixou nada a desejar.

Outra Oxum, a pagodeira que usa shortinho curto "sim, sim, sim, sim", enfrentou a violência doméstica e o assédio sexual dentro e fora de casa. Colocou o dedo na cara do seu opressor e declarou que não tem medo!

Oxum Ijimu falou também do amor de mãe,  amor incondicional,  que não julga as escolhas de nenhuma mulher. Ela contou histórias daquelas que precisaram "devolver ao Orum o ser que estava no ventre", devolveram por amor, sempre é por amor. Essa cena tem total relação com essa pauta tão atual nas discussões políticas que é a legalização do aborto, porque, em última instância, quem morre diariamente com abortos clandestinos no Brasil são as mulheres pretas e pobres.

A peça traz um aspecto musical belíssimo, com releituras dos cânticos sagrados do candomblé. A cantora Joana Boccanera está o tempo inteiro no palco, posicionada no ponto mais alto do cenário, como uma Deusa anciã, ao pé de uma "mulher-árvore" milenar, responsável pela musicalidade do espetáculo.

Ao final, Oxum Opará convoca a todas e todos para estarmos juntos, unidos! O mundo sem água não floresce. O masculino sem o feminino adoece. Esses dois polos de força precisam viver em respeito mútuo, cada um no seu sagrado, se equilibrando para manter a magia da vida acontecendo. Escute, homem, Oxum convoca para o  equilíbrio!

Sem dúvida, Oxum foi uma das peças mais encantadoras  que vi esse ano! Linda em todos os aspectos: texto, figurino, cenário, luz, música, elenco. E a criticidade na abordagem de temas tão sérios e polêmicos não pesou nem soou panfletária, ao contrário, veio como um tapa seco, suavizado logo em seguida por um banho de cachoeira.

As provocações de Oxum entraram direto no inconsciente de quem teve a oportunidade de assistir ao espetáculo e, certamente, saiu de lá transformado. Eu tremia de emoção, minhas mãos estavam geladas! Foi muito gratificante ver tantas mulheres parecidas comigo personificando uma Deusa! Tudo vibrava na frequência dourada da beleza e altivez dessa yabá tão adorada!

https://www.natateatro.com.br























SIOMARA DIAS

- Formação  em Letras Vernáculas com Inglês e estudante de Artes Cênicas, pelo Bacharelado Interdisciplinar. Escreve poemas e outros devaneios em seu blog InExpiração. Mãe de uma menina de 2 anos e meio, concilia suas demandas artísticas e acadêmicas com as inúmeras pausas para conversas sobre palhaços e animais .

Abraçar é um ato de coragem!

Parafraseando  Paulo Freire, em tempos de neo-fascismo, começo essa reflexão sobre a força política de um abraço, com uma indagação:  O que sentimos verdadeiramente ao presenciar duas pessoas se abraçando?

Sinto que sou contagiada por aquela atmosfera de afeto e me dá uma vontade de estar ali naquele afago também! Uma pontinha de inveja, de querer ter alguém para abraçar também... Sinto uma alegria pelos abraçantes,  esboço um sorriso discreto, tenho vontade de cantarolar.

Em 19 de outubro de 2018, eu abracei meus 13 colegas da turma de "Lab. de interpretação: teatro, rito e performance" por mais de 1 hora. Ofertei também Abraços a pessoas desconhecidas que manifestaram interesse. Explico: Fomos ao Shopping Barra, conhecido por ser um dos mais "elitistas" de Salvador. Nosso programa performativo era simples: Caminhar pelos 3 primeiros pisos do shopping; parar e olhar fixamente, por 1 minuto, ao encontrar com algum colega da turma; correr até a pessoa e abraçá-la por 1 minuto.

Meu primeiro objeto de Abraço foi uma colega que já estava em um abraço coletivo. Então,  quando corri para abraçar, me juntei ao grupo. Os transeuntes comentavam "Que Abraço gostoso!". Muitas pessoas sorriam, comentavam sobre aquele abraço. Nos dispersamos e a ação prosseguiu.

Eu parava, a uma distância significativa, fitando o colega e observando, com a visão periférica, a reação de espectador de jogo de tênis dos que estavam ao redor: pra lá,  pra cá,  pra lá,  pra cá - o que está acontecendo aqui? - correram, abraçaram - oxe! E sorriam, na maioria das vezes. Alguns eram indiferentes. Alguns torciam o nariz. Mas a maioria sorria, sim, pois as pessoas querem ser afetadas pela coragem de amar!

 Entreguei bilhetes com a frase "Amar é um ato de coragem" , do Paulo Freire, a 3 idosos. Uma delas me agradeceu muito, declarou que era o que precisava ver naquele momento e me pediu um abraço. Um senhor disse que meu gesto deixou os amigos dele com ciúmes,  porque não ganharam bilhete. As pessoas querem ser afetadas pela coragem de amar, sim!

A cada novo Abraço prolongado com os colegas, mais eu sentia crescer o potencial para amar dentro de mim. Não o amor romântico, nem aquele com interesses subjacentes, estou falando da forma mais sutil de amor que possamos contemplar com a nossa limitada intelectualidade: amor pela humanidade. Me pergunto se, caso um mendigo me pedisse um abraço, eu daria... Creio que naquele momento,  com aquele estado expandido de presença e atenção, sim, eu abraçaria um mendigo todo sujo! Eu estava em uma outra qualidade de ação, eu era um corpo disposto a abraçar, a afetar pela amorosidade, não estava aberta a possibilidade de recusar afeto. Performance é risco. Mas, como não havia mendigo dentro do Shopping Barra, abracei apenas idosos desconhecidos e uma moça que comentou "Parabéns,  viu, vocês estão conseguindo mexer com todo mundo!"

Comecei a notar que os seguranças me seguiam, talvez por eu estar com uma roupa toda vermelha, ao estilo hippie, com os cabelos crespos e volumosos soltos, aparentando nenhum poder de compra naquele local. Mas não era só a minha aparência que era perturbadora, a minha atitude era suspeita: eu estava parando, olhando e abraçando as pessoas. Eles me seguiram o tempo todo. Não só a mim, aos meus colegas também.  Eles passavam informação via rádio, havia uma tensão no olhar deles.

Relato agora o ocorrido com uma colega, em cujo bilhete além da frase havia escrito "Haddad sim": após abraçar a outra colega,  a moça entregou um bilhete para uma senhora que presenciou o ato. Quando a mulher leu os dizeres, ficou indignada e chamou dois seguranças para repreender minha colega, alegando que aquilo era um ato político. A resposta do segurança foi maravilhosa: "Senhora,  o que está escrito nesse bilhete fala apenas de amor. Não há nada de errado." A granfina se retirou indignada.

Ao final do experimento, nos reunimos na praça de alimentação e trocamos nossas percepções do acontecimento. O que chegou para todos foi a real sensação de ter transformado os sentidos de quem testemunhava os Abraços.
Sai de lá com a sensação interna de um poder transformador.

Abraçar é um ato de a coragem, principalmente em tempos de eleição, com candidato que faz discurso de ódio e segregação. Amar é um ato de coragem,  mesmo quando uma parte da sociedade parece estar cega, em sua bolha de egoismo e ilusão.


Ainda na UFBA

Após o experimento, no Shopping Barra.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Percepções de Medéia Negra: Uma tragédia atemporal.


Antes de entrar no auditório do Espaço Cultural da Barroquinha, o público recebeu a orientação para se dispor da seguinte maneira: gênero feminino à esquerda, masculino à direita. Escolhi um assento no lado indicado e fiquei imaginando qual seria o objetivo daquela formação da plateia. Seria uma questão de equilibro energético,  algo metafísico?  Remeti subitamente aos grupos de Santo Daime que fazem esse tipo de divisão em seus ritos espirituais.

Enquanto os espectadores entravam e se acomodavam, a trilha sonora era "Exu nas escolas" de Elza Soares, e esse aperitivo já me deixou com o estômago embrulhado,  na ansiedade do que estava por vir. Eu sentia uma energia diferente no ar, como se eu estivesse prestes a ser empurrada de um precipício. Após os informes iniciais, blackout. Eu olhava na direção do palco, esperando o surgimento da nossa heroína trágica. Mas ela surgiu pela porta de acesso da plateia!

Apareceu como uma entidade, entoando sons perfeitamente afinados, trazendo nas mãos pratos nagé em chamas. Então começou sua epifania. Se apresentou, num estado corporal de ser mítico: uma deusa, uma louca, uma feiticeira? Andava lentamente, ora se arrastava, ora parecia flutuar. O vestido todo preto, com cauda longa, e o corpete de couro, a maquiagem preta e bronze, e uma pintura em branco que parecia um dos dispositivos de tortura facial usado na escravidão no Brasil, conferiam à figura da Medéia Negra um aspecto poderoso de magia, mistério, dor e força.

Gritos horrendos saiam de seu corpo, iluminavam a cena e arrepiavam meus poros. Posicionada próximo à plateia feminina, Medéia confidenciava suas estórias: a tragédia da princesa grega, que não mede suas ações em prol do homem amado; e a da mulher negra, periférica, lésbica,  trans,  todas que tiveram uma trajetória marcada por subjugação, violência,  estupro, morte. Assim, Medéia sangrou por entre as pernas, retirando de seu ventre memórias de dor, se curando de abusos e feridas ancestrais, em nome da própria atriz Márcia Limma.

Cantando todo tipo de violência contra as mulheres, todo  sofrimento causado pelo sistema econômico vigente, a Medéia ébria lamentava, praguejava, se justificava, chorava, babava, desdenhava dos homens em sua macroestrutura, o patriarcado. Quase toda sua relação com o público masculino tinha um tom de deboche, mágoa, ira e ameaça. "Marielle está aí?", ela perguntou a um rapaz.

A Medéia abandonada por Jasão, depois de tantos sacrifícios para ajudá-lo em suas ambições, encontra na morte dos seus próprios filhos a forma mais eficiente de arrancar aquele homem ingrato e desleal de dentro de si. A Medéia Negra, mãe e filha de todas nós, que sofre as dores de todas as mulheres, convoca o público feminino. "Levanta, mulher!" - bradou Medéia inúmeras vezes, até que uma se levantou, encorajando a todas para participarmos dessa cena final: Mulheres de pé, lideradas por uma Medéia Negra que bradava o enfrentamento e o fim do patriarcado.

A atriz Márcia Limma, uma mulher potente, com um trabalho indefectível de voz e corpo, deu vida a uma personagem clássica, - repaginada e atualizada - emaranhada com as questões que perpassam pela sua própria vivência. A polifonia do texto pode até confundir o espectador, pois as múltiplas faces de Medéia trazem diversos lugares de fala, abordando também a importância da ocupação dos espaços de visibilidade e poder por esses outros corpos.

Os gritos da Medéia Negra perfuraram meus tímpanos e ecoaram em minhas entranhas... Agora estou aqui, com os meus próprios gritos presos na garganta. Quero chorar, mas prefiro escrever.


(MEDEIA NEGRA é uma peça teatral produzida pelo grupo VilaVox, com direção de Tânia Farias.)

https://www.vilavox.com.br/medeia-negra
























SIOMARA DIAS
- Formação  em Letras Vernáculas com Inglês e estudante de Artes Cênicas, pelo Bacharelado Interdisciplinar. Escreve poemas e outros devaneios em seu blog InExpiração. Mãe de uma menina de 2 anos e meio, concilia suas demandas artísticas e acadêmicas com as inúmeras pausas para conversas sobre palhaços e animais .

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

MEU GRITO, MEU DESABAFO

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah

Eu grito sim!!!
Não sei ao certo por que grito,
Só sei que sinto um misto
De confusão e desespero
De fantasia e solidão.

Aaaaaaaaah

Mas eu preciso organizar as ideias, para ser bem vista
Preciso criar algo novo, porque sou artista
E produzir superficialidades , porque o mundo é capitalista
Preciso alimentar o corpo, porque sou mãe
Preciso desaguar o pranto, porque sou mulher
E o fardo é pesado, para quem decide ser gauche na vida, tendo uma fenda entre as pernas!
Preciso respirar, pois só assim posso conversar com Deus.

Aaaaaaaaah

E o mundo não me concede o tempo necessário,
E como diria um poeta visionário,
Sendo o mundo um moinho,
Não deixa que eu desfrute das belezas do meu caminho

O mundo me esmaga com seu olhar de reprovação,
De maledicência, de maldição
O mundo abre a boca e os olhos para me dizer não,
Ele grita na minha cara
que este corpo preto e gordo não vale nada,
que esta mente de mulher letrada
Só entende de piegas alegorias e reclamação.

O mundo só enxerga quem tem a pele clara e serve aos deleites de quem aperta os botões da engrenagem atual.

Aaaaaaaaah

Mas o que importa o mundo lá fora?
Se aqui, dentro de mim, pulsa tão viva a voz ancestral!
Eu sinto tanta força e potência em meu corpo, em meu ventre, em meus fluidos...
Saliva, suor, sangue, gozo...
Minhas águas alcalinas pedem passagem,
Depois que Oxum me convocou para secar...
Ela me perguntou:
 Onde está seu poder, mulher?  É aí que tens de secar!

Então decidi escrever
E as palavras são cachoeira
E a minha boca é a nascente
E esse corpo sabe se banhar:
Eu existo.
Eu resisto!

E trago em minha face
A mesma arte que cantou Bethânia
Contudo, não me contento ao sorrir,
Quero gargalhar estridente, sem melindre ou infâmia,
Na cara grande e dura desse mundo cruel
Cada vez que ele disser "Não!" para mim.

Marielle Franco, presente!



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

13 pras 12...




Ávida, a vida lá fora habita.
Serena, ensolarada, distante de mim.
Aqui, a vida insiste, persiste.
Escurecida, escusa, perdida
  Em conceitos e teorias
  Sobre o viver.






domingo, 23 de setembro de 2018

"Felicidade não existe..."

"O que existe, na vida, são momentos felizes..." Diana

Começo esta reflexão com esse verso cantado por Diana, cantora Brasileira nos anos 70, para pensar na transitoriedade das emoções, das experiências, e na possibilidade de um estado constante de felicidade.

De antemão, declaro que felicidade existe, sim, e é constituída basicamente de um ser humano em equilíbrio hormonal, a nível bioquímico. Obviamente outros fatores - mental, emocional, energético, espiritual - precisam agir concomitantes, para que todo o sistema pessoal entre em ressonância com a frequência da plenitude. A percepção da felicidade depende de como seu sistema endócrino está trabalhando, se suas crenças te autorizam a ser feliz agora e sempre, se seus programas mentais te deixam livre para experimentar de fato a felicidade!

Recentemente, andei lembrando de conversas onde se questionavam o quanto fulana era realmente feliz, pois só demonstrava essa felicidade quando estava acompanhada do companheiro. Eram fotos, vídeos, declarações públicas de afeto, tudo envolvendo um outro ser humano. Eu achei uma falta de respeito esse questionamento. E vi a ponta de um grande iceberg chamado ciúme/inveja. Fulana tem o direito de sentir a plenitude dela na condição de se, e somente se, estiver acompanhada do marido, sim! Não nos cabe julgar sua dependência emocional!

E essas pessoas, que julgam os parâmetros de felicidade alheia, já atingiram o estado búdico,  o Nirvana,  a plenitude suprema? Nenhum ser humano comum, dentro desse sistema social doente, deve ser obrigado a ser feliz o tempo todo, incondicionalmente. Não somos monges budistas, não estamos com rotinas sintonizadas com a natureza, ou seja, nosso estilo de vida não colabora para essa Ascenção interna. Então,  vamos pegar leve com o que exigimos dos outros e até de nós mesmas.

Eu concordo que é  um risco muito alto depositar a razão da minha felicidade em outras pessoas, logo, sempre controlo minha mente para não alimentar aquele tipo de crença. Mas quem sou eu para julgar as pessoas que não tem essa percepção? Eu posso tentar alertar, conversar, dar meu exemplo, mas só aquela pessoa tem o poder de mudar seu modo de pensar, sentir e agir na vida dela.

Cada pessoa tem seu próprio tempo de amadurecimento emocional, de despertar interno. Algumas nem fazem esse esforço  e assumem que são dependentes emocionais e não fazem questão de mudar isso. A mim só resta continuar no caminho que julgo mais salutar, segundo meu mapa mental.

Hoje eu me considero vivendo em estado de felicidade constante, sim, com alguns parcos momentos de incômodo,  desasossego,  cansaço,  até tristeza, solidão e carência,  mas infelicidade Não! Me recuso a ser infeliz,  pois nem consigo mensurar as dádivas que recebo diariamente em forma de afeto, oportunidades, saúde, e até certos privilégios!

A vida não é fácil mesmo, e nascer já é a prova de que viemos a este mundo 3D para uma experiência desafiadora. Contudo, reconhecer que a magia está justamente em observar nossa evolução paulatina, a cada obstáculo vencido, a cada dor e dificuldade superada, nos coloca nesse estado de contemplação da vida, da inteligência cósmica, em um estado de gratidão ao Amor Divino presente em tudo o que é manifestado.

Portanto, Diana, peço aquela velha licença poética, para refazer sua declaração da seguinte maneira:
"Felicidade existe, sim, bem como existem, na vida, momentos felizes."

Cabe a cada ser humano desenvolver a sensibilidade para alcançar a frequência da felicidade, que exige atenção e prontidão mental para manter-se  nesse estado de bem-aventurança por um tempo prolongado.
É possível. E não me pergunte como, pois, parafraseando Jiddu Krishnamurti,
"A felicidade é uma terra sem caminhos ".




terça-feira, 18 de setembro de 2018

SACERDOTISA

Posso até dizer ser sua
Em um momento de prazer
Porém não se perpetua
Só estou com você

Para ser sua
Implica posse
Destoante do amor
Relação de poder
E amar é verbo intransitivo
Sem possessivo ou condicional

Confio a ti minh'alma nua
Te autorizo a fazer o que quiser
E seja sempre doce, quente e sincero
Ao tocar o santuário de uma mulher

Sou portal aberto
Para um mundo de afeto e bem-querer
Me acompanhe nessa ida em transe
Garanta a nossa dose de prazer

Te quero assim como já é
Livre para voar e voltar
Me deixando na espera...

E quando quiser me ver
Avise com antecedência
Providencio vinho,
Velas e aromas em essência

Se a sua Deusa é Vênus,
Venha sem baliza,
Meu corpo é o templo
E eu sou a sacerdotisa.


segunda-feira, 6 de agosto de 2018

MAR AMOR

De ponte flutuante,
Para aventureiro navegante,
Cansei de ser.
Solta pelo Mar Amor,
Sem saber quando,
Nem as coordenadas de
Onde ele passaria por mim.

O cais do porto,
Fixo, sólido, perene,
Prefere estar ao seu dispor.
Assim, tenho a certeza que,
Cedo ou tarde,
O forasteiro das águas distantes
Virá ancorar seu cansaço
Em minha baía.

Entre uma odisséia e outra,
Ora ponte flutuante,
Ora cais de porto,
Tecendo meu tapete persa,
Mergulho nas minhas profundezas
E percebo o desconforto
Do meu papel nessa missão.

Decido então, obstinada e aguerrida,
Ser a capitã da minha embarcação.
Vou experimentar os 7 mares,
Dos amores que vem e vão.

Conhecerei de perto
Outras faces do mar amor,
Revolto e desafiador,
Com tempestades e quimeras.

E não mais me colocarei
Naquele lugar de porto,
Aquela que só espera.
Tampouco, na função de ponte
Aquela perpassada ao longe,
Em que nada se estabelece ou prolifera.

Serei a própria andarilha navegante,
Ancorando, temporariamente,
Em ilhas selvagens...
Deixarei rastros de liberdade,
Com mapas para o paraíso.
Esconderei tesouros e mistérios,
Por entre arbustos peludos,
Nos peitos tatuados
Dos marujos inebriados
Desse Mar Amor.


quinta-feira, 12 de julho de 2018

APRENDIZ

Estou aprendendo a dizer não
Eu desliguei a televisão
Despertando para a Verdade
Curando o meu coração

E, com o sentimento, transformo
Água em vinho, trigo em pão
Cocriando o meu caminho
Com Amor e Gratidão

Estou descobrindo o que é Amar
Com toda a força do meu ser
Vejo alegria se espalhar
Sem apego, sem poder

Estou aprendendo a dizer sim
À divindade que há em mim
Entregando minha estrada
À luz que habita minha alma

E com o Amor sempre sustento
Meus pensamentos e ações
Observando o movimento
Dos meus antigos padrões

Estou descobrindo o que é Amar
Com toda a força do meu ser
Vejo alegria se espalhar
Sem apego, sem poder.


terça-feira, 12 de junho de 2018

ALQUIMIA

Jogue um feitiço em mim
Lance a fórmula mágica...

Da amizade com afeto:
Despretensiosa, papo reto.

Do afeto com desejo:
Já imagino o gosto do beijo.

Do desejo com paixão:
O corpo querendo o toque da sua mão.

Da paixão com a liberdade:
Sabendo os limites das possibilidades.

E não sustento minhas muralhas,
 - Sou atingida por profundezas e migalhas
De carinho e mais um tanto-
Caio no seu encanto.
























(Poema escrito em 02 de fevereiro de 2018)

segunda-feira, 11 de junho de 2018

DESABAFO ESCRITO EM 12 DE JUNHO DE 2017

A crise existencial é apenas o resultado de uma série de pensamentos ardilosos que nutrimos, balizados pela pressão social de todos os aspectos da vida, das mídias, das metas e padrões de comportamento alheios... tudo o que fazemos é comparar nossa vida medíocre, ou como nossa mente se auto denomina, "vidinha de merda ",com a vida super interessante-badalada-bem sucedida-estruturada-dentro das normas-linda-colorida-saudável-rica e organizada das pessoas que seguimos, principalmente nas redes sociais! Genteesss... precisamos respirar, acalmar um pouco a mente. Voltar para nosso eixo. Eu tô falando é de mim, tá! Como muitas vezes me pego invejando (e é inveja do "mal" mesmo, de querer viver aquilo naquele momento... apesar de não querer fazer o mal para a pessoa, que fique explícito! ) pessoas que estão viajando, na balada, comendo alguma coisa que minha dieta - ou orçamento -não permita... daí vem um sentimento de fracasso... fracasso por ser alguém de 30 anos que não está no auge de emancipação que desejaria para esse momento da vida. Estou desempregada, dependendo dos meus pais para tudo, tenho uma bebê de 1 ano, sou mãe solo, não tenho mais vida social, não saio mais com meus amigos, não tenho um (a) amor pra chamar de "mô", não posso fazer nada sem minha filha, a menos que seja algo programado com 1 mês de antecedência e ainda assim, no dia, a pessoa que ficaria com ela pode ter algum "contratempo " e simplesmente não aparecer. Eu fico para segundo plano sempre.  Voltei as aulas na faculdade em ritmo de tartaruga, 2 disciplinas por semestre,  lendo e fazendo trabalho de madrugada,  quando a pequena está dormindo. Affff. ... respirar,  porque cansa se deplorar demais!  Sei que tenho trocentos motivos para ser feliz! Mas... tá batendo desespero aqui!!! Aí eu vou no espelho, tiro uma selfie, mostro um sorriso qualquer, posto no insta -ou em qualquer outra rede- e recebo alguns likes... pronto! Por algumas horas, meu ego fica feliz, marquei presença, me fiz vista, deram like!  Comentaram! Sou alguém! Alguém me viu... poxa... cadê os Abraços dos que amo? Cadê os casos engraçados? As gargalhadas? Cadê a dança na minha vida? Cadê a paixão, o amor? Cadê eu? E é nessa hora que bate a crise existencial! !! Para que eu existo? Não faço diferença no mundo... bla bla bla... uma mente atordoada, vos digo! Minha mente só sabe comparar, reclamar, se julgar, querer, desejar, se depreciar... preciso reeducar minha mente. Mas é uma tarefa chata da porra! Porque, quando tento mudar um padrão de pensamento, é aí que ele insiste em aparecer constantemente, em contextos diversos. Dia desses eu estava achando que a solução para minha tristeza seria encontrar uma companhia  (homem ou mulher )... sabe, ter alguém pra dormir de conchinha e todas essas baboseiras que empurram nossa goela abaixo, nos discursos por aí! Não é que eu fiz a porra do tinder? Agora veja onde a  criatura queria encontrar um amor pra chamar de seu! Kkkk tinder é um freak show! São muitos egos carentes e mal intencionados querendo apenas satisfação de seus desejos mais primitivos. E eu estava ali, no bolo, escolhendo "minha melhor foto", me vendendo, me expondo na feira das relações descompromissadas! Me senti asquerosa! Tive nojo de mim. Depois pena, depois raiva! Desativei o tinder na mesma noite, quando, desesperada ao perceber que havia conseguido um match mas não estava a fim de ir adiante com aquela encenação ordinária,  fugi. No dia seguinte, bateu a carência de novo... aquele sonho romântico de ter alguém para passear de mãos dadas na beira da praia veio de novo, como suave brisa junina... lá vai a descarada pro tinder de novo! Mais matches! Dessa vez uma moça linda... cadê a coragem? Desativei de novo! Deixa lá. Não preciso de nada disso, diz meu ego! Quando tiver de ser, será!  (Aqui cabem muitas interrogações ) preciso curtir minha solidão. Mas curtir a solidão sozinha em casa, com livros,séries, cães e gatos é fácil,  é lindo, é cult. Eu tô curtindo minha solidão há 1 ano, numa relação simbiótica de maternidade exclusiva compulsória.
Não me restaram alternativas. Fugir da maternidade não me parecia uma opção. Aceitei a condição. Fui recebendo as porradas da vidinha de merda, uma atrás da outra. Tô viva, sobrevivendo. Amamento nos intervalos todos. Dou banho,troco fraldas, dou comida, corro atrás para não meter a mão nas tomadas, no sanitário, nos lixos, para não cair... marco pediatra, levo. Levo para passear, quando a crise dá uma trégua.  Compro o que for necessário para ela... cuido o tempo todo. Dela. De mim não. Vou me deixando pra lá. Assim como vou deixando meus planos... Mas essa é apenas a minha história. Eu paro também para pensar em outras histórias por aí,  algumas bem próximas a mim. Cada pessoa carrega sua carga . algumas parecem carregar muito mais do que outras. E o que eu julgo pouco, pode ser muito para quem está vivendo a situação. O fato é que estou em crise existencial,  olha só,  eu que deveria estar plena e realizada, pois sou mãe de uma menina linda e saudável, devo ser mesmo uma puta ingrata que não sabe o que é realmente sofrer na vida! Egoista do carai! Ou não,  né. Só "eu" sei. Tenho 30 anos, joguei os sonhos de uma vida inteira no lixo, quando descobri a gravidez.  Me doei com todo meu amor,  me dôo até hoje. Saio as vezes, tenho meus dias de fuga. Procuro minhas válvulas de escape. A pressão é grande. Sei que tudo passa. Sei que a menina vai crescer, vai pra escolinha, que terei um pouco mais de tempo para correr atrás do que me interessa. Só não sei se o que me interessa estará vivo em mim até lá,  entende. Sou de água, passional! Tem que ser aqui e agora, tem que vibrar, escorrer pelos poros, eriçar meus pelos, tem que ser intenso e vivo... sonho não espera depois dos 30. Não os meus sonhos! Demorei tanto para andar no meu próprio  caminho... e quando, enfim estava nele, um desvio. Um desvio lindo que amo, mas estou sozinha nesse novo caminho! (Sim, tenho minha mãe, mas ela tem a vida dela e tem outra neta bebê que também precisa de auxílio, enfim...) Essa crise vem... toda noite. Todo dia. Toda hora. Eu convivo com esse conflito entre o que sou e o que eu gostaria de ser mas não posso. E não posso simplesmente porque me tornei mãe! Mãe solo. Desempregada. Solteira. Sozinha. Fim.
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Texto acima foi escrito há 1 ano. 
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Graças ao apoio incondicional de minha mãe e à espiritualidade, consegui sair daquele quadro depressivo que se agravava a cada dia. Fui uma guerreira sim, numa batalha intrapessoal incessante. Minha situação começou a melhorar quando pude deixar Sophia com o pai dela 1 vez por mês, para participar dos trabalhos espirituais com o chá da Ayahuasca , no grupo espiritualista Nova Era. Depois de muita catarse, limpezas energéticas e físicas, participei de diversas terapias e iniciações. Sou muito grata a todas e todos envolvidos nesse projeto doloroso do meu despertar. Ainda estou caminhando , buscando esse caminho do Meio. Há quase 3 meses venho fazendo a Ressonância Harmônica com Hélio Couto e sinto que a expansão consciencial atua de maneira progressiva e exponencial : não posso retroceder. Só agradeço e continuo minhas lidas diárias, com muita fé na espiritualidade, no Criador e no Amor Cósmico existente em cada ser humano. (SIOMARA , 11 DE JUNHO DE 2018)

sábado, 5 de maio de 2018

SEXO CRU

Beija quente
Esquenta o ventre
Embaça o vidro
A vapor

Abre o zíper
Mostra a carne
Firme e pronta
Ao labor

Subo a saia
Me encaixo
Eu por cima
Tu por baixo

- Ai, espera!
- Ah, não para!
- Cadê a proteção?
Se continuar, dispara.

E tudo já seguro,
Transando no escuro
De uma rua, em um carro
No banco de trás

Me aperta mais
Forte dói e dá tesão
Quero quase dar
Um grito de acordar
Todo o quarteirão

Movimentos contidos
Sinuosos e intensos,
Mordo seu pescoço
Ouço você gemendo

Sede sem fim:
Saliva
Seios
Suor
Desaguam em ti

Sexo cru,
Sem "pré-paros"
Sem temperos:

Delicioso
Suculento
Inusitado

Por inteiro.




terça-feira, 24 de abril de 2018

RUMINANDO AQUELA CANÇÃO FEMINISTA


Tenho levado a fama de triste,
Aquela que amargou,
Que escolheu a solidão,
Sem amarras,  sem um cais.

Tenho levado a fama de louca,
Aquela que desatinou,
Que jogou as palavras todas,
Sem eufemismos, ao vento!

Tenho levado a fama de má,
Aquela que embruteceu,
Que se tornou obscena,
Sem doçura, só crueldade!

Tenho levado a fama.
Ela é minha única acompanhante
Nas noites quentes
De tesão, fome e fúria!

Quem leva a fama
Não leva nada além:
Nem gana, nem grana
Nem uma mão de ajuda
Nem um grama de afeto.

Tornei-me, assim,
Corpo abjeto
Objeto danificado
Mulher desvairada
Rota proibida
Onde ninguém ousa
Ao menos, encostar.

Foda-se!
Eu sou
Meu próprio
Lar.

Clipe de TRISTE, LOUCA OU MÁ, da banda Francisco El Hombre 

quinta-feira, 19 de abril de 2018

MENOS 10 KG.

Sim, comemoro cada quilo eliminado!

- Ah, mas você tem todo um discurso contra GORDOFOBIA,  Siomara! Mudou de idéia?

Sou contra GORDOFOBIA e jamais mudarei de idéia quanto a isso.

Eu sofro a GORDOFOBIA desde a infância: sempre fui gorda.

Quando escrevo, falo, expresso a reafirmação da beleza da pessoa gorda, não estou dizendo que desisti de lutar contra a obesidade,  a ansiedade,  a compulsão alimentar. Meu discurso é a favor da auto estima elevada de toda e qualquer pessoa! Meu posicionamento é contra a discriminação de pessoas gordas, contra reforço de estereótipos.

Hoje comemoro porque estou há duas semanas mantendo o peso atual em 85/86 kg, o peso que tinha quando descobri a gravidez. Minha filha vai completar 2 anos amanhã e, desde seu nascimento, passei por tantas mudanças psicológicas e emocionais, que meu corpo acompanhou todo o processo!

Cheguei a pesar 105 kg, em 2016. Com o tempo e com muito esforço, fui reduzindo e cheguei aos 95 kg! Em dezembro de 2017,  comecei a utilizar os produtos da NHP, Nutrition Store*  (ômega 3, magnésio, colágeno, óleo de coco) e só não pude usar os óleos emagrecedores, porque ainda amamento! Os resultados começaram a aparecer muito rapidamente: fui percebendo menos episódios de compulsão alimentar, fui naturalmente equilibrando minha alimentação.

O fato de não ter disponibilidade para atividades físicas todos os dias dificulta o processo de emagrecimento. Eu tenho várias demandas diárias e a musculação acabou se tornando "secundária". Atualmente, faço Dança do ventre com fusões tribais,  1 vez por semana. Tento estar em movimento nos outros dias, mas não é constante.

Então, esse corpo agora é uma vitória para mim, sim!
Minha meta é atingir meu peso ideal segundo o cálculo de IMC.
Sou uma mulher de 170 cm, acho que ficarei satisfeita pesando 70 kg.

Eu me sinto mais disposta e autoconfiante,  apesar do pouco condicionamento físico por falta de atividades regulares. 

Sempre tive crises em relação à minha autoimagem, pois aprendi desde a infância que "mulher gorda é feia e ninguém vai querer". Bom, quem falou isso mexeu bastante com meu inconsciente e contribuiu para crenças profundas de auto-rejeição. Tenho trabalhado todas essas questões, em meus rituais espirituais, e muita coisa em mim tem melhorado. Mas, só para deixar registrado, essa crença aí sobre mulheres gordas e bla bla bla É MENTIRA!!!

Eu posso não ser lida pela sociedade como uma "bela mulher", mas não tenho dúvidas quanto ao meu poder de atração. E não falo de sensualidade, não. Falo de magnetismo pessoal, algo muito mais poderoso do que qualquer estética física e efêmera. Eu tenho AMOR para compartilhar e quem se aproxima de mim certamente vem por isso!

Então, deixo registrado que NÃO escolhi emagrecer "PARA FICAR MAIS BONITA".

Emagrecer para mim é questão de saúde, pois tenho hérnia de disco na região lombar e só eu sei das crises absurdas de lombalgia que sofri. E, sim, o peso influenciou muito!

Não quero aqui apontar dedo para as escolhas de ninguém. Eu poderia continuar pesando 105 kg, sentindo dores absurdas ao carregar minha filha, sem ter disposição para brincar com ela. Eu preferi eliminar uns kilos e experimentar outras possibilidades que meu corpo tem para me oferecer.

Sei que nem toda pessoa gorda está obesa, ou sofre dores, ou está com problemas de saúde. Mas se estiver, acho razoável procurar meios para resolver os problemas, viu!

Ainda estou gorda e continuo sendo um ser humano complexo e multifacetado que não cabe, com toda sua idiossincrasia e história de vida, no rótulo "GORDA".

Quando eu estiver no "peso ideal", por favor, NÃO VENHA ME PARABENIZAR. Sei que a intenção é das melhores,  mas faz a pessoa odiar seu passado, seu corpo do passado, só por ele não estar no padrão. Se quiser afagar meu ego, me chame de linda, de gostosa, de poderosa, maravilhosa, mas me chame também de inteligente, talentosa, forte, determinada... São tantos atributos, porque focar na estética? E a minha poética não conta?

Eu amo a Siomara que chegou a pesar 110 kg em 2013.
Eu amo a Siomara que chegou a pesar 105 kg em 2016.
Eu amo a Siomara que agora pesa 85 kg em 2018.

Eu respeito todos os corpos que habitei, pois aprendi a ser um pouco melhor com todos eles.


* Quem quiser saber mais sobre os produtos dessa marca, pode me procurar nas redes sociais!
Insta - @siomarasdc
Facebook - Siomara Dias






terça-feira, 10 de abril de 2018

FLUXO SEM LEITO

Me falou o músico
De uma música,
De um poeta baiano,
Sobre as questões
Filosóficas universais

E da ausência de sentido,
De caminho,
De direção

E da presença dessa luz,
No peito,
No chakra
Do coração

E que da vida
Só temos aquela certeza,
Inexorável e onipresente,
Que um dia ela se esvai.

E enquanto ela não escoa de vez,
A lava flui, incandescente,
Rasgando o peito,
Tangendo os corpos, os seres
Pulsando em Tudo o que há.

Vai sem rumo
Vai sem trilha
Vai sem destino pré-determinado
Vai se perder...
Vai se encontrar.




domingo, 8 de abril de 2018

QUEDA LIVRE

Me deixe errar mais uma vez!
Me permita ser um pouco tonta...
Me faça acreditar que não preciso de mais ninguém.
Só por essa madrugada,
Me dê essa tragada de ilusão.

Me conceda de novo uma conversa fiada
E me fale de como temos tanto em comum.
Me convide para degustar um sabor exótico
Pense no milkshake, eu penso no beijo bom.

Me conte coisas íntimas e pseudo-segredos
E me faça sentir que sou especial para você
Me fale também de alguns dos seus medos
Para que eu confie em sua sensibilidade e sensatez.

Compartilhe comigo seu amor à lua
Sinalize pra mim a beleza do brilho no mar.
Fale mais dos amores antigos
Sei que daí pode sair muito mais...

Me ache linda, me cheire, me conquiste toda!
Me apresente aos amigos, como mais uma amiga.
Me faça sentir clandestina, meretriz
Me chame de "Mulherão da porra"
Que eu não sei fingir que acredito
Nem sou boa atriz.

Me beije com sofreguidão, contra a parede
De uma igreja qualquer
Me desvende aos poucos, homeopático
E brinque de mal-me-quer

Mas não me peça para controlar meus sentimentos!
Nem me queira a rainha da racionalidade!
Não espere que eu não sonhe com nossos momentos
Nem que eu aceite esse não-lugar com facilidade.

Você chegou e eu acolhi,
Como a terra seca que recebe a chuva.
Floresci, consciente de que
Toda flor murcha.

Escolhi cair na sua...
Já sabia que seria queda-livre
Quando, sem para-quedas,
Me lancei de peito aberto
E, no meio do salto,
Me vi no abismo sem fim.




Agir Agora

Algo me diz
Que Ela está aqui
Alma vibra luz
A noite terá fim

A gente cansa
Fingindo que tenta
Agir de verdade
Mas em câmera lenta

A gente para
Perdendo tempo
Gastando as horas
Para a vida passar

Algo me diz
Que Ele está em mim
Alma iluminada
Raiando a alvorada

Percebi agora
Que me engano sempre
E o futuro é o nunca
Que no passado eu disse

Percebo então
Que me saboto sempre
E o presente é Tudo
Que eu tenho em mãos

Agir agora
É emergencial
Em estado de atenção
E coerência
Dentro das leis
Do fluxo universal.



HIPERINTENSA

Seu corpo sinuoso não suportou
Tamanha pressão contida
De um amor que deveria não ser
E deu hipertensão.

Por ser sempre tão intensa,
Alguns dirão até que
Ela não pensa no que faz,
Mas outros reconhecerão:
Ela só não controla
O que sente...
Transborda afetos,
Imensidão.

Hiperintensidade
Quando sente tanto que parece
Não caber em si.
Hiperintenção
Quando a vontade sai do plano da ilusão,
Hiper-tesão
Intenso, inacabado
Infinito.