sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

SOMOS TODAS CLANDESTINAS: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE HISTÓRIAS DE SOLIDÃO


Cheguei ao Teatro Solar Boa Vista, acompanhada da minha irmã.
No hall do teatro, encontrei uma amiga do coletivo feminista.
Conversamos sobre minha gravidez, sobre minhas expectativas para o parto.
''Papo de mulher.''
Sim, porque homem não se interessa, não se faz presente,
não se importa, não se engaja, não tem empatia, não se coloca no lugar, não cria vínculo!

Entramos no teatro.
As cadeiras estavam organizadas em cima do palco, o mais próximo possível da cena.
O cenário: um banco de madeira, cordas penduradas no esquerdo-frente,
um prato com um pó cor de terra (talvez urucum, talvez argila vermelha), um telão branco ao fundo.
O público era preponderantemente feminino.

A atriz entra em cena.
A primeira fala da personagem traz o seu útero como ''campo de batalha''.
E segue-se 45 minutos de um monólogo intenso, denso, pesado mesmo,
doloroso, que martela na mente e no coração.
O conteúdo da peça é ABORTO!

Aborto não como ato criminoso sobre a vida de um ser indefeso,
mas como ato de violência sobre o corpo da mulher, que ocorre antes, durante e depois dele mesmo.
Se a mulher engravida, a culpada é dela.
Se a mulher não encontra apoio para ter a criança, a culpa é dela.
Se a mulher não tem condições de fazer um aborto ''seguro'', a culpa é dela.
Se a mulher resolve ter o filho, a culpa é dela.
Se a mulher resolve abortar de qualquer jeito, a culpa é dela.
Se a mulher morre, por complicações de um aborto clandestino, a culpa é dela.

A mulher se vê sozinha em todos os momentos pós-coito-do-macho-progenitor.
Ele se exime de qualquer responsabilidade, não é apontado, não é culpabilizado,
não é perseguido, não é torturado pelo sistema de saúde, não é ameaçado pela polícia,
não é difamado, não é condenado pela igreja, não é castigado por ''Deus''.
Já ela...
Quem mandou nascer mulher, né?

Em determinado momento, a personagem traz para a cena uma bacia
com um pedaço de carne e um facão.
Ela se agacha e, de cócoras, começa a cortar vigorosamente a carne,
enquanto conta diversos relatos de abortos clandestinos.
Em cada caso narrado, a omissão, a ausência, a indiferença do homem,
parecem dilacerar muito mais a mulher do que o ato de abortar em si.
E ela vai - qual açogueiro, qual um médico que, em uma curetagem violenta,
faz ''a desgraçada sofrer pelo crime cometido'' - fincando a
faca naquele pedaço morto de carne animal, fincando o texto nos nossos ouvidos,
fazendo as palavras cravarem como cacos de vidro na nossa mente de mulher.
Sim, porque toda mulher heterossexual com vida sexual ativa pode engravidar
mesmo usando contraceptivos.
Sim, porque toda mulher, heterossexual ou não, pode sofrer um estupro e engravidar.
Sim, porque toda mulher tem seu corpo como um território colonizado pelo sistema patriarcal, gerenciado pelo sistema de saúde, vigiado pela sociedade como um todo,
objetificado pelo capitalismo, demonizado pela igreja...
Toda mulher é sistematicamente uma desapropriada dela mesma.

- Seu corpo não é seu por ''direito''! - Eles dizem.
Bruxa!
Vadia!
Promíscua!
Louca!
Absurda!
Devassa!
Irresponsável!
E, para resistir, ela se torna clandestina!
- Assassina! - Eles dizem.
E ela sangra até a morte - que pode ser física,
que pode ser psicológica.
E o silêncio...


A peça não me trouxe catarse alguma.
Entretanto, me deixou inquieta, reflexiva, triste, inconformada!
Me fez escrever esse texto.
E agora que estou grávida, com 30 semanas de gestação, sei o que é ser mulher
e ter nos ombros o ''peso'' da responsabilidade sobre uma nova vida que trago ao mundo.
E eu, graças aos desígnios da causalidade universal, tenho o privilégio de estar sendo
apoiada pela minha família e amigos. Mas me sinto mal ao me colocar no lugar daquelas que
não tiveram a mesma sorte que eu, que foram vítimas de estupro, que engravidaram sem a menor
condição de criar uma criança, que foram expulsas de casa, que não encontraram apoio de absolutamente ninguém e se veem verdadeiramente solitárias.


Somos todas sangue, suor e lágrimas.
Somos todas clandestinas.
Somos todas solidão.