quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

UM BRINDE AO CAOS


Brindamos à saúde, ao dinheiro, ao amor...
Paz, sucesso, felicidade... Ao noivos!!!
Brindamos toda a sorte de acontecimentos
e desejos banais...
Mas nunca brindamos ao caos.

Nossas mentes modulares, condicionadas ao
cartesianismo burocrático de elevadores e
escritórios, jamais nos permitem comemorar a desordem.

Nos tornamos ''adultos'' muito cedo,
somos chamados à uma responsabilidade enfadonha em tenra idade:
Precisamos ser alguém na vida!
Tudo tem que dar certo!
O que você quer ser quando crescer?

Demoramos meses para aprender a andar,
E quando já podemos controlar as nossas pernas,
Nos cansamos da retidão do caminhar.
O chão perdeu a graça, porque não há mais quedas.
A trilha já está traçada, não há nada mais a desbravar.
Nos perdemos no ir e vir dessa rotina compulsória.

Até que um dia, alguém resolve implantar o caos no seu cotidiano.
[Esse alguém pode estar dentro de você]
Ao invés de fazer sempre o que estava planejado,
burla o sistema, inventa outro itinerário
e você começa a perceber que, na verdade, nada está sob seu controle.

Para tomar consciência de algo, precisamos atingir um certo grau de loucura.
E é aí que o famigerado caos protagoniza a cena:
ele bagunça seu quarto, revira suas gavetas socadas de coisas obsoletas,
roupas que não entravam mais, dívidas antigas... Ele joga tudo para o ar.

Como em um concerto, você se vê no púlpito,
tentando reger a orquestra atonal do seu mundinho particular.
Mas parece que seus músicos não te obedecem e não estão querendo ler a partitura.
Você olha a balbúrdia ao seu redor: faz silêncio, mas há o murmurinho das coisas não ditas,
da sua ansiedade neurótica por organização e segurança psicológica.

Aí, você pega uma taça de vinho, se joga na cama com lençóis revirados e brinda!
Brinde ao caos, porque agora sua prioridade não é ver tudo arrumado.
E há uma certa beleza ensandecida no que beira o caótico.

Parece até que esquecemos como é prazeroso ter desafios.
Como era prazeroso, aos nossos 10 meses de idade tentarmos nos equilibrar em pé.
E como era gostoso, passar o tempo infinito de criança em férias inventando brincadeiras
que certamente nos colocariam de castigo.

A gente chega aos vinte e poucos anos com a convicção de que agora temos tudo em nossas mãos,
mas, por algum empecilho no meio da estrada,
nos desmotivamos e afogamos nosso espírito aventureiro na lama do pensamento medroso.
O pensamento medroso é aquele que não nos permite arriscar, não nos permite seguir sonhos ousados, apostar em metas altas. O pensamento medroso é medíocre e tem pavor da perda, do fracasso quantitativo e da crítica opinião alheia. O pensamento medroso nos faz assumir as piores características humanas: nos faz submissos e mesquinhos.

Por tudo isso, ratifico a minha sugestão, que brindemos ao caos; pois sem ele nossa vida seria um cotidiano cor-de-rosa-chiclete, com cheirinho tutti-fruti insuportável. Ou seria um corriqueiro domingo cinzento  com tempo nublado e pancadas de chuva.

Um brinde ao caos, com direito a ''tim tim'' e arroto ao término da garrafa!


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