quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O QUE ESPERO PARA 2015?


Hoje encaro o verbo ''esperar'' de uma outra maneira.
Já não o quero rondando com frequência meu vocabulário.
Chega de tantas esperas, de tantos aguardos. 
Parece coisa de quem não vai à luta.

2014 me mostrou que ''quem sabe faz a hora, não ESPERA acontecer''.
Tomei decisões, agi. Bem ou mal, certo ou errado, - dicotomias superficiais -
houve ação vinda da Vontade.
Quis largar um emprego que não me fazia feliz, larguei.
Quis estudar Artes, quando todos achavam que era mais 'seguro' estudar Direito.
Já me considero artista!
Quis amar, me apaixonar e me reapaixonar, várias vezes. E meu coração vibra.
Arrisquei o que achei necessário, sai da zona de conforto, cai, me machuquei, chorei, aprendi.
De pensar que não havia planejado nada disso... Me surpreendi!
Está aí algo bom para ''esperar'' de um ano que começa: Surpresas!

Podemos traçar metas, claro! Mas não devemos nos limitar, nos fechar a elas.
Acontecem tantas coisas fantásticas e curiosamente inusitadas ao redor da nossa redoma ambiciosa!
Se tirarmos, um pouco, o foco de uma meta qualquer, poderemos observar a beleza dos meandros que a vida talha  com maestria no curso do nosso ano. São tantas experiências compartilhadas.
São detalhes, minúcias.  E essas pequenas singelezas realmente dão brilho ao cotidiano alienado que nós nos obrigamos a seguir,  sob o discurso preguiçoso da sobrevivência.
Chega de sobreviver! Não nasci para sobreviver.
Eu vivo, eu pulso, eu vibro, eu crio, EU SOU.

Então, o que espero para 2015?
Nada!
Entrarei com a mente vazia de expectativas,
com o coração cheio de afeto,
com o corpo pronto para o movimento.
O que não quero é parar, é estagnar.
O que não quero para 2015 é esperar que algo aconteça.

Agradeço. Por que gratidão é o estado de espírito de quem compreende a maravilha do viver.
E mantenho os meus passos, ao meu ritmo, pois o que importa é continuar caminhando, mesmo sem saber ao certo aonde chegarei. Eu vou.
Gérbera na minha janela atingiu o auge do seu desabrochar hoje.
Não é por ser o último dia de 2014 que estou tagarelando pseudo-filosofias.
É por ser AGORA o único tempo real em que posso agir. E palavra é ação, criação.

Feliz AGORA a todxs!

domingo, 7 de dezembro de 2014

FUGAS FUGAZES


Roçar forte e rápido:
Corpo nu, no seu
Clitóris cru, seus dedos
Mamilos eriçados, sua língua
Boca ávida, seu pau rijo.

Fujo de mim, mergulho em ti
E nesse instante não sou mais eu.
Não somente eu.

Friccionamos nossas carnes,
Porque isso nos faz bem:
Nos aquece, nos enlaça,
nos embriaga, nos transcende.
Nus.

Aceitamos instintivamente quem somos,
Mas só nesse lapso de tempo,
em que nos despimos de roupas e máscaras,
de status e stress, de grana e gana.

E nos perdemos das horas,
porque, quando se transa, o mundo pode desabar:
meter é tão gostoso, que o resto tanto faz!

Não, não sou recém desvirginada.
Se falo assim, entusiasmada, do seu falo e do nosso ato
É por estar agora empoderada do meu sexo, do meu prazer.

E recorro mesmo a essas fugas fugazes:
Em que se leva uma hora ou mais,
Na ode aos sentidos
No exercício do tato ritmado.
Para, em alguns segundos, explodir um orgasmo profundo
E fugir do meu mundo incerto, sem juízo.
Me recomponho por alguns minutos,
Pronta para mais umas, esperando o gozo final.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

DOIS AMORES

Cada um traz para mim canções e flores.
Poderia tê-los, como a um sorvete de dois sabores:
Provaria um, depois o outro - deliciosos, suaves e doces.

Dois amados.

Cada um traz para mim prazeres e afagos.
Poderia tê-los, como a uma pizza de 4 pedaços:
Provaria um, depois o outro - quentes e temperados.

Dois amantes.

Cada um traz para mim variados desafios excitantes.
Poderia tê-los, como a um par de brincos de diamantes:
Provaria um, depois o outro - novos, belos e brilhantes.

Uma mulher.
Que deseja e ama a mais de um.
Que não sabe mentir para nenhum dos dois.
E deixar tudo como está é o que ela quer:
Um comigo, aqui, um dia...
Outro comigo, acolá, depois.

Dois homens.
Não são objetos, não estão à minha disposição.
Talvez seja melhor ficar sozinha.
Ou não.


UM SALVE AOS ARTISTAS

Um mímico fazia sua performance em praça pública.
Uma cartola virada para cima, no chão, recebia trocados de quem apreciava aquela arte.
Um garotinho, acompanhado de sua mãe, se encantava com aqueles gestos e aquele corpo cênico:
A face pintada, conseguia expressar diversas emoções em tão curto espaço de tempo; sem dizer uma palavra, aquele mímico transmitia mensagens completas de alegria e amor.
Um homem bem vestido, com um jaleco branco no ombro e uma maleta na mão, passando pelo local, se encantou com a performance. Sem poder prestigiar a conclusão do número, ele depositou na cartola uma nota de 100 reais e, sorrindo, continuou seu caminho apressado.
O menino, que só tinha contribuido com uma moeda de 1 real, perguntou à mãe:
- Por que os médicos ganham muito dinheiro e os artistas não?
A mãe, com sua necessidade de ter todas as respostas prontas e inabaláveis, respondeu logo, sem pensar:
- Porque os médicos salvam vidas, filho, e os artistas não.
O menino ouviu as palavras de sua mãe intrigado e voltou o olhar, consternado, para o mímico em sua encenação maravilhosa.
Um velhinho, que estava ao lado da criança e ouvira todo o diálogo, com a permissão da sua idade avançada, se dirigiu ao garoto:
- Olha filho, artistas salvam vidas também. Artistas levam esperança, alegria, dúvida, reflexão, amor, saudade, para quem já esqueceu do que é feita a vida humana. Médicos fazem cirurgias no corpo, curam doenças do corpo, passam remédio para o corpo melhorar. Artistas fazem cirurgias na alma, curam feridas emocionais, passam energias coloridas para a mente melhorar.
- Mas por que artistas ganham pouco? - o menino insistia na indagação.
- Não é tão simples. O dinheiro é necessário para manter o corpo vivo na cidade, no caos. Mas artistas ganham muito, quando são reconhecidos pelo seu talento, quando são admirados e respeitados verdadeiramente pela sua arte. Alguns ganham pouco dinheiro, porque nós ainda achamos que o ser humano é feito apenas do seu corpo. Nós esquecemos que quem adoece primeiro é a alma: quando perde o encanto, quando perde a ludicidade, quando perde a ligação com a arte. - respondeu o velho, suspirando em paz.
O mímico finalizou sua apresentação. 
O menino chorou uma lágrima, sem saber ao certo o que sentia: mas sua alma estava vibrando.
Ele começava a entender a essência da sua vida.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

SUBLIMAÇÃO

Quando a gente está daquele jeito:
Calado por fora, gritando por dentro.
Querendo não dar vazão à emoção lancinante.

É aí que ocorre a sublimação:
A gente para, respira fundo, sente o oxigênio invadir o corpo
Sente a vida pulsar vibrante, sente que há matéria-prima
Para a obra de arte - É tempo de externar!

Escrevemos...
Rabiscamos...
Cantarolamos...
Ensaiamos arabesques...
Viramos cabriola...

Fazemos do corpo uma performance.
Não choramos feito psicopatas, não gritamos feito bandidos
Não matamos feito crianças, não ferimos feito loucos.
Damos vida a um poema, uma dança, uma canção...

Fazemos da dor um sopro de criação.
Esvaziamos, em parte - ou transmutamos-, o conteúdo do coração.
Ação sublime: arte!
Experiência somática: sublimação!


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

PERDI MEU CHÃO


Perdi meu chão.
Começou com um leve trincado debaixo do meu colchão.
Aos poucos, pisando com cuidado, percebi que estava todo solto.

Perdi meu chão.
Aquele que eu acreditava ser firme, estável, seguro e inabalável.
Me expôs ao desconforto de ter que me alojar em outro lugar.
Me colocou em risco, me deixou trêmula e traumatizada.

Perdi meu chão.
Tudo o que era sólido até ontem, se liquefez.
Minhas porcelanas se espatifaram.
Estou pisando em cacos.
Sou cacos.
Sou caos.

Perdi meu chão.
Para refazer meu caminho.
Para trilhar uma nova caminhada.
Vou escolher uma outra cor de piso.
Vou reaprender a não me assegurar de nada.
Quero perder o chão todos os dias
E ser verdadeiramente livre na estrada.


(Poema inspirado em um fato verídico, metáfora elaborada com ajuda da minha irmã Samara Coelho)

terça-feira, 18 de novembro de 2014

NÃO SABE O QUE SENTE


Prolonga um beijo, com os lábios repousados nos meus
Me abraça, me cheira, me intima à intimidade
Deixa os olhos fechados, peço que os abra
Paramos um no outro
E rimos da gente

Então, vem a conversa.
Expresso em palavras o que se passa em meu ser
Exponho como estou vivenciando esse nosso afeto novo
E não espero reciprocidade, de verdade
Sei apenas que gosta de mim
E isso me basta

Mas insiste em me dizer que não se entende...
Que está numa fase difícil, que a mente está confusa
E às vezes age sem pensar, apenas quer estar comigo
Mas não sabe o que sente.

Não se esquente com isso!
Eu sei o que eu sinto, amor.
Estou ciente da sua insensibilidade aparente.
Daremos tempo ao nosso caso,
Por um acaso, nos esbarramos.
Não espero que me ame em apenas um mês.
Não se atormente...
Quando for a hora, saberá o que sente.

É TER NA MENTE VOCÊ


De todos os poemas que já te escrevi
E de todas as canções que a ti dediquei
Esse é um caso diferente.

Esse é um daqueles que a gente tenta expressar o que sente
E não consegue, por mais que se procure rima rica, métrica certa
Aí o olho rola umas lágrimas...
Aí o coração dispara num lapso e bate uma saudade...
Aí a mente lembra de tudo o que se foi vivido...
Vem uma felicidade banhada em nostalgia.

Quero deixar o passado lá atrás:
Porque foi lindo, limpo e legítimo.
Quero deixar o presente ser o que é:
Dádiva e vida viva.
Quero nem pensar em futuro:
Esse que está além das nossas mãos.

De todos os poemas que já te escrevi,
Esse fala de uma outra forma de amar.
Uma outra mulher, agora amiga-irmã,
que sente saudade e quer te ver feliz.

De todas as canções que a ti dediquei,
Faria hoje uma balada alegre,
Para sentirmos, os dois, a plenitude
desse nosso elo fraterno.

Esse é um caso diferente.
''Ex-amado'' é exagero!
Amigo, irmão, companheiro.
Tenho você no coração e na mente,
E em cada sílaba dos meus poemas corriqueiros,
Eternamente.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

NA BEIRA DO CAIS

Não sou moça de cais
Mas tenho uma paixão
Um moreno manhoso
Roubou meu coração

Odoiá minha mãe
Guarde o meu xodó
Se se perde no mar
Eu ficarei tão só

De oferenda eu devoto
Muita renda e perfume
Tua filha já sou
Não lhe faço queixume

E então eu percebo
Como sopra o vento
Como surge o sol
E ao mar eu me rendo

Vem uma onda no mar
No barco um pescador
Leva embora a saudade
Devolve o meu amor

(Samba de roda composto por mim para apresentação de uma performance artística na faculdade.)


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Siomara: Desde 1986

28 anos... Estou entrando no meu quinto setênio.
É uma fase de profundas mudanças, amadurecimento.
Estou tão ''senhora de mim'', dona das minhas escolhas,
honesta comigo mesma, seguindo minhas intuições e vontades verdadeiras,
que já me sinto realizada na vida.
Não, não tenho uma carreira profissional definida,
não plantei uma árvore - mas cultivo algumas flores! -
nem fiz um filho ainda!!!
Mas estou realizada no meu agora, presente.
Agradeço a mim mesma por ter tomado as decisões que tive nesse ano de 2014.
Abri mão do que era ''seguro e estável'', mas que me fazia mal,
e me joguei nas experiências desconhecidas do devir.
Estou me amando mais.
Me alimento melhor, como menos carne, tomo menos leite e café.
 Evito refrigerantes, doces e frituras.
Sai do sedentarismo. Estou dançando com frequência e me exercito de formas variadas.
Sai da casa dos 3 dígitos - de novo!
Dessa vez, sem a pressão obstinada de emagrecer por estética, e sim pela saúde!
Estou menos ansiosa. Respiro melhor, com mais frequência, ''pelo abdomem''.
Estou aprendendo coisas novas: canto, violão, danças, artes...
Conheci muita gente boa, com mente aberta, com alegria de viver, confrades artistas!
Meu círculo de amizades está maior, mas mantém a qualidade: só gente do bem,
de coração livre, de abraço forte e riso solto!
Agradeço ao Universo, a Deus, ou a qualquer símbolo de superioridade e imensidão que a minha mente inferior não consegue atingir.
Agradeço a mim mesma por me permitir.
Agradeço eternamente aos meus pais, que me deram a oportunidade de um encarnação repleta de amor, de carinho, de dedicação por parte deles: são meus anjos encarnados, meu amor maior e inquestionável! E a minha irmã que é meu amorzão também, que me inspira e me ajuda tanto! Agradeço aos meus amores, minhas paixões...
São tantas razões para que eu me sinta repleta, plena, realizada, porque sou cercada de maravilhas e isso é a maior riqueza: sou cercada de amor!!!
Espero estar também difundindo esse amor que há dentro de mim... A cada sorriso, gargalhada, abraço, dança, que eu manifestar, quero que uma porção mágica dessa gratidão, desse amor cósmico, invada a atmosfera e preencha os espaços, causando explosões de felicidade.
O sentimento de hoje é GRATIDÃO.

sábado, 1 de novembro de 2014

SOU POETA


Me quero poeta.
Sim, essa é a forma correta.
Não me queira poetisa,
Nem me queira feminista!
Só acho que poeta não precisa:
De gênero, de raça, de sexo...
De tamanho, de crença, de nexo.

Eu, poeta, poetizo uma dor.
Ela, poeta, poetiza o caos.
Nós, poetas, poetizamos
Fagulha, fécula, pólen e sêmen.
Onde você vê apenas pó,
Vemos pó e cia: poesia.

E, nessa dança herege
De palavras em transe
E desinências em harmonia,
Vejo surgir o poema!
Essa é a minha forma concreta.

Não me queira poetisa.
Sou poeta.
E a minha alma
É poesia.




(Poema dedicado a todas as mulheres que escrevem e se deliciam nessa arte das entrelinhas! Inspirado na mais nova poeta do meu círculo social, Milena Rhumas.)

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Experiência somático-performativa


Estou leve.
Livre da prisão da visão.
O toque despretensioso e impessoal liberta.
Transpiro. Me excito. Sou fluída.
Me arrasto, me entrego, me deixo ser: tocada, sentida, esmagada...
Sem pensar, sinto os cheiros do corpos, ouço a vibração dos meus semelhantes...
Respiramos o mesmo ar: estamos ligados pelo cosmos etérico.
Sou poeira, cabelos e suor.

Estou vibrando.
Livre da prisão do julgamento.
O movimento desprogramado e espontâneo liberta.
Transpiro. Me excito. Sou fluída.
Me movo, me balanço, me deixo ser: vista, parte, incorporada...
Sem pensar, vejo os movimentos dos corpos, ouço a vibração dos meus semelhantes...
Respiramos o mesmo ar: estamos ligados pelo movimento do universo.
Sou estrela, nervos e pele.

Siomara Coelho



(Sobre a aula de Ação Artística II, do curso do BI de Artes, ministrada pelo prof. Doutor Leonardo Sebiane. Aula maravilhosa: uma aventura de autoconhecimento, sensibilidade, humanidade.)

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Ecos de nada

Acordar à tarde
e sentir que ainda é cedo,
que o tempo se prolonga,
e me convencer a me iludir...

E tomar café frio,
com gosto insosso de silêncio,
de ausência de sentimentos,
e me sentir no meio de um deserto...

E ouvir ecos de nada
dentro do meu ser vazio.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Sou toda Amor

Sou toda amor.
Solta no mundo,
Amando a tudo que o compõe.

Sou toda amor.
Soltando afeto,
Abraçando o mundo onde estou.

Sou toda amor.
Soando afag
os,
Rasgando roupas,
Suando em transas,
Conjugando o verbo amar.

Sou toda amor.
Não há metade de mim.
É tudo ou nada amado.
Se não for com amor, nem é.

(E até quando não é amor, é Amor.
Sim, pois é sem esse amor - de posse, de prisão, de gerenciar a vida alheia-
que se ama com liberdade!)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Há braços

Se há braços, abraço!
Tenho esse direito, não é!
Mas algumas línguas ferinas dirão que eu não presto,
Farão fofocas, dar-me-ão epítetos depreciativos:
- Messalina é pouco...
E desejar-me-ão queimando em alguma fogueira inquisitória!

É porque eu sou assim:
Se eu amo, eu expresso:
Abraço, declamo, canto, danço...
Me exponho, me entrego!
E com @s amig@s sou bem assim:
Agarro a todo instante, como se pudesse mantê-los
sempre pertinho de mim...

Pode haver nesse ato uma vontade velada
de antropofagia afetiva (seja lá o que isso queira dizer)...
Mas não me julgue só porque você não tem a felicidade
de receber um caloroso abraço meu...

Quando há braços abertos, abraço sem pudor!
Tenho essa necessidade!
É uma troca justa e pura.

E você que vê de fora, desconstrua seu machismo pseudo-moralista,
se permita aproximar de outro ser humano sem o crivo das intenções
meramente sexuais...

Se há braços abertos para mim,
Eu abraço com o coração!




terça-feira, 27 de maio de 2014

Uma noite achada... (a gente só perde quando dorme!)

Não dormi.
Tomei café e fiquei acesa.
Fiquei louca. Virei zumbi.
Em casa, ia de uma janela gradeada à outra,
qual leoa enjaulada, ansiosa, querendo caçar,
querendo devorar alguma presa...

Deitei.
Não dormi.
Virei-me, revirei os lençóis.
Os travesseiros.
Tirei a roupa.
Tentei.
Nada.

Levantei.
Peguei o fumo de enrolar.
Fui para a janela menos observada do cubículo.
Fumei um cigarro amargo,
tal como as 4 horas de uma madrugada infinita.

Comecei.
Observei a pureza.
A cidade fica encantadora quando todos dormem!
O cheiro é calmo.
Não há medo.
Às 4 horas da manhã, tudo é puro e natural nas ruas
de São Salvador da Bahia.

Decidi.
Resolvi apreciar o nascer do Sol (certamente não haverá ônibus mais tarde,
vou ver o movimento então...)

Comi uma maçã.
Já eram 5 horas.
Uma surpresa: Os galos ainda cantam por aqui (em algum terreiro)!!!!!
Estava ansiosa para ver gente passar: os primeiros bravos guerreiros
do capitalismo selvagem.
Uma senhora subiu a rua com seus sapatos sonoros.

Tirei.
Fiz algumas fotos do meu infinito particular matinal,
com a câmera vagabunda do meu celular...

Pensei em como sou triste
e solitária
e insana.

Arquitetei mais um dia de dieta seguida à risca.
Imaginei a perfeição em meu dia-a-dia.
Me desiludi de imediato!

Às 6 horas, já estava tudo engarrafado lá embaixo.
Sem buzu, mas com muitos carros vorazes e furiosos.
Agora escrevo, de virote, sem preocupação gramatical ou literária.
Leia-me desse jeito, porque é assim que estou agora.
Descabelada, exaurida, insone, com a mente fervendo de aleatoridades...
E eu achava que era livre...
Tsc...
Nada foge ao cotidiano.

E assim termina-começa meu dia!
Bom dia.

domingo, 27 de abril de 2014

CASUAL

Olho em seus olhos.
Falo em seu ouvido.
O que mais poderia te seduzir?

Olhos.
Falo.
O que mais poderia me atrair?

Rio.
Luto.
Há outra maneira de mostrar certa resistência?

Dispo.
Espero.
Começo a sentir vergonha e medo.

Toco.
Sinto.
Percebo que me apropriei do momento.

Beijo.
Lambo.
E já não há tanto pudor em mim.

Deleito.
Entrego.
Consegui afastar do agora a ''moral e os bons costumes''.

Demoro.
Prolongo.
Quero que dure, quero - que duro! - ,
quero - que dura -!

Fluo.
Fruo.
Está chegando a hora de morrer aqui.

Espasmo.
Amorteço.
Gozo antes de ti e ainda te sinto em minhas carnes.

Sacio.
Paro.
E quero descansar para outras lidas mais tarde.

Olhos.
Falo.
Por que agora sinto uma repulsa?

Rio.
Luto.
Você não tem culpa. Tem?

Visto.
Vou.
Não sei se volto.

Adeus!



terça-feira, 15 de abril de 2014

FLUIR PARA FRUIR

Deixar rolar, falo – ou melhor, digo isso – para poder exercer as maravilhas de estar vivente – não, não quis o gerúndio, quis o adjetivo mesmo, a qualidade do que vive...
Bem, agora parece confuso, né!

Deixe-me explicar com mais leveza:
Dá pra gozar sem relaxar?
Podem até haver muitas maneiras de se atingir um ápice, um pico, um climax.
Mas todas elas são marcadas pela qualidade líquida dos fatos e emoções.
Sendo assim, para ser deveras prazeroso, qualquer ato deve ser balizado – ou melhor, perpassado – pela fluidez.
As energias precisam circular, o ar precisa entrar e sair, entrar e sair, entrar e sair... sem cessar!
Isso é fluição!
E mesmo que haja obstáculos – rochedos, crivos pseudo-morais, congestão – o que é para ser fluido passará, tomará seu caminho e atingirá o topo: o momento do regozijo. Isso é fruição.

Deixar fluir para poder fruir.
Pode parecer trocadilho medíocre, clichê, mas se faz necessário ratificar!
Usualmente estamos tão preocupados – presos, estagnados, impregnados de ideias fixas, auto-imagens ilusórias e desejos de aceitação externa – que não conseguimos, ao menos, respirar plenamente! Não permitimos o fluxo de algo que determina nossa qualidade de vida: nossa (in)expiração.

Daí vem a necessidade de deixar fluir...
Deixar fluir o stress – que ele passe e siga, que não se prenda em algum recôndito da nossa mente nem insista em nos fazer companhia!
Deixar fluir a raiva – que ela venha como tempestade e que saia em forma de grito ou lágrima... e que não vá muito além disso, por favor!
Deixar fluir a tristeza – que ela venha pesada e lancinante, dure o necessário e se transmute assim que amanhecer.
Deixar fluir a preguiça – que venha aos domingos e às segundas-feiras, que não seja mais austera do que nossa vontade de ir à luta.
Deixar fluir o afeto – que ele se expresse em sorrisos sinceros, abraços apertados e elogios espontâneos... e que não seja mal-interpretado!
Deixar fluir o prazer – de ouvir uma boa música, de dar gargalhadas quase infinitas, de comer coisas deliciosas, de fazer estripulias marotas, de transar e transcender, de atingir esses orgasmos múltiplos; e que nada disso incomode aos outros entes.

Relaxe e goze a vida.
Flua e frua.
(conjugue assim mesmo!)
O ''L'' é líquido. O ''R'' é rijo.

E eles são interdependentes.  

quarta-feira, 19 de março de 2014

A HORA DA ESTRELA: das Macabéas às Cláudias Ferreira

Está ali, virou estrela
Corpo estendido, estampado no jornal
Mas que ironia, que desventura!
Virou notícia na página policial

Foi baleada, presa à viatura,
Atropelada, arrastada pelo chão
Mas por ser negra, pobre e leiga
A TV não lhe deu a devida atenção!

Viveu a vida só de labuta,
Limpando as sujeiras da desigualdade social.
''Trabalho digno'' - é o que eles dizem-
Pra mim, Dignidade representa muito mais!

A cartomante lhe alertara
Que a sua vida em breve iria mudar
E uma viagem para bem longe
Seria feita e a faria brilhar:

[Aconteceu com Macabéa
Nordestina ''invisível'',
inseminada de esperança,
grávida de futuro,
atropelada pelo Poder.

Com a Cláudia foi diferente
Roubaram-lhe a vida,
 mandaram-na para longe,
sem ser avisada previamente.

Logo ela, que tinha vidas para alimentar,
Caiu ao solo atingida pelos tiros,
Enquanto andava pela rua
com o dinheiro do pão.]

Ela é brasileira, virou estrela
de um jeito fatal e desumano
Melhor seria não ter ido à cartomante
e continuar sustentando as mentiras
desse sistema capital.

Sua estreia teve repercussão
Apontou a bestialidade e o caos
em que está nossa sociedade.

Está ali, virou estrela.
Mas nesse plano ela não brilha mais.



-  Siomara Coelho

(Meus sentimentos à família da senhora Cláudia Silva Ferreira e a todas as vítimas da violência urbana.)



segunda-feira, 17 de março de 2014

Intertextualizando o Amor

Amor é fogo que arde.
Arde...
Arde...
Mas não precisa queimar!

Queima por dentro, intrínseco.
Mas não precisa doer!

Amor é um contentar-se...
Alegre,
Tranquilo,
Pleno.

E não dói. Não dói mesmo!
É só amor, é só amor.
E, por ser amor, basta a si mesmo
Sem contraponto, paradoxo, antítese...

Amor perfeito: com tudo sintetizado nele mesmo.
Amor, onde todas as coisas se encontram
Se fundem e se transformam.

Amor é fogo.
Que arde, purifica, transmuta,
Invade a vida com possibilidades...
Amor é fogaréu...
E arde sempre.