segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Trecho do Memorial (mostra performática "Rizomas")

Tocha acesa. Chá de camomila. O Vestido branco da minha mãe. Banho de bacia. Abebé. Eu-Corpo. Reflexo. Vergonha. Auto-rejeição. Medo. Dores. Culpa. Grito. Lágrimas. Águas. “Onde está o seu poder, mulher?” Oxum convoca. O olhar polissêmico do público. “Onde está o seu poder?” Que corpo é este, que sabe gozar, que sabe criar, que sabe parir, que sabe nutrir, mas duvida dos seus saberes? Onde está o seu poder de se mostrar?
Me lavei diante de estranhos. Tirei o vestido e mostrei minhas formas excedentes, barriga, coxas, estrias, flacidez, celulite... Um corpo marcado pela obesidade. A gravidez também modificou este corpo. A vida faz isto com os corpos, erosão. Me olhei no espelho de Oxum e Ela me ama como sou... Ela me põe no colo quando eu choro. Ela vê beleza em mim. Ela me convoca a ver esta beleza também! E veio a culpa por ter sido tão dura comigo mesma por tantos anos, por não ter me amado o suficiente e por ter permitido que outras pessoas também me ferissem,  porque eu não me sentia merecedora de amor, de respeito, de cuidado. Autoestima baixa é um instrumento de autodestruição poderoso. E por muito tempo enfrentei crises depressivas por conta desse paradigma mental limitado, por achar que a beleza só se encontrava no padrão vendido pelo mercado.
Me lavei, me despi e me vesti com as cores da minha mãe Iansã. Naquele momento, eu já não sentia mais vergonha, nem medo, nem auto-rejeição. Ali, me entendi como corpo no mundo, como sujeito da minha história, me senti forte para enfrentar meus desafios, sem precisar da aprovação de ninguém: era eu comigo mesma. Atingi um estado de expansão de energia e percepção que só conseguia ter nos meus rituais com Ayahuasca. Eu não queria saber o que o público achou, eu não queria ouvir comentários, as críticas poderiam surgir, mas não poderiam tirar a importância do que foi aquele rito para mim! Foi como um batismo para minha vida artística, onde eu mesma fui a benzedeira.
Performance "Onde está o seu poder, mulher?"
Mostra Rizomas, Geodésica - UFBA. Em
 14 de dezembro de 2018.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

CAMINHANTE


De repente, parei.
Algo no meio da estrada
Forçou-me a parada,
Não pude mais andar.

Estática fiquei.
Algo além me convocava!
Não sabia o que procurava, 
Temia avançar em vão.

No meu caminho,
Tinha barro e asfalto
Tinha poças e buracos,
Rachaduras pelo chão.

Bem no meio, encruzilhada,
Tinha fome e sede 
Tinha morte e medo,
Devaneio e solidão.

De súbito, me dei conta.
Eu precisava continuar!
Ninguém mais podia trilhar
O caminho que era meu.

Percebi, quase inocente,
Que nenhuma lei existente 
- De gravidade ou governança -
Podia me coibir nessa andança.

Só uma implosão poderia 
Mover de volta meu corpo
Pois, enfim, reconhecia 
Com todo peso e desgosto,
Que a pedra era eu.


sábado, 8 de dezembro de 2018

Mãe Solo


É chão de terra batida mesmo,
Sob uma casinha de sapê

É campo arado, para o cultivo diário
Da cria que se cria sozinha

É planície árida, com rachaduras
E cactos em flor

É estrada de barro que se caminha
Com lata d'água na cabeça

Dá a vida
Se vira
Se doa
Dói

Pedregulhos
Precipícios
Latifúndio...

Limites
Barreiras
Fronteiras:
Mãe Solidão.

Eu e Sophia,  na minha aula de "Teatro, rito e performance", na UFBA