Com uns 4 anos, eu morava na rua Dom Eduardo, perto da casa da minha avó paterna, na Santa Rita. Me lembro de muita coisa dessa época. O nosso apartamento era no subsolo e o corrimão parecia uma escorregadeira gigante de concreto. Eu sempre tive vontade de escorregar ali, mas meu pai proibiu, porque era perigoso, e eu não o desobedecia. Havia um garoto albino na rua, o Galego, e ele adorava ir brincar lá comigo e minha irmã. Uma vez ele apareceu com um brinquedinho diferente e eu achei tão legal que peguei e escondi. Ele foi se queixar à minha mãe e ela prometeu que resolveria a situação. Ela conversou comigo -eu me senti num julgamento que durou horas- e eu menti. Depois ela encontrou o brinquedo que estava muito mal escondido e eu acabei confessando. Ela me fez pedir desculpas a Galego e devolver o brinquedo. Aquilo foi importante demais: ela não brigou comigo, apenas explicou que o que fiz era errado e eu precisava corrigir aquilo. E tudo se resolveu e Galego voltou a brincar normalmente comigo. ... Nesse edifício havia uma garota da mesma idade que eu, a Paulinha, e eu achava ela linda por causa dos cabelos lisos! Havia uma menina loira também, cujo nome não recordo, mas minha amizade maior era com Paula. Uma vez, eu e ela fomos até o último andar do prédio, onde moravam uns "japoneses". Estávamos com muito medo dessa travessura, porque Paulinha disse que o japoneses comem de tudo, cachorro, grilo e até crianças. Queríamos bisbilhotar a casa deles. Mas não tivemos coragem. Descemos as escadas correndo, ao ouvir as vozes deles se aproximando. Eu gostava de ficar na varanda do andar de Paulinha, que era no alto e dava para ver a rua toda. Me lembro de uma noite em que estava lá com ela, brincando, e ouvi em algum rádio a música "All that she wants".
Nessa época, o momento mais feliz já eram as férias da escolinha, sim! Porque íamos à ilha de Itaparica - ou, como eu costumava dizer, "ilha de tia Gil" - e ficávamos na casa da irmã de meu pai, em Ponta de Areia. Aquela casa era um paraíso para mim: era enorme, dava para brincar de correr e tantas coisas criativas! E tinha tantas Mangueiras por todo o terreno... e pés de pitanga, caju e araçá! Eu, minha irmã e minha prima, ficávamos o dia inteiro esperando o momento de ir à praia, e enquanto isso não acontecia, as árvores eram meu playground. Eu era uma criança gorda que subia em árvores! Passava horas brincando sozinha, inventando estórias, conversando com amigos imaginários! (Eu fui uma curumim de apartamento. Minha alma é das matas, mas meu corpo foi colonizado e adestrado para viver em caixas de concreto.)
Quando vim morar no Vila Verde, já tinha uns 6 anos e meio. Lembro do dia em que meu tio Zé veio instalar os últimos detalhes da parte elétrica do apartamento, antes da nossa mudança: aquele espaço todo vazio não me parecia em nada com minha casa. Eu olhava pela janela, via aquela ladeira infinita, nem sabia como tinha chegado ali. Parecia tão irreal, me sentia sonhando. Eu não queria sair da Dom Eduardo. Eu não queria me afastar da Paulinha, eu gostava dela, tínhamos planos para colocar em prática, e tínhamos o mistério dos japoneses para resolver.
Mas nos mudamos em 1992. Lembro dos meus primos adultos, por parte de pai, ajudando na mudança que foi feita na caminhonete de tio Jó. Lembro do meu primo André - que Deus o tenha! - sorrindo para minhas traquinagens: eu me embolando dentro de um balde de plástico gigante. Me embolei tanto que o balde se partiu. Eu já era uma criança gorda.
Essas são algumas memórias recorrentes, as mais vivas em mim. Existem muitas outras! Tive uma infância muito feliz! Tive meus traumas também, pois a dinâmica familiar não era muito harmoniosa, e a sociedade não era tão afetuosa com uma menina gorda do cabelo crespo. Mas fui criançona mesmo: ingênua, espontânea, criativa, sorridente, dançarina...
Que eu possa resgatar essa criança, cuidar dela em mim, mantê-la por perto, principalmente, quando estiver brincando com minha filha. Me pergunto agora sobre a qualidade de memórias que estou dando a Sophia. Que tipo de mãe sou para ela? Espero estar cada vez mais cônscia dos meus desafios internos e ter mais controle sobre meus impulsos agressivos. Que essa maturidade que vem, me permita ser melhor para a minha filha, que eu consiga ter a ternura que meus pais tiveram comigo, que eu não surte tanto na frente dela, pois ela não precisa desse peso. Que eu me doe um pouco mais a ela, a cada dia, porque ainda acho que é pouco. Passa tão depressa... Já são 31 anos os meus...
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