Crenças odiosas sobre estética
Vendaram meus olhos
Diante do espelho:
Não quis me ver
Não me quis bem
Só me quis mal
Me quis outra.
Era uma barriga caída
Seios murchos e flácidos
Celulite e estrias por todo lado
Difícil querer enxergar
Um corpo torto,
Um corpo estranho,
Quase um corpo queer!
Foram 30
Os anos que passaram
De olhos vendados para mim,
Fugindo da autoimagem criada
Por um conjunto de discursos
Do que é belo e do que sou eu.
Um espelho em cada cômodo,
Para garantir o incômodo
E me manter aprisionada
Na fissura pela capa,
Escrava do que acham - acho - de mim.
De súbito, mas não tão de repente,
Em uma obra de desconstrução
Processual e onipotente,
Desatei o nó
Do meu auto-desamor.
Desvendei-me perante a mim
Despi-me totalmente.
Foram alguns segundos de ojeriza
E outros tantos de surpresa descoberta
- Prazer, essa sou é você.
Crenças odiosas são rentáveis
E são fáceis, convincentes
Levo os dedos treinados e ágeis
Para desvendar agora e sempre
Cada crençazinha que apareça
Na tentativa de me furtar novamente
A estima por mim mesma.
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