Entrei no Vila Velha ansiosa. Cumprimentei a querida Onisajé, diretora artística do espetáculo, e sentei na primeira fileira, me sentindo como uma menina: estava encantada com a beleza do cenário. O elenco já estava posicionado, entoando sons, como um lamento, um chorinho manhoso de menina-moça ou um sussurro doído de deusa-mulher.
Com o público todo acomodado, as luzes indicaram que a viagem para um mundo mágico estava prestes a começar. Os atores cantavam e saudavam ao que me pareceu Exu, pedindo agô, permissão, abrindo os caminhos para a passagem da yabá das águas doces. Oreyê yê! E ela chegou com firmeza nos passos.
"Quem escreve com líquido sou eu!"
Essa frase cantada tantas vezes, como um mantra de um poder feminino ancestral, me hipnotizou. Fui mergulhada nas águas cintilantes das 4 facetas de Oxum que se apresentaram essa noite.
Dialogando com seus pares masculinos, cada aspecto de Oxum trazia uma qualidade diferenciada no temperamento, na atitude, contudo, sempre amorosa, bela e altiva. Oxum Opará – Justiceira e guerreira; Oxum Okê – caçadora; Oxum Abotô – relacionada ao parto e ao nascimento e Oxum Ijimu, a feiticeira e senhora da fecundidade. (Retirei essas informações da sinopse.)
"Qual o seu poder, mulher? Onde você seca?"
E ela decretou estado de greve geral: tudo o que for líquido no mundo secará, enquanto o masculino não aprender a escutar. Escute, homem, escute!
Oxum convocou a humanidade, para olhar com respeito e empatia o sagrado feminino que reside em cada mulher, em especial, para a mulher negra, que está no grupo minoritário de maior risco e com altos níveis de feminicídios registrados.
Oxum propôs uma mudança genial na língua portuguesa, em que todas as palavras terminariam com a desinência feminina, pois o mundo surge da mulher e nada mais justo seria dar a ela as honras devidas. Personificada na figura de uma mulher negra acadêmica, sendo avaliada por uma bancada toda composta por homens, essa faceta de Oxum questiona o machismo e o racismo institucionais presentes em toda a estrutura social vigente, com um toque de humor sagaz que arrancou gargalhadas da plateia.
Houve espaço até para o uso da metalinguagem, em uma crítica sarcástica ao complexo vira-lata da tradição teatral na Bahia, ao costume esnobe de enaltecer o teatro europeu e torcer o nariz para o teatro preto produzido aqui. Aquela estória de que santo de casa não faz milagre! Mas o NATA fez o milagre da magia acontecer em Oxum e não deixou nada a desejar.
Outra Oxum, a pagodeira que usa shortinho curto "sim, sim, sim, sim", enfrentou a violência doméstica e o assédio sexual dentro e fora de casa. Colocou o dedo na cara do seu opressor e declarou que não tem medo!
Oxum Ijimu falou também do amor de mãe, amor incondicional, que não julga as escolhas de nenhuma mulher. Ela contou histórias daquelas que precisaram "devolver ao Orum o ser que estava no ventre", devolveram por amor, sempre é por amor. Essa cena tem total relação com essa pauta tão atual nas discussões políticas que é a legalização do aborto, porque, em última instância, quem morre diariamente com abortos clandestinos no Brasil são as mulheres pretas e pobres.
A peça traz um aspecto musical belíssimo, com releituras dos cânticos sagrados do candomblé. A cantora Joana Boccanera está o tempo inteiro no palco, posicionada no ponto mais alto do cenário, como uma Deusa anciã, ao pé de uma "mulher-árvore" milenar, responsável pela musicalidade do espetáculo.
Ao final, Oxum Opará convoca a todas e todos para estarmos juntos, unidos! O mundo sem água não floresce. O masculino sem o feminino adoece. Esses dois polos de força precisam viver em respeito mútuo, cada um no seu sagrado, se equilibrando para manter a magia da vida acontecendo. Escute, homem, Oxum convoca para o equilíbrio!
Sem dúvida, Oxum foi uma das peças mais encantadoras que vi esse ano! Linda em todos os aspectos: texto, figurino, cenário, luz, música, elenco. E a criticidade na abordagem de temas tão sérios e polêmicos não pesou nem soou panfletária, ao contrário, veio como um tapa seco, suavizado logo em seguida por um banho de cachoeira.
As provocações de Oxum entraram direto no inconsciente de quem teve a oportunidade de assistir ao espetáculo e, certamente, saiu de lá transformado. Eu tremia de emoção, minhas mãos estavam geladas! Foi muito gratificante ver tantas mulheres parecidas comigo personificando uma Deusa! Tudo vibrava na frequência dourada da beleza e altivez dessa yabá tão adorada!
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SIOMARA DIAS
- Formação em Letras Vernáculas com Inglês e estudante de Artes Cênicas, pelo Bacharelado Interdisciplinar. Escreve poemas e outros devaneios em seu blog InExpiração. Mãe de uma menina de 2 anos e meio, concilia suas demandas artísticas e acadêmicas com as inúmeras pausas para conversas sobre palhaços e animais .

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