sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Percepções de Medéia Negra: Uma tragédia atemporal.


Antes de entrar no auditório do Espaço Cultural da Barroquinha, o público recebeu a orientação para se dispor da seguinte maneira: gênero feminino à esquerda, masculino à direita. Escolhi um assento no lado indicado e fiquei imaginando qual seria o objetivo daquela formação da plateia. Seria uma questão de equilibro energético,  algo metafísico?  Remeti subitamente aos grupos de Santo Daime que fazem esse tipo de divisão em seus ritos espirituais.

Enquanto os espectadores entravam e se acomodavam, a trilha sonora era "Exu nas escolas" de Elza Soares, e esse aperitivo já me deixou com o estômago embrulhado,  na ansiedade do que estava por vir. Eu sentia uma energia diferente no ar, como se eu estivesse prestes a ser empurrada de um precipício. Após os informes iniciais, blackout. Eu olhava na direção do palco, esperando o surgimento da nossa heroína trágica. Mas ela surgiu pela porta de acesso da plateia!

Apareceu como uma entidade, entoando sons perfeitamente afinados, trazendo nas mãos pratos nagé em chamas. Então começou sua epifania. Se apresentou, num estado corporal de ser mítico: uma deusa, uma louca, uma feiticeira? Andava lentamente, ora se arrastava, ora parecia flutuar. O vestido todo preto, com cauda longa, e o corpete de couro, a maquiagem preta e bronze, e uma pintura em branco que parecia um dos dispositivos de tortura facial usado na escravidão no Brasil, conferiam à figura da Medéia Negra um aspecto poderoso de magia, mistério, dor e força.

Gritos horrendos saiam de seu corpo, iluminavam a cena e arrepiavam meus poros. Posicionada próximo à plateia feminina, Medéia confidenciava suas estórias: a tragédia da princesa grega, que não mede suas ações em prol do homem amado; e a da mulher negra, periférica, lésbica,  trans,  todas que tiveram uma trajetória marcada por subjugação, violência,  estupro, morte. Assim, Medéia sangrou por entre as pernas, retirando de seu ventre memórias de dor, se curando de abusos e feridas ancestrais, em nome da própria atriz Márcia Limma.

Cantando todo tipo de violência contra as mulheres, todo  sofrimento causado pelo sistema econômico vigente, a Medéia ébria lamentava, praguejava, se justificava, chorava, babava, desdenhava dos homens em sua macroestrutura, o patriarcado. Quase toda sua relação com o público masculino tinha um tom de deboche, mágoa, ira e ameaça. "Marielle está aí?", ela perguntou a um rapaz.

A Medéia abandonada por Jasão, depois de tantos sacrifícios para ajudá-lo em suas ambições, encontra na morte dos seus próprios filhos a forma mais eficiente de arrancar aquele homem ingrato e desleal de dentro de si. A Medéia Negra, mãe e filha de todas nós, que sofre as dores de todas as mulheres, convoca o público feminino. "Levanta, mulher!" - bradou Medéia inúmeras vezes, até que uma se levantou, encorajando a todas para participarmos dessa cena final: Mulheres de pé, lideradas por uma Medéia Negra que bradava o enfrentamento e o fim do patriarcado.

A atriz Márcia Limma, uma mulher potente, com um trabalho indefectível de voz e corpo, deu vida a uma personagem clássica, - repaginada e atualizada - emaranhada com as questões que perpassam pela sua própria vivência. A polifonia do texto pode até confundir o espectador, pois as múltiplas faces de Medéia trazem diversos lugares de fala, abordando também a importância da ocupação dos espaços de visibilidade e poder por esses outros corpos.

Os gritos da Medéia Negra perfuraram meus tímpanos e ecoaram em minhas entranhas... Agora estou aqui, com os meus próprios gritos presos na garganta. Quero chorar, mas prefiro escrever.


(MEDEIA NEGRA é uma peça teatral produzida pelo grupo VilaVox, com direção de Tânia Farias.)

https://www.vilavox.com.br/medeia-negra
























SIOMARA DIAS
- Formação  em Letras Vernáculas com Inglês e estudante de Artes Cênicas, pelo Bacharelado Interdisciplinar. Escreve poemas e outros devaneios em seu blog InExpiração. Mãe de uma menina de 2 anos e meio, concilia suas demandas artísticas e acadêmicas com as inúmeras pausas para conversas sobre palhaços e animais .

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