segunda-feira, 15 de outubro de 2018

MEU GRITO, MEU DESABAFO

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah

Eu grito sim!!!
Não sei ao certo por que grito,
Só sei que sinto um misto
De confusão e desespero
De fantasia e solidão.

Aaaaaaaaah

Mas eu preciso organizar as ideias, para ser bem vista
Preciso criar algo novo, porque sou artista
E produzir superficialidades , porque o mundo é capitalista
Preciso alimentar o corpo, porque sou mãe
Preciso desaguar o pranto, porque sou mulher
E o fardo é pesado, para quem decide ser gauche na vida, tendo uma fenda entre as pernas!
Preciso respirar, pois só assim posso conversar com Deus.

Aaaaaaaaah

E o mundo não me concede o tempo necessário,
E como diria um poeta visionário,
Sendo o mundo um moinho,
Não deixa que eu desfrute das belezas do meu caminho

O mundo me esmaga com seu olhar de reprovação,
De maledicência, de maldição
O mundo abre a boca e os olhos para me dizer não,
Ele grita na minha cara
que este corpo preto e gordo não vale nada,
que esta mente de mulher letrada
Só entende de piegas alegorias e reclamação.

O mundo só enxerga quem tem a pele clara e serve aos deleites de quem aperta os botões da engrenagem atual.

Aaaaaaaaah

Mas o que importa o mundo lá fora?
Se aqui, dentro de mim, pulsa tão viva a voz ancestral!
Eu sinto tanta força e potência em meu corpo, em meu ventre, em meus fluidos...
Saliva, suor, sangue, gozo...
Minhas águas alcalinas pedem passagem,
Depois que Oxum me convocou para secar...
Ela me perguntou:
 Onde está seu poder, mulher?  É aí que tens de secar!

Então decidi escrever
E as palavras são cachoeira
E a minha boca é a nascente
E esse corpo sabe se banhar:
Eu existo.
Eu resisto!

E trago em minha face
A mesma arte que cantou Bethânia
Contudo, não me contento ao sorrir,
Quero gargalhar estridente, sem melindre ou infâmia,
Na cara grande e dura desse mundo cruel
Cada vez que ele disser "Não!" para mim.

Marielle Franco, presente!



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