sábado, 20 de outubro de 2018

Abraçar é um ato de coragem!

Parafraseando  Paulo Freire, em tempos de neo-fascismo, começo essa reflexão sobre a força política de um abraço, com uma indagação:  O que sentimos verdadeiramente ao presenciar duas pessoas se abraçando?

Sinto que sou contagiada por aquela atmosfera de afeto e me dá uma vontade de estar ali naquele afago também! Uma pontinha de inveja, de querer ter alguém para abraçar também... Sinto uma alegria pelos abraçantes,  esboço um sorriso discreto, tenho vontade de cantarolar.

Em 19 de outubro de 2018, eu abracei meus 13 colegas da turma de "Lab. de interpretação: teatro, rito e performance" por mais de 1 hora. Ofertei também Abraços a pessoas desconhecidas que manifestaram interesse. Explico: Fomos ao Shopping Barra, conhecido por ser um dos mais "elitistas" de Salvador. Nosso programa performativo era simples: Caminhar pelos 3 primeiros pisos do shopping; parar e olhar fixamente, por 1 minuto, ao encontrar com algum colega da turma; correr até a pessoa e abraçá-la por 1 minuto.

Meu primeiro objeto de Abraço foi uma colega que já estava em um abraço coletivo. Então,  quando corri para abraçar, me juntei ao grupo. Os transeuntes comentavam "Que Abraço gostoso!". Muitas pessoas sorriam, comentavam sobre aquele abraço. Nos dispersamos e a ação prosseguiu.

Eu parava, a uma distância significativa, fitando o colega e observando, com a visão periférica, a reação de espectador de jogo de tênis dos que estavam ao redor: pra lá,  pra cá,  pra lá,  pra cá - o que está acontecendo aqui? - correram, abraçaram - oxe! E sorriam, na maioria das vezes. Alguns eram indiferentes. Alguns torciam o nariz. Mas a maioria sorria, sim, pois as pessoas querem ser afetadas pela coragem de amar!

 Entreguei bilhetes com a frase "Amar é um ato de coragem" , do Paulo Freire, a 3 idosos. Uma delas me agradeceu muito, declarou que era o que precisava ver naquele momento e me pediu um abraço. Um senhor disse que meu gesto deixou os amigos dele com ciúmes,  porque não ganharam bilhete. As pessoas querem ser afetadas pela coragem de amar, sim!

A cada novo Abraço prolongado com os colegas, mais eu sentia crescer o potencial para amar dentro de mim. Não o amor romântico, nem aquele com interesses subjacentes, estou falando da forma mais sutil de amor que possamos contemplar com a nossa limitada intelectualidade: amor pela humanidade. Me pergunto se, caso um mendigo me pedisse um abraço, eu daria... Creio que naquele momento,  com aquele estado expandido de presença e atenção, sim, eu abraçaria um mendigo todo sujo! Eu estava em uma outra qualidade de ação, eu era um corpo disposto a abraçar, a afetar pela amorosidade, não estava aberta a possibilidade de recusar afeto. Performance é risco. Mas, como não havia mendigo dentro do Shopping Barra, abracei apenas idosos desconhecidos e uma moça que comentou "Parabéns,  viu, vocês estão conseguindo mexer com todo mundo!"

Comecei a notar que os seguranças me seguiam, talvez por eu estar com uma roupa toda vermelha, ao estilo hippie, com os cabelos crespos e volumosos soltos, aparentando nenhum poder de compra naquele local. Mas não era só a minha aparência que era perturbadora, a minha atitude era suspeita: eu estava parando, olhando e abraçando as pessoas. Eles me seguiram o tempo todo. Não só a mim, aos meus colegas também.  Eles passavam informação via rádio, havia uma tensão no olhar deles.

Relato agora o ocorrido com uma colega, em cujo bilhete além da frase havia escrito "Haddad sim": após abraçar a outra colega,  a moça entregou um bilhete para uma senhora que presenciou o ato. Quando a mulher leu os dizeres, ficou indignada e chamou dois seguranças para repreender minha colega, alegando que aquilo era um ato político. A resposta do segurança foi maravilhosa: "Senhora,  o que está escrito nesse bilhete fala apenas de amor. Não há nada de errado." A granfina se retirou indignada.

Ao final do experimento, nos reunimos na praça de alimentação e trocamos nossas percepções do acontecimento. O que chegou para todos foi a real sensação de ter transformado os sentidos de quem testemunhava os Abraços.
Sai de lá com a sensação interna de um poder transformador.

Abraçar é um ato de a coragem, principalmente em tempos de eleição, com candidato que faz discurso de ódio e segregação. Amar é um ato de coragem,  mesmo quando uma parte da sociedade parece estar cega, em sua bolha de egoismo e ilusão.


Ainda na UFBA

Após o experimento, no Shopping Barra.

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