Um mímico fazia sua performance em praça pública.
Uma cartola virada para cima, no chão, recebia trocados de quem apreciava aquela arte.
Um garotinho, acompanhado de sua mãe, se encantava com aqueles gestos e aquele corpo cênico:
A face pintada, conseguia expressar diversas emoções em tão curto espaço de tempo; sem dizer uma palavra, aquele mímico transmitia mensagens completas de alegria e amor.
Um homem bem vestido, com um jaleco branco no ombro e uma maleta na mão, passando pelo local, se encantou com a performance. Sem poder prestigiar a conclusão do número, ele depositou na cartola uma nota de 100 reais e, sorrindo, continuou seu caminho apressado.
O menino, que só tinha contribuido com uma moeda de 1 real, perguntou à mãe:
- Por que os médicos ganham muito dinheiro e os artistas não?
A mãe, com sua necessidade de ter todas as respostas prontas e inabaláveis, respondeu logo, sem pensar:
- Porque os médicos salvam vidas, filho, e os artistas não.
O menino ouviu as palavras de sua mãe intrigado e voltou o olhar, consternado, para o mímico em sua encenação maravilhosa.
Um velhinho, que estava ao lado da criança e ouvira todo o diálogo, com a permissão da sua idade avançada, se dirigiu ao garoto:
- Olha filho, artistas salvam vidas também. Artistas levam esperança, alegria, dúvida, reflexão, amor, saudade, para quem já esqueceu do que é feita a vida humana. Médicos fazem cirurgias no corpo, curam doenças do corpo, passam remédio para o corpo melhorar. Artistas fazem cirurgias na alma, curam feridas emocionais, passam energias coloridas para a mente melhorar.
- Mas por que artistas ganham pouco? - o menino insistia na indagação.
- Não é tão simples. O dinheiro é necessário para manter o corpo vivo na cidade, no caos. Mas artistas ganham muito, quando são reconhecidos pelo seu talento, quando são admirados e respeitados verdadeiramente pela sua arte. Alguns ganham pouco dinheiro, porque nós ainda achamos que o ser humano é feito apenas do seu corpo. Nós esquecemos que quem adoece primeiro é a alma: quando perde o encanto, quando perde a ludicidade, quando perde a ligação com a arte. - respondeu o velho, suspirando em paz.
O mímico finalizou sua apresentação.
O menino chorou uma lágrima, sem saber ao certo o que sentia: mas sua alma estava vibrando.
Ele começava a entender a essência da sua vida.
Ele começava a entender a essência da sua vida.
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