sexta-feira, 13 de maio de 2016

E assim Sophia nasceu... [Relato de Parto]

E assim Sophia nasceu...

Na manhã de 19 de abril, acordei com leves cólicas e comentei com minha irmã-doula, Samara. Ela me tranquilizou, avisando que poderia ser apenas o começo dos pródromos e que poderia levar dias ou até mais uma semana. Tentei, então, relaxar. Cochilei e acordei antes do meio-dia com uma cólica ainda mais forte. Senti que estava entrando em trabalho de parto, mas não fiz alarme. Fui para a bola de pilates, fiquei me movimentando para segurar as cólicas que vinham a cada 20 ou 30 minutos.

As horas foram passando e as cólicas foram ficando mais intensas. Naquela noite eu não consegui dormir. As contrações vinham a cada 10 minutos, durando cerca de 40 segundos. Minha irmã-doula me ofereceu a bolsa de água quente para aliviar. Bebi chá de camomila. Fiquei em posição semi-deitada e, a cada contração, eu me contorcia, tensionava outras partes do corpo, como forma de ''distribuir'' a dor. Samara me ofereceu outras terapias - massagem, ficar de cócoras, banho de água morna - mas eu só queria ficar ali naquela posição, sem interferências: eu sabia que aquela dor teria um fim maravilhoso!

Meu companheiro, Renato, também esteve presente o tempo todo, o que me tranquilizou emocionalmente e me deu mais forças para permanecer firme na minha escolha. Amanheceu, 20 de abril, e as contrações agora vinham a cada 8 minutos e a duração variava entre 30 segundos até 1 minuto. Renato oferecia massagem, mas isso me irritava e dava mais dor. Já não quis comer nada, tudo me enjoava. Bebi muita água. As horas corriam, mas para mim era uma eternidade e a dúvida se aquilo era trabalho de parto latente ou pródromos me deixava apreensiva e na dúvida se eu conseguiria suportar dores mais fortes.

Às 16h, eu já estava no ápice da dor e, a cada contração, eu dizia que não ia aguentar, que não queria mais parir, que iria a um hospital, que queria cesárea! Nesse momento, o papel da doula fez toda a diferença: Samara me fazia refletir sobre o motivo da minha escolha e a tranquilidade dela me dava mais força para continuar. Pedi para ir à casa de parto, pois sentia que estava perto de Sophia nascer. Nosso amigo Lalado gentilmente nos levou até o local. Durante o percurso, as dores pareciam mais intensas, eu achava que desmaiaria a qualquer momento. Mas segurei a onda - as ondas!

Chegando na Mansão do Caminho, esperamos bastante na recepção para que eu fosse examinada e tivesse resposta sobre o avanço do trabalho de parto. Fui atendida por uma enfermeira obstetra de mesmo nome que eu. Ela avaliou minhas contrações e julgou que eu não estaria em fase ativa de TP, porque, segundo ela, a minha ''barriga não estava ficando toda dura''. Ela não quis fazer exame de toque, para não me causar mais dor e incômodo. Ela recomendou que eu voltasse para casa, tomasse um banho e tentasse descansar. (Como??? Eu já tinha passado a noite anteior em claro de tanta dor!!!) Minha irmã ainda conversou comigo que eu deveria insistir que ela fizesse o toque, porque as contrações não são necessariamente iguais em todas as mulheres. Mas eu fiquei com medo de sentir mais dor e preferi confiar na palavra da profissional.

Enfim, voltamos para casa. Fui direto para minha cama, para tentar descansar. Não quis comer nem beber nada. Estava exausta. Em determinado momento, veio a próxima contração e uma vontade incontrolável de empurrar, fazer força, me invadiu. E eu comecei a empurrar. Eu gritava muito. Renato veio me auxiliar, me deu um pano para morder, fechou toda a janela do quarto, tentou me deixar mais a vontade. Eu sentia que Sophia estava querendo nascer naquele momento. Outra contração e eu forcei mais: senti o tão falado círculo de fogo! Sim, é de fato uma queimação! O colo estava totalmente dilatado! Eu dizia ''Sophia vai nascer aqui!''. Samara, que tinha saído com Lalado para comprar uma piscininha plástica para tentar aliviar minha dor, quando chegou e verificou a situação me mandou ficar de quatro apoios para eu segurar um pouco mais. Minha natureza pedia para expulsar e Samara me trazia para a realidade, avisando que o ambiente não tinha sido preparado para receber minha filha, que eu precisava esperar. Eu estava na partolândia e dizia ''Sophia quer nascer aqui e agora!''. Pedi um espelho para ver minha situação, quando posicionei, pude ver que o colo estava todo dilatado e ela estava ainda com a bolsa intacta.

Renato chamou um taxi - a essa altura, chamar Lalado mais uma vez seria muito desgastante para ele e não daria tempo. Para descer as escadas sem permitir que minha filha nascesse ali foi o maior sacrifício! Entrei no taxi e permaneci o percurso todo de 4 apoios - batendo a cabeça na porta, a cada curva desesperada que o taxista dava! (risos) - gritando e fazendo um esforço anti-fisiológico para manter minha filha dentro de mim por mais algum tempo.

Chegando à casa de parto, minha irmã procurou me posicionar de 4 apoios na recepção e logo a funcionária conseguiu me alojar no consultório de admissão onde eu tinha sido examinada mais cedo. Não havia quartos disponíveis, pois a casa estava lotada. Mas eu não me importei. Eu só queria colocar Sophia no mundo e cuidar dela com o mínimo de intervenções médicas possível!

Deitei na maca, coloquei o pano na boca, segurei as mãos de Renato e deixei fluir. Siomara, a enfermeira obstetra que tinha me avaliado mais cedo, me chamou de sortuda porque ela jurava que nunca viu uma mulher com contrações ''não eficazes'' evoluir para parto ativo tão rápido. Em 8 minutos na posição semi-deitada sobre a maca, veio a primeira contração e eu forcei. Na segunda, a cabeça de Sophia saiu e logo em seguida o corpinho! Simples assim!!! Foi a sensação mais extasiante da minha vida! Foi o ápice de toda a felicidade que eu já tinha experienciado antes. A obstetriz apenas limpou o excesso de vernix da minha menina e a colocou de imediato sobre meu abdomen. Eu entrei em estado de euforia ao olhar minha cria pela primeira vez: chorei, sorri, agradeci, gritei... Quis trazê-la para meu peito, mas a placenta ainda não tinha saído e nós deixamos o cordão umbilical parar de pulsar para poder cortar. O pai dela teve a oportunidade de cortar o cordão.

Quando eu quis amamentar logo em seguida, fui alertada pela obstetriz de que eu não poderia amamentar antes de fazer o exame de sorologia. Eu questionei, pois já tinha feito todos os exames há menos de 1 mês e ela tinha verificado. Então ouvi a primeira menção da palavra ''protocolo do Ministério da Saúde''. Uma auxiliar veio, portanto, coletar meu sangue para fazer análise imediata. Outra auxiliar veio com um frasco de iodo povidona e uma seringa com vitamina k para aplicar em Sophia, sem ao menos me dizer o que era aquilo. Eu contestei, disse que não queria aqueles procedimentos, que não tinha sido avisada sobre a obrigatoriedade dessas intervenções naquela instituição, que eu tinha feito um plano de parto e essas decisões já tinham sido estudadas por mim, pelo pai e pela doula. A auxiliar não gostou do meu comportamento. Veio outra e pegou meu braço, perguntei o que era aquilo e ela explicou que era para evitar hemorragia em mim. Aplicou e pronto. Deixei, né!

Naquela hora, essas abordagens que tornam a parturiente um objeto passivo não me incomodaram tanto, porque eu ainda estava sob efeito do coquetel de hormônios natural, que o meu corpo teve a oportunidade de produzir, pois eu dei o tempo que ele precisava para isso... Era tanta ocitocina e endorfina, tanto amor pela minha pequena Sophia... Pediram para pegá-la, depois de alguns minutos no meu braço, para medir, pesar e outros ''protocolos''. Só deixei e confiei porque Renato estava junto e Samara também estava por lá.

Desci sozinha da maca, com ajuda da enfermeira, minha xará. Fui levada a um quarto onde já havia uma puérpera com seu RN. A casa estava cheia e eu precisava dividir quarto. Tomei banho sozinha, já me sentia 100%. As dores simplesmente desapareceram totalmente, senti novamente a facilidade de me movimentar sem a barriga. Estava em êxtase e queria mais do que tudo terminar o banho e pegar minha filha no colo. E quando segurei Sophia novamente, fui inundada mais uma vez por uma tsunami de Amor!

Mais tarde, uma outra obstetriz veio conversar comigo e Renato sobre a aplicação da vitamina K e do colírio em Sophia. Nós protestamos porque a vitamina K tem a possibilidade de ser administrada via oral, sem precisar furar o corpinho do bebê, já cansado do parto. E o colírio só é necessário em casos onde a mãe tem alguma doença que possa ter infectado a visão do bebê, o que não é meu caso. Tive o cuidado de fazer TODOS os exames possíveis durante meu pré-natal e no último mês da gestação, justamente para evitar qualquer sofrimento à minha filha. Mas ela explicou que ali era uma instituição que trabalha em parceria com o SUS e, portanto, deve seguir alguns ''protocolos'' do Ministério da Saúde. Ela conversou com muita paciência e disse ainda que eu e Sophia não teríamos alta, e pior, eu poderia ser processada por negar um ''direito do bebê'' - algo que é extremamente contestável! Enfim, disse que ela mesma poderia responder judicialmente se algo acontecesse com minha filha, devido à omissão dela enquanto profissional. Acabei cedendo a tanta pressão psicológica e vi minha filha ser furada - sem necessidade - e dar o primeiro choro de dor da vida dela. Depois vi minha filha ter os olhinhos inundados de iodo povidona - sem necessidade - e ficar sem poder enxergar direito.

Quando eu penso que poderia ter parido em casa, sinto uma pontinha de arrependimento por não ter me organizado e corrido atrás disso. Seria uma opção dispendiosa, em torno de 6 a 8 mil reais - o mesmo preço médio de uma cesárea - mas certamente seria muito mais tranquilo e prazeroso, sem violência e desconforto algum. Eu já tinha passado 33 horas de trabalho de parto todo em casa, na companhia de Renato e Samara, usando apenas métodos naturais de alívio da dor. Senti a fase ativa, o ''círculo de fogo'', no conforto e na privacidade da minha cama. Se o ambiente estivesse preparado, eu pariria lindamente em casa.

Não vou relatar o período de avaliação – mais de 24 h - que passei na casa de parto, pois não quero comprar briga, nem parecer ingrata. Eu agradeço a Deus, por ter permitido que tudo fluisse sem intercorrência alguma, e à equipe que procurou me atender da melhor maneira que pode. Fui bem acolhida, percebi a dedicação das funcionárias em improvisar uma cama para mim, e arranjar algum assento para meu acompanhante. A equipe da Mansão é muito atenciosa e trabalha por amor ao serviço, apesar de ainda faltar só um pouco mais de trato para se chamar verdadeiramente de assistência humanizada: avisar à paciente sobre os procedimentos que serão administrados nela e no bebê, e perguntar se ela permite, seria um bom começo. E como obedecem aos ''protocolos do Ministério da Saúde'', elas deveriam ter me avisado sobre isso no dia em que fui fazer análise de perfil, quando estava com 37 semanas.

Concluindo, a casa de parto da Mansão do Caminho é a única em Salvador com essa possibilidade de respeito à fisiologia do parto, mas parece que o Ministério da Saúde impõe algumas práticas que devem ser discutidas. Me assusta como o ''sistema'' se apodera do corpo do RN, impõe direitos e deveres e não aceita contestação. Nós, pessoas humanas, mulheres e homens, mães e pais, não temos real liberdade de escolher como queremos parir, como queremos que nosso bebê seja tratado ao nascer. E, ao contestar os ''protocolos'' - que em sua maioria não são baseados em evidências - somos chamadas loucas, somos ameaçadas de perder a guarda do ser que botamos no mundo com tanta dor e tanto amor, somos pressionadas a seguir as ordens ''supremas'', como bois e vacas de abate.

Mas, apesar de tudo ter acontecido como eu NÃO PLANEJEI, agradeço à misericórdia divina por tudo ter acontecido na força do amor: Não tive laceração nem sofri episiotomia, portanto não levei ponto algum; não sofri manobras absurdas e retrógradas para acelerar a saída da minha filha; não fui obrigada a receber hormônio sintético para acelerar as contrações; não fui mandada calar a boca; pude gritar – apesar de ter preferido usar o pano na boca; pude escolher a posição que quis – e pasmem, quis ficar na maca mesmo; pude ter a companhia de duas pessoas de minha total confiança o tempo todo; meu bebê teve seu estoque de ferro assegurado pelo clampeamento tardio do cordão umbilical; minha bebê não foi lavada por ninguém, não foi aspirada nem sondada; fui bem acolhida e assistida, apesar das imperfeições meramente humanas e institucionais já pontuadas. Enfim, estamos bem e saudáveis. Eu agradeço.



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